Jornal Mundo Espírita

Abril de 2020 Número 1629 Ano 88

Caim, que fizeste ao teu irmão?

junho/2008

Moisés, o sábio legislador hebreu, em “Gênesis”, livro que inicia a Bíblia, traz-nos a chocante imagem do primeiro homicídio, em que Caim mata seu irmão Abel, sucumbindo sob o peso da inveja.

Não suportava a presença superior de Abel, que buscava servir a Deus com humildade. Queria ser o melhor! Orgulhoso, encheu-se de ira, “deixou cair o semblante”, passando a arquitetar a morte daquele a quem deveria amar.

Conquanto nós espíritas saibamos tratar-se de uma alegoria, não podemos deixar de reconhecer o valioso conteúdo educativo de que se reveste a passagem citada no Capítulo 4 do “Livro Sagrado”.

A inveja, sentimento de baixo teor espiritual, chega aos nossos dias como perigosa epidemia comportamental, vitimando a sociedade, até mesmo entre religiosos.

Religiosos que, em seus descontrolados impulsos, supondo estarem servindo ao Senhor, servem-se do Mestre, de sua Seara e de seus ensinamentos para darem vazão aos desejos de dominação e supremacia sobre os companheiros de ministério.

Quase sempre criaturas frustradas em suas intenções no mundo material, buscam no seio das práticas cristãs a exaltação da própria personalidade.

Derrotas profissionais, complexos, família desestruturada, baixa auto-estima, entre outros fatores, promovem distúrbios psicológicos naqueles que ainda não entenderam a sagrada mensagem do “amor ao próximo”.

Não foi por outra razão que Jesus, antecipando-se a esse nível de desequilíbrio, verberou: “Afastai-vos de mim, todos vós que praticais a iniquidade”. (Mt:7), respondendo aos que lhe  afirmavam: “Senhor! Senhor! Não profetizamos em Teu nome? Não expulsamos em Teu nome o demônio? Não fizemos muitos milagres em Teu nome?” (Mt:7)

Quem profetiza? Quem afasta demônio? Quem produz milagres? São os que estão matriculados em todas as escolas do Cristianismo.

Allan Kardec, em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, Capítulo XVIII (“muitos os chamados”) diz, textualmente, ao tratar da questão: “São os que desmentem com atos o que dizem com os lábios, que caluniam o próximo (…)”, são os que fogem  “da prática sincera da lei de amor e de caridade”, concluindo de forma lapidar: “Serão como a casa edificada na areia: o vento das renovações e o rio do progresso as arrastarão”.

Amados irmãos espíritas, companheiros do sacrossanto ideal de renovação humana, verdadeiros seguidores do Cristo, ouçamos o apelo divino do Espírito de Verdade em “Obreiros do Senhor”, no capítulo XX desse mesmo “O Evangelho segundo o Espiritismo”: “Vinde a mim vós que soubestes impor silêncio aos vossos ciúmes e às vossas discórdias, a fim de que daí não viesse dano para a obra!”

A literatura espírita está referta de exemplos de seguidores de todas as crenças que ressurgem pela mediunidade para lamentarem o tempo perdido em seus desvios e enganos. Abatidos e chorosos, buscam advertir-nos para que não reincidamos nos mesmos erros.

Tentam recuperar parte de seus fracassos, orientando-nos com suas experiências mal sucedidas.

Fica-nos a certeza de que a Doutrina Espírita não logrará o êxito desejado enquanto seus representantes não aplicarem em si mesmos o que sugerem para os outros.

Sabemos que o exemplo, como Jesus nos mostrou, não é uma das formas de se arrebatar consciências, é a única!

Meditemos enquanto há tempo! Para que o tribunal de nossa vida íntima, um dia, não venha a nos perguntar: “Caim, que fizeste ao teu irmão?”

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