Jornal Mundo Espírita

Outubro de 2020 Número 1635 Ano 88

Autonomia e automatismo na evangelização espírita

outubro/2014 - Por Cezar Braga Said

Não é consolador e belo poder dizer: “Sou uma inteligência e uma vontade livres; a mim mesmo me fiz, inconscientemente, através das idades; edifiquei lentamente minha individualidade e liberdade e agora conheço a grandeza e a força que há em mim. Amparar-me-ei nelas; não deixarei que uma simples dúvida as empane por um instante sequer e, fazendo uso delas com o auxílio de Deus e de meus irmãos do espaço, elevar-me-ei acima de todas as dificuldades; vencerei o mal em mim; desapegar-me-ei de tudo o que me acorrenta às coisas grosseiras para levantar o voo para os mundos felizes!” Léon Denis – O Problema do Ser, do Destino e da Dor, pt. 3, cap. XX

 

Autonomia diz respeito a certa capacidade de pensar e agir por conta própria, com relativa independência, sem perder de vista as implicações deste pensar e deste agir nos diferentes grupos nos quais nos inserimos.

O estudo individual e coletivo dos preceitos espíritas, assim como o esforço para vivenciá-los, nos insere num processo gradativo de amadurecimento espiritual, tendo como consequência o desenvolvimento desta autonomia.

Caminhar com mais autonomia não significa adotarmos a ilusão da autossuficiência, deixando de aprender com os exemplos à nossa volta, com as experiências alheias, mas, implica sim, em evitar vivermos nos comparando com os demais, culpando-nos pelo que não fizemos bem feito ou pelo que deixamos de fazer. Isso porque a culpa tende a não promover nem transformar, mas a oprimir, paralisar.

É entender, também, que cada um tem seu ritmo, suas prioridades, seu grau de envolvimento e de compromisso com o Espiritismo, o Centro e o Movimento Espírita.

Portanto, quando nos decidimos por abraçar a tarefa de evangelizar-evangelizando-nos, mesmo atuando em equipe, não deixamos de ter opiniões, não anulamos nossa individualidade, mas somos convidados a colocá-las a serviço do grupo e das decisões coletivas. E isso requer humildade e  boa dose de autoconhecimento para que o nosso ego não nos faça ser o integrante-problema da equipe de trabalho.

Ser um evangelizador autônomo não significa fazer tudo ao nosso modo e à revelia do que pensam os demais, mas levando-se em conta os objetivos que traçamos juntos e a liberdade que temos para ser criativos, podermos imprimir a nossa marca, sem preocupação com destaque, competição ou qualquer tipo de projeção.

Essa autonomia, num sentido cristão, não se configura apenas como uma capacidade de expressar livremente o que pensamos e sentimos, mas também num aperfeiçoamento no modo como dizemos, sabendo dosar o ouvir e o falar, o ensinar e o aprender, o manter e o mudar, o romper e o continuar, sempre de maneira construtiva.

Trata-se de uma postura coerente com os princípios espíritas que abraçamos.

Já o evangelizador autômato é um mero repetidor da tradição, é a pessoa que nunca questiona nenhum aspecto da espinha dorsal de todo processo educativo: planejamento, objetivo, metodologia, aprendizagem, disciplina, avaliação e assim por diante.

É alguém que se resume a executar, de forma ingênua e acrítica, o que foi pensado e decidido por outros.

Não quer ter o cuidado de examinar, pesquisar, exercitar sua capacidade crítica, propor mudanças, rever o que não está bom. Isso o cansa, o aborrece, pois julga uma perda de tempo ficar avaliando certos aspectos do programa quando há muito trabalho para fazer e é preciso botar a mão na massa. Não consegue perceber que esse exercício é parte integrante da tarefa de quem educa.

Essa postura acaba se refletindo em sua relação consigo, pois pouco se autoavalia e se percebe, não se dando conta do quanto seus encontros com as crianças e jovens é enfadonho, sem um quê de atualidade na linguagem, nas atividades, nas técnicas que utiliza e nos próprios objetivos que persegue.

Se quisermos uma evasão menor e uma motivação cada vez maior da parte dos evangelizandos, seguida de uma presença alegre e espontânea, desejada mesmo a cada semana e até lembrada por eles aos pais, é importante atentarmos onