Jornal Mundo Espírita

Outubro de 2021 Número 1647 Ano 89

Avatar

outubro/2021 - Por Maria Helan Marcon

Servindo-se delas para marcar o tempo ou adorá-las como divindades, o homem, desde sempre, teve os olhos postos nas estrelas. Os chineses primitivos chegavam a arremessar suas flechas incendiárias contra elas, imaginando que iriam alcançar algum habitante daqueles sóis da noite.

Religiosos da Antiguidade acreditavam que havia seres que viviam nesses mundos brilhantes da imensidão.

A existência de outras humanidades, em diferentes astros, que povoou a imaginação do homem, teve sua confirmação pelos luminares, que assessoraram ao Codificador Allan Kardec, estabelecendo que são habitados todos os globos que se movem no espaço e o homem terreno está longe de ser, como supõe, o primeiro em inteligência, em bondade e em perfeição.1

O filme Avatar explora exatamente esse desejo do ser humano de viajar pelo espaço e encontrar outras civilizações. Mas, como onde quer que a criatura vá, leva consigo sua carga de virtudes e de vícios, os humanos, que se instalam em Pandora, uma das luas de Polifemo, um dos três gigantes gasosos fictícios que orbitam Alpha Centauri, nada desejam além de explorar as reservas do precioso minério Unobtainium.

O chefe da operação mineradora emprega ex-soldados e ex-fuzileiros, como mercenários, em desmedida ambição, a ponto de estabelecer a extinção dos Na’vi, habitantes de Pandora. Medindo quase três metros de altura, ossos naturalmente reforçados com fibra de carbono e pele bioluminescente, com cauda, esses humanoides não fogem da figura humana, de conformidade com a informação de que, por toda parte, a forma corpórea é sempre a humana2.

Tudo encanta nesse planeta: as flores que brilham à noite, como estrelas caídas da abóbada celeste; a exuberância da vegetação; os estranhos animais, que guardam similitude com os que conhecemos, embora apresentem certas peculiaridades; as montanhas aéreas, escaladas pela habilidade dos Na’vi.

No entanto, exatamente como no planeta em que nos encontramos, o homem está muito mais interessado em conquistar tesouros perecíveis do que admirar a beleza e se esmerar no estudo de uma raça, com usos e costumes diferentes.

A mesma atitude, que nos caracterizou enquanto desbravadores dos continentes, volta a acontecer ao nos defrontarmos com novos mundos quando, em vez de nos unirmos aos seus habitantes e nos darmos as mãos, aprendendo sua cultura, resolvemos, simplesmente, que eles deveriam absorver o nosso idioma, a nossa cultura e se portarem como nós, ditos civilizados.

Em verdade, a civilização deve ser reconhecida pelo seu desenvolvimento moral. Somente teremos, verdadeiramente, o direito de nos dizermos civilizados quando houvermos banido, de nossa sociedade, os vícios que a desonram e quando vivermos como irmãos, praticando a caridade cristã. Até esse momento, seremos nada mais que povos esclarecidos, só tendo percorrido a primeira fase da civilização.3

Esse o motivo pelo qual, em toda a ficção, quando o homem alcança outros mundos, o seu é o desejo de posse, de poder, de mando e comando.

Talvez seja por essa razão que ainda nos é retardada a possibilidade de chegarmos a outros planetas. Como em Pandora, provavelmente, seríamos mais nocivos do que contribuintes a essas humanidades.

De um modo geral, o novo, o inusitado, nos confere temor, estranheza. Por isso, somente quando Jake, o humano, inicialmente contratado para ser um espião, compartilha material genético com um híbrido, criado por pesquisadores, e convive com os habitantes de Pandora, se apaixona pela sua cultura, sua forma de pensar e de viver.

A maneira como eles veneram e sentem profundamente a natureza, o faz descobrir a verdadeira riqueza da vida.

O respeito à vida animal nos remete à cultura indígena em que a simples derrubada de uma árvore é explicada aos deuses da floresta, especificando a finalidade, ou seja, para que será utilizada.

É assim que, para preservar a vida de Jake, Neytiri, filha do clã dos Omaticaya, embora contrafeita, sacrificará Thanator, a mais temida das criaturas de Pandora, a pantera do inferno, não, sem antes, lhe pedir perdão por ter que lhe retirar a vida.

Será convivendo com os Omaticaya, que Jake se apaixonará por aquela cultura que preza a vida, que respeita a fauna, a flora, cada espécie, reconhecendo, em cada uma, a peculiar forma de viver.

Os animais são muito interessantes. Semelhantes aos nossos conhecidos, têm acrescidas patas, alterados focinhos, a fim de personificarem a fauna diferenciada do planeta conquistado.

Os cavalos lembram os terrenos. São herbívoros de seis patas, com duas finas e longas antenas, uma de cada lado da cabeça, que transmitem ao animal a sensação de prazer e carinho. Também ajudam na troca de alimento, senso de direção e como alerta para perigos.

O extraordinário fica por conta da forma como esses animais obedecem ao cavaleiro: através de uma conexão neural entre ambos. Mesmo processo é utilizado para cavalgar os ikran, animais alados nativos. Eles representam um rito de passagem na vida dos aspirantes a guerreiro Na’vi, que devem escolher um deles para domar e montar. São extremamente difíceis de montar, por isso, conseguir domá-los, representa assumir uma posição de prestígio no clã. A conexão cerebral entre o animal e seu cavaleiro permite que os movimentos do animal, durante o voo, sejam precisos e a montaria fique, aparentemente, fácil.

