Jornal Mundo Espírita

Novembro de 2020 Número 1636 Ano 88

Caminho da Liberdade

novembro/2020 - Por Maria Helena Marcon

Uma extraordinária história de perdão, persistência, companheirismo, desprendimento, num cenário em que se revezam temperaturas abaixo de zero, calor do deserto, falta de alimento e de água.

Baseado em livro de memórias do oficial do exército polonês Slamovir Rawicz, narra a fuga de prisão na Sibéria e uma caminhada de sessenta e cinco mil quilômetros até a Índia. O fato teria ocorrido no ano de 1940, embora em 2006, tenha sido questionada sua veracidade, porque, dizem, Rawicz não teria apontado evidências que comprovassem a sua história.

Porém, outras fontes afirmam ter sido verídica a epopeia.

Em 1939, após a invasão soviética-alemã da Polônia, o esbelto e elegante tenente da cavalaria polonesa, Rawicz, foi acusado de espionagem pela NKVD – Comissariado do Povo para os Assuntos Internos. Filho de mãe russa e fluente no idioma, se tornou o suspeito perfeito para os bajuladores alçarem-se às altas posições do partido comunista e, após a confissão de sua jovem esposa, obtida por tortura e espancamento, ele se tornou réu de crime jamais cometido.

Para salvar a vida da parceira, assinou sua confissão. Sem seu uniforme finamente talhado, despido de suas reluzentes botas da cavalaria, alquebrado e privado de toda dignidade, Rawicz se viu dentro de um dos mais cruéis sistemas penitenciários do mundo.

Logo na chegada, ao descer em Yakutsk, no leste da Sibéria, a temperatura que saudou a ele e aos demais novos prisioneiros era de 32 graus negativos, considerada até suave pelos veteranos do campo de prisioneiros.

Veteranos que enfrentavam aquelas condições há uns dois anos, o período mais longo possível desde que os soviéticos haviam descoberto ouro na região, em 1937. Dada a carência de trabalhadores num lugar tão desolado, gélido e desprovido de condições para se sobreviver, o ditador Joseph Stalin para ali enviava muitos dos chamados inimigos do Estado.

O novo condenado, denominado aqui de Janusz tem, de imediato, a terrível visão de um gulag soviético, sistema de campo de trabalhos forçados para criminosos, presos políticos e qualquer cidadão que se opusesse ao regime na União Soviética.

As circunstâncias eram penosas e incluíam fome, frio, trabalho intensivo de características próprias da escravatura, com horários excessivos e guardiões desumanos.

Essa desumanidade, diga-se, plenamente dispensável. Nada os autoriza à crueldade que exercem, conforme registra o Codificador as considerações dos Espíritos, ao lhes indagar se o homem seria culpado dos assassinatos praticados durante um conflito armado.

A resposta é negativa, dizem eles, quando constrangido à força. Mas, acrescentam, é culpado pelas crueldades que cometa, sendo-lhe levado em conta o sentimento de humanidade com que proceda.1

Portanto, nessa prisão, a crueldade é nota acrescentada por conta própria, não exigência do cargo.

O que se registra, desde o início, é que no coração de Janusz não há rancor contra a esposa. Ele entende, perfeitamente, que ela, ante as torturas, cedeu, delatando o que desejavam os que a fizeram prisioneira.

Perdão. De um modo geral, quanto mais próxima se faz a pessoa que agride, trai, mais dor suscita na alma daquele que isso recebe. Costuma-se dizer que mais difícil se torna, portanto, a ação do perdão.

No entanto, quem verdadeiramente, ama, perdoa. Quem perdoa, compreende a fragilidade do outro, que o levou a agir de forma indevida.

Sede indulgentes com as faltas alheias, quaisquer que elas sejam; não julgueis com severidade senão as vossas próprias ações e o Senhor usará de indulgência para convosco, como de indulgência houverdes usado para com os outros.2

Essa é a recomendação evangélica, diga-se, que somente confere paz.

Um outro forte sentimento vive no coração de Janusz, em meio àqueles prisioneiros de guerra, inimigos do regime, criminosos de toda sorte (roubo, imoralidade, violência sexual, vadiagem), um único foco lhe ilumina a mente: fugir.

Os guardas não se preocupam em demasia com a segurança, embora tenham armas, torres de vigia, cães treinados para caça a eventuais foragidos. No entendimento deles, a neve por quilômetros e quilômetros é a maior aliada para a manutenção dos condenados portões adentro da prisão.

Fugir é condenar-se à morte. Não há como vencer a neve, o frio.

Porém, Janusz e mais seis companheiros arquitetam a fuga, aguardando somente o momento propício, que ocorre, durante uma forte nevasca. Descobrem, quase de imediato, que essa é a parte mais fácil porque o que eles terão que enfrentar será nada menos do que uma caminhada até o Himalaia congelado, antes que possam ser verdadeiramente livres.

