Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2020 Número 1634 Ano 88

Basta o Amor

junho/2020

Contam que um jovem sedento de afirmação espiritual procurou certa vez o pensador e sacerdote hebreu Shammai e o interrogou:

“Poderias ensinar-me toda a Bíblia durante o tempo em que eu possa quedar-me de pé, num só pé?”

“Impossível!” – respondeu-lhe o filósofo religioso.

“Então de nada me serve a tua doutrina” – redarguiu o moço.

Logo após buscou Hilel, o famoso doutor, propondo-lhe a mesma indagação. O mestre, acostumado à sistemática de lógica e da argumentação, mas, também, conhecedor das angústias humanas, respondeu:

“Toma a posição.”

“Pronto!” – retrucou o moço.

“Ama!” – elucidou Hilel.

“Só isso?! E o resto, que existe na Bíblia?” – inquiriu, apressadamente.

“Basta o amor” – concluiu o austero religioso. –“Todo o restante da Bíblia é somente para explicar isso.”1

*

Os dias atuais são de incertezas.

Nove, dentre dez notícias, tratam de pandemia, de epidemias, de fome, de guerras, de enfermidades e morte.

Não bastasse esse quadro nada risonho, os governantes, ao redor do mundo, não encontraram um protocolo de procedimentos a ser adotado por todos em nome do não alastramento ou, menos ainda, de ação terapêutica.

Tateiam no escuro, desnorteados quanto qualquer um diante do desconhecido inimigo invisível, e caminham, pouco a pouco, na base do acerto e do erro.

Agravam-se as consequências com o fantasma do colapso da economia, do desemprego.

É natural que, diante desse panorama, a insegurança ganhe status de presença não desejada; o medo de hóspede não convidado e a sensação de opressão, nódoa emocional de difícil remoção.

Paira no ar, no entanto, há milênios, o suave convite: Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.2

O momento que vivenciamos pede mais profundas reflexões sobre o nosso relacionamento pessoal conosco mesmo, com a família, com o próximo e com Deus.

Um parâmetro comparativo entre coisas, ideias, posturas, facilita a constatação de nosso posicionamento a respeito do que é e do que deve ser a vida, sua razão de ser, seu significado.

No caso do relacionamento, tenhamos como parâmetro o protocolo comportamental: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.3

*

(…) irrompem os dilaceramentos orgânicos, as infecções bacteriológicas, em razão do enfraquecimento das defesas imunológicas por decorrência dos distúrbios emocionais, convidando à conscientização de si mesmo, com a consequente recomposição dos campos psicomorfológicos, responsáveis pela saúde, elucida-nos Joanna de Ângelis.4

*

Pedro, em seu labor apostolar, teve ensejo de afirmar: Mas, sobretudo, tende ardente amor uns para com os outros; porque o amor cobrirá a multidão de pecados.5

Sintetizemos no chamado pecado – no sentido de desajustes morais – o causador do rompimento da necessária harmonia para a manutenção do estado de saúde, por gerar distúrbios emocionais que enfraquecem o sistema imunológico.

Para a recomposição dos campos psicomorfológicos, a esperada terapia foi apresentada por Jesus nas diversas ocasiões em que Ele foi instado a realizar milagres, com Suas curas que fugiam do usual e do sabido: Não peques mais, para que não te suceda alguma coisa pior.6

*

À semelhança daqueles dias, os atuais exigem respostas incisivas e concisas.

E as respostas não estão lá fora, mas dentro de cada um de nós, a um passo de nosso coração.

Comecemos por considerar que a realidade do mundo exterior é reflexo da realidade do interior dos nossos corações.

Somos regidos pela lei de retorno.

Se a semeadura foi de ventos, a colheita será de tempestades.

Qual tem sido nossa semeadura perante a vida?

Na parábola do semeador, o Nazareno fala da semente que encontra solo fértil e produz frutos em quantidade. O solo fértil alimenta a germinação até a frutificação com a seiva vigorosa, saudável.

Qual a qualidade da seiva que produz nossos corações para alimentação de nosso crescimento espiritual?

A Benfeitora Joanna de Ângelis é pontual ao destacar a necessária conscientização de nós mesmos, e o nosso esforço na recomposição do campo psicofísico, a fim de termos equilíbrio, saúde.

Não há mais tempo para postergação.

Crenças, escala de valores, comportamentos, relacionamentos, autenticidade, fidelidade, sinceridade, respeito, precisam deixar de ser apenas palavras de um vocabulário positivo, para fazerem parte de nossos sentimentos e marca registrada de nossas ações.

A constatação foi feita por Jesus: Este povo se aproxima de mim com a sua boca e me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim.7

Os dois mandamentos, dos quais dependem toda a lei e os profetas, nascem no Amor, que, por ser fator curativo, é também a melhor prevenção: O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem, e o homem mau, do mau tesouro do seu coração tira o mal, porque da abundância do seu coração fala a boca.8

O Amor é a essência da mensagem do Cristo. Que seja a excelência de nosso viver.

 

Referências:

1 FRANCO, Divaldo Pereira. Estudos Espíritas. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Rio de Janeiro: FEB, 1982. Introdução.

2 BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 11, vers. 28.

3 Op. cit. cap. 22, vers. 37 a 40.

4 FRANCO, Divaldo Pereira. Autodescobrimento: uma busca interior. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 1995. cap. 5, item Busca da unidade.

5 BÍBLIA, N. T. I Pedro. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 4, vers. 8.

6 Op. cit. João. cap. 5, vers. 14.

7 Op. cit. Mateus. cap. 15, vers. 8.

8 Op. cit.  Lucas. cap. 6, vers. 45.

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