Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2018 Número 1609 Ano 86
Trabalhadores do Bem Envie para um amigo Imprimir

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça

junho/2018 - Por Mary Ishiyama

Esta bem-aventurança pode ser personificada em Janusz Korczak. Entendendo profundamente a dor do semelhante, demonstrou que se pode buscar justiça sem se tornar um justiceiro, pode-se dar a vida pelo próximo sem gerar vingança. Seus gestos se tornaram inspiração para muitos em momento de tremendos sofrimentos.

Ele dedicou toda sua vida em favor da criança e do jovem. Tinha a convicção da necessidade de lutar pelos direitos das crianças, em um mundo governado por adultos. Escreveram a seu respeito: Se é verdadeira a lenda de que o Profeta Elias vem à Terra de tempos em tempos para alegrar e orientar os seres carentes, acredito que você, Janusz Korczak, médico, educador e escritor excelente, deve ter sido a reencarnação de um anjo do bem, que veio ao mundo para melhorá-lo através da criança.1

Henryk Goldszmit, mais conhecido como Janusz Korczak, um dos pseudônimos que usou como escritor, nasceu em Varsóvia, em 1878. A Polônia se encontrava sob o domínio russo. Sua família era da elite judaica integrada à sociedade polonesa, gozando de boa situação financeira.

Com a doença mental e morte precoce do pai, passaram por sérias dificuldades materiais. O jovem Henryk principou a dar aulas particulares, para auxiliar na manutenção do lar, descobrindo seu gosto e afinidade para lidar com crianças. Com a obtenção do diploma médico, as finanças começaram a melhorar, contribuindo também sua reputação de escritor que se afirmava.

Entre 1904-1905, foi recrutado como médico no exército do Czar. Participou da guerra russo-japonesa em Harbin, aprendendo o idioma chinês com as crianças da Manchúria. Nesse período, escreveu muitos artigos sobre a criança e publicou em sua coluna na revista Glos. Amplamente divulgados, esses artigos compuseram o livro Crianças de salão, editado em 1906, com boa aceitação pela crítica.

Entre 1905-1912, trabalhou como pediatra no Hospital Pediátrico de Berson e Bauman, tendo contato com as zonas proletárias da cidade. Pouco cobrava, sendo mais comum dar dinheiro para os medicamentos.

Viajou pelo estrangeiro com fins acadêmicos, estagiou em clínicas pediátricas, visitou instituições de educação e proteção de menores. Descobriu que sua vida deveria ser devotada às crianças e jovens.

Conheceu trabalhos pedagógicos de John Dewey, Maria Montessori, Ovide Decroly, Johann Heinrich Pestalozzi. Escreveu e proferiu palestras sobre a necessidade da educação e da pedagogia para se lidar com a criança.

O trânsito da Polônia de sociedade agrária para a industrial atraiu muitas pessoas para as cidades, porém, não tinham qualificação. Surgiram as crianças de rua, com quem ninguém se importava.

Diante dessa realidade, influenciado pelo pensamento de Jean Jacques Rousseau quanto ao desenvolvimento natural das crianças e pelo método de educação de Pestalozzi, em 1912, Janusz inaugurou o orfanato Don Sierot, em Varsóvia. Mantido por judeus proeminentes, chegou a acolher mais de cento e cinquenta crianças.

Ele envolveu as crianças na administração. Criou o quadro de avisos, caixa de cartas, vitrina de objetos achados, divisão de trabalho, comitê de tutela, reuniões-debate, jornal, tribunal de arbitragem, no qual, sempre que acontecia algo grave, os educadores, junto com as crianças, debatiam o ocorrido e davam o veredito, podendo haver apelação.

Em 1919, a pedido do Ministério da Educação Polonesa, Janusz e sua amiga Maryna Falska inauguraram o orfanato Nasz Dom, ou Nosso Lar, nos moldes do Don Sierot, para crianças católicas, filhos dos operários da cidade de Pruzcow, sul da Polônia.

Em 1939, com a Polônia sob o domínio de Hitler, Janusz e suas crianças foram retirados do amplo e moderno Don Sierot e enviados para o gueto de Varsóvia, para uma casa que mal abrigava os órfãos, em número sempre crescente.

Independente das tragédias encontradas no gueto, as crianças continuavam a ter os cuidados habituais. Janusz não descuidava dos estudos. Vez ou outra convidava estudiosos judeus, confinados ao gueto,  para  lecionar natureza histórica, social ou literária.

Entre julho e setembro de 1942 mais de trezentas mil pessoas foram para os campos de extermínio em Treblinka, entre elas essas crianças.

Janusz Korczak era um nome conhecido internacionalmente. Foi convidado a se retirar daquele lugar, poderia salvar sua vida.

Mas, aos 64 anos de idade, o velho doutor uniu-se aos demais educadores e caminharam com as crianças para os fornos.

Conta-se que duzentas crianças marcharam cantando e em fila organizada. As mais assustadas iam de mãos dadas ou no colo dos educadores, tendo à frente Janusz, levando ao colo uma criança e segurando outra pela mão.

Esse magnífico homem fez toda a diferença na vida de milhares de pessoas, com sua postura na vida, nos vários períodos de guerra, nos quais trabalhou como médico, nos campos e guetos portando, até na hora da morte, sua convicção obstinada e indestrutível de que a dignidade humana poderia vencer, embora tudo parecesse provar o contrário.

A minha vida foi difícil, mas interessante. É o tipo de vida que pedi a Deus na minha mocidade: “Meu Deus, conceda-me uma vida dura, mas bela, rica e elevada.1

 

Referências:

  1. SARUE, Sarita Mucinic. Janusz Korczak: Diante do sionismo. 2011. 145 f. Tese (Mestrado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade São Paulo. Departamento de Letras Orientais.
  2. https://pt.wikipedia.org/wiki/Janusz_Korczak
    3. http://www.chabad.org.br/biblioteca/artigos/janusz/home.html
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