Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2020 Número 1634 Ano 88
Trabalhadores do Bem Envie para um amigo Imprimir

Cairbar Schutel

novembro/2019 - Por Mary Ishiyama

Era um homem bom. Assim o denominou um de seus biógrafos1.

Cairbar de Souza Schutel nasceu em 22 de setembro de 1868, no Rio de Janeiro, sede da Corte Imperial do Brasil. Filho de Anthero de Souza Schutel e Rita Tavares Schutel. Órfão de pais antes dos dez anos de idade, foi criado pelo avô, Henrique Schutel.

De espírito livre e independente, decidiu trabalhar e, aos dezessete anos, era um bom prático de farmácia. Mudou residência para São Paulo, morando em Piracicaba, Araraquara e Matão.

Matão tinha poucos habitantes, lutava para se emancipar de Araraquara. Cairbar era um homem irrequieto e um tanto polemista. Com o vigário, o delegado, o professor e o agente postal, que eram as pessoas influentes da região, trabalhou por essa emancipação, que se concretizou.

Em 1899, assumiu a Câmara Municipal, como presidente, cargo equivalente ao de prefeito. Exerceu a arte de governar e administrar bem o povo e os bens públicos. Ficou conhecido pela sua competência e amor à cidade. Em discurso, Hilário Freire, na Câmara do Estado, assim se manifestou: Em 1898, o operoso, humanitário e patriótico cidadão Cairbar de Souza Schutel, empregando todo o largo prestígio político de que gozava e comprando com seus próprios recursos o prédio para a instalação da Câmara, conseguiu a criação do Município de Matão.2

Mas, a maior missão de Cairbar ainda estava por vir. Sua família não era exatamente religiosa, tanto que foi batizado aos sete anos de idade. Essa era sua indagação: Por que seu pai, que era um homem justo, não o levava para a igreja? Por que não usou a religião para lhe forjar a moral?

Cairbar era católico, mas sentia necessidade de algo mais. Certa vez, em conversa com Calixto Nunes de Oliveira, médium, manifestou seu desejo de ir a uma reunião mediúnica. Soube que, há mais de dois anos, as sessões haviam sido abandonadas, porque compareciam Espíritos muito atrasados pedindo ao médium que falasse para o padre rezar missa por eles, o que era dispendioso.

Intrigado, Cairbar insistiu para fazerem uma reunião. Calixto, que lhe tinha muito apreço, cedeu, mas avisou: Se vierem Espíritos perturbados pedir missa, o senhor pagará ao vigário.

Nessa sessão, em casa do velho Calixto, nenhum Espírito pediu missa e, entre os que se fizeram presentes, um deles trouxe bela mensagem a Cairbar, fazendo referência à missão que ele teria que desempenhar.

No dia seguinte, Schutel mandou buscar, no Rio de Janeiro, O Livro dos Espíritos e O Evangelho segundo o Espiritismo. Logo depois, toda a obra de Allan Kardec.

Em 1905, fundou o Centro Espírita Amantes da Pobreza e o Jornal O Clarim. Em 15 de fevereiro de 1925, com a colaboração financeira de Luís Carlos de Oliveira Borges, a Revista Internacional de Espiritismo.

Casado com Maria Elvira da Silva, não tiveram filhos. Era ela quem cuidava da arrumação do Centro onde seu marido esclarecia aos Espíritos, de forma magistral.

Ficou, também, conhecido como Médico dos pobres, Pai da pobreza de Matão. Receitava e dava medicamentos. Às vezes, sua residência servia de hospital, permanecendo ali alguns doentes, até poderem retornar aos próprios lares, restabelecidos.

Procurava envolver os jovens nas atividades do Centro, preparando-os para assumirem a tribuna. Antes de sua própria preleção, habitualmente, um jovem oferecia alguma mensagem. O menino Hugo Gonçalves foi chamado, um dia, para recitar uma poesia, mas  resolveu escrever uma crônica doutrinária e pediu a opinião de Cairbar. Ele a colocou no bolso, sem nada responder. Então, Hugo viu publicado no Jornal O Clarim, com pequenas alterações, seu texto Uma noite maravilhosa.

Graças a esses pequenos e importantes cuidados, Hugo Gonçalves, anos mais tarde, se tornou diretor do jornal espírita O Imortal, em Cambé, no Paraná.

Cairbar se preocupava também com os presidiários. No Natal, os visitava, sentava-se junto deles e os ouvia com carinho e atenção. Jamais julgou alguém, sendo solidário com os seus sofrimentos.

Zêus Wantuil descreve Schutel como: Polemista emérito, jamais se curvou às injunções e às perseguições que naqueles tempos se moviam ao Espiritismo. Os próprios adversários do Espiritismo não tinham coragem de atacá-lo, tão grande era a sua projeção moral. E a grandeza da sua dedicação fazia que o estimassem, cheios de respeito.

Foi um homem que procurou viver a Doutrina Espírita, na sua mais profunda expressão. Divulgou-a com seu verbo eloquente, com sua vida, usando a mídia da época, e projetando para o futuro. Basta dizer que o O Clarim e a Revista Internacional de Espiritismo continuam ativos.

Foi pioneiro na divulgação espírita, pelas ondas do rádio. Ernesto Bozzano lhe enviou cartão, cumprimentando-o, por seu trabalho.

Durante o regime político, que ameaçava fechar os Centros Espíritas, inclusive a Federação Espírita Brasileira (que chegou a ser fechada por 24h), Cairbar tomou do cartão do cientista italiano, fez uma dedicatória pessoal e mandou ao Presidente Getúlio Vargas.

Não obteve resposta, mas disse aos amigos: Se a palavra de um brasileiro comum não é suficiente para conter a ameaça ao Espiritismo, vamos esperar que a manifestação do cientista e sábio Ernesto Bozzano consiga.

Cairbar Schutel desencarnou na cidade de Matão, em 30 de janeiro de 1938. Na sua lápide, se encontra a frase: Vivi, vivo e viverei, porque sou imortal.

Referências:

  1. LOURENÇO, Sérgio. Passagens de uma grande vida. São Bernardo do Campo: Correio Fraterno do ABC, 1994.
  2. MACHADO, Leopoldo. Uma grande vida. Matão: O Clarim, 1980.
  3. WANTUIL, Zêus. Grandes espíritas do Brasil. Brasília: FEB, 1990. cap. Cairbar Schutel.

 

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