Quem de nós não se sentiu motivado a realizar uma proeza dessas. Nós, que para voarmos, na atmosfera do nosso planeta, precisamos estar encerrados em um aparelho mais pesado do que o ar, não seria maravilhoso poder voar a determinadas alturas, livres, como se estivéssemos nas asas de um enorme pássaro?

O sentimento religioso é bem explorado pelo filme quando mostra a veneração à deusa Eywa e a Árvore das almas, essa que se apresenta como um grande templo em meio à natureza. Um templo natural, no coração da selva.

Junto ora o povo, unido roga pelas suas necessidades e se entrega ao que consideram um Poder Superior, o que nos remete à prece, essa invocação, mediante a qual o homem entra, pelo pensamento, em comunicação com o ser a quem se dirige. Pode ter por objeto um pedido, um agradecimento, ou uma glorificação.

Pela prece, obtém o homem o concurso dos bons Espíritos que acorrem a sustentá-lo em suas boas resoluções e a inspirar-lhe ideias sãs. Ele adquire, desse modo, a força moral necessária a vencer as dificuldades e a volver ao caminho reto, se deste se afastou.4

Quando a grande batalha destruidora, orquestrada pelos humanos, no intuito de destruir a Árvore Lar, desde que, debaixo dela se encontra o maior depósito do produto que desejam, se apresenta, em defesa da vida, se irmanam aos nativos, convocados pela deusa Eywa, todos os animais, mesmo os considerados ferozes. As cenas emocionam e, de alguma forma, nos remetem ao ensino de que tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo até o arcanjo, que também começou por ser átomo. Admirável lei de harmonia, que o vosso acanhado espírito ainda não pode apreender em seu conjunto!5

Se compomos uma enorme cadeia, cuidamos uns dos outros e, pelo mesmo direito à vida, nos irmanamos.

A comunicação com o sagrado, com os Espíritos do Bem não deixou de ser demonstrada. Jake é envolvido por sementes da Árvore da Vida, entendida como um sinal dos céus. Aquele que ali chegou é um enviado, alguém que fará a diferença e por isso, será admitido no clã.

Demonstra, em realidade, a sua liderança, quando consegue montar o Toruk, o rei dos predadores dos ares, listrado de vermelho, amarelo e preto, com asas que quase chegam a vinte e cinco metros, quando abertas e liderará a batalha. Esse animal é belíssimo e tem um lugar central no folclore e na cultura Na’vi, lembrado na dança, música e totens, que simbolizam o medo e o respeito pela criatura.

Exatamente, por isso, ao se deixar montar e liderar a defesa de todos, uma grande esperança alenta todos os habitantes de Pandora.

Ressalte-se a importância de uma verdadeira liderança, essa habilidade de influenciar pessoas para trabalharem entusiasticamente visando alcançar os objetivos identificados como sendo para o bem comum.6 Em nossa Terra, conhecemos grandes líderes, de caráter nobre, que realizaram proezas verdadeiramente inacreditáveis, alguns ofertando, pelo Ideal, a própria vida como holocausto.

No final, os maus humanos, aqueles que somente tinham ambição e egoísmo são mandados de volta para o seu planeta de origem.

A primeira analogia nos reporta ao que está ocorrendo em nossa Terra, neste momento de transição, de transformação para mundo de regeneração, em que os que se obstinarem no mal, serão relegados para outro planeta mais infeliz do que aquele em que ora vivem.7

A segunda tem a ver com o bem, que sempre vence, que tem existência real porque Deus promulgou leis plenas de sabedoria, tendo por único objetivo o bem. Em si mesmo encontra o homem tudo o que lhe é necessário para cumpri-las. A consciência lhe traça a rota, a lei divina lhe está gravada no coração e, ao demais, Deus lha lembra constantemente por intermédio de seus messias e profetas, de todos os Espíritos encarnados que trazem a missão de o esclarecer, moralizar e melhorar e, nestes últimos tempos, pela multidão dos Espíritos desencarnados que se manifestam em toda parte. 8

Avatar é, com certeza, um filme que nos conduz a inúmeras cogitações. A reflexionar o que em nós deve ser modificado, adequando-nos à Lei Divina, tanto quanto nos manter sonhando com o dia em que, tendo recolhido deste bendito lar terreno, tudo que nos possa ofertar em termos de progresso, tendo pago até o último ceitil9, possamos singrar outras maravilhosas moradas do Pai.

 

Ficha Técnica:

Avatar

Gênero: Ação, aventura, fantasia, ficção científica

Direção: James Cameron

Roteiro: James Cameron

Elenco: Sam Worthington, Zoe Saldana, Sigourney Weaver, Stephen Lang, Michelle Rodriguez, Giovanni Ribisi, Joel David Moore

Produção: James Cameron e Jon Landau

Trilha Sonora: James Horner

Duração: 162 minutos

Ano: 2009

 

Referências:

1 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974. pt. 1, cap. III, q. 55.

2 ______. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. III, item 9.

3 ______. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974. pt. 3, cap. VIII, q. 793.

4 ______. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. XXVII, itens 9 e 11.

5 ______. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974. pt. 2, cap. IX, q. 540.

6 HUNTER, James C. O monge e o executivo – Uma história sobre a essência da liderança. Rio de Janeiro: Sextante, 1989.

7 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. III, item 5.

8 ______. A Gênese – Os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2002. cap. III, item 6.

9 BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 5, vers. 28.

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