O que as mais de duas horas de filme nos apresentam é o ardente desejo de liberdade que, contudo, é acompanhado de companheirismo, de ética, em que há um acordo reverenciado de não se deixar ninguém para trás e, mesmo ante a fome terrível, de forma alguma praticar o canibalismo. Ressalte-se ter sido essa a proposta inicial de um dos integrantes do grupo, prontamente rechaçada pelos demais.

Exatamente esses detalhes é que sensibilizam.

Quando um dos companheiros não consegue mais avançar, por trazer os pés em estado lastimável (consideremos que enfrentaram primeiro as queimaduras pelo frio implacável, depois a inclemência da aridez do deserto), outro retarda o próprio passo e o carrega.

Solidariedade é sentimento que leva o homem a pensar mais no seu próximo do que em si mesmo. A se sentir irmão do seu irmão e zelar pelo seu bem-estar.

A demonstração é da existência do espírito nobre e perseverante do homem diante da adversidade. Mais do que isso, é justamente quando está sob fogo cerrado que o mais belo do humano se revela.

Os sete homens reunidos na fuga se veem privados de água, de comida, de qualquer traço de dignidade, sem, contudo, colocar em risco qualquer valor de nobreza. São contra o roubo de alimentos das fazendas por onde passam, não admitem comer a carne humana dos parceiros já mortos.

Antes, se detêm e lhe conferem sepultura, regada a orações, em que exaltam a liberdade daquele que se foi, liberdade alcançada nos campos da Imortalidade para onde se transladou.

Ter a certeza da Imortalidade confere diferente forma de encarar a vida. Luta-se pelo pão que nos sustenta, o abrigo, a vestimenta. Mas, não se transgridem as leis morais. Conforme a afirmativa do Mestre de Nazaré aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á.3
A compaixão é outro sentimento bem evidenciado, na narrativa, pois que encontram pelo caminho, que vai da Sibéria ao Deserto de Gobi e o Himalaia, até chegar à Índia britânica e não-comunista, uma linda jovem polonesa, Irena.

É um momento crucial porque estão exatamente correndo o risco de ter ainda mais racionada a pouca comida que encontram aqui e ali, pela caça, chegando a disputarem com lobos vorazes a carniça. Eles a admitem como se seus pais fossem e dividem o que têm: comida, água.

Impressionante que não há sequer um olhar de qualquer daqueles homens, que sugira um desejo sexual ou uma violência. Ser homem e ser bom é viável, é possível, não importam as circunstâncias.

O verdadeiro homem de bem é o que cumpre a lei de justiça, de amor e de caridade, na sua maior pureza. Se ele interroga a consciência sobre seus próprios atos, a si mesmo perguntará se violou essa lei, se não praticou o mal, se fez todo o bem que podia, se desprezou voluntariamente alguma ocasião de ser útil, (…) enfim, se fez a outrem tudo o que desejara lhe fizessem.4

No contexto, a grande inimiga é a natureza. O frio será substituído pelo calor, a neve pela areia. No trajeto, encontram uma ou outra criatura que os auxiliam.

Em meio ao deserto, água lhes é ofertada por um garoto montado em seu camelo. Não há comunicação verbal entre ambos porque não falam o mesmo idioma. No entanto, o olhar de compaixão de um lado e a imensa gratidão dos tantos pares de olhos do outro, falam de forma ímpar.

Quem pode viver sem gratidão? Todos temos alguém que nos estendeu a mão um dia. Alguém que, em criança, nos satisfez o desejo de um doce, de um brinquedo; alguém que nos conduziu à escola, que nos desvendou o mistério das letras e dos números, alguém que nos amparou quando estivemos próximos a despencar em um abismo de dor, de desânimo, de desespero.

Há sempre alguém a quem agradecer. Sobretudo ao Pai Celeste, ao nosso anjo guardião, encarnado ou desencarnado.

É um filme de muitas lições, e de muitos sobressaltos. A cada percalço no caminho, cogita-se se todos se manterão firmes, se não transgredirão leis para alcançarem o que almejam.

E o final, embora somente três alcancem o objetivo, a vitória foi de todos e de cada um. Lutaram pela liberdade, mas não se permitiram corromper, mantendo a honradez, sob todas as circunstâncias.

O ápice, num final sem igual, será quando Janusz finalmente alcançará o lar, anos depois, em 1945. De volta aos braços da esposa, demonstrando o verdadeiro perdão.

 

Referências:

1 KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974. pt. 3, cap. VI, q. 749.

2 ______. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. X, item 17.

3 BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 16, vers. 25.

4 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. XVII, item 3.

 

 

Ficha Técnica:

The way back

Gênero: Drama, guerra, história

Direção: Peter Weir

Roteiro: Peter Weir, Slavomir Rawicz, Keith Clarke

Elenco: Jim Sturgess, Ed Harris, Saoirse Ronan, Colin Farrell, Alexandru Potocean, Nigel Sinclair, Anton Trendafilov, Gustav Skarsgard

Produção: Nigel Sinclair, Duncan Henderson, Joni Levin, Peter Weir

Trilha Sonora: Burkhard Dallwitz

Duração: 133 minutos

Ano: 2010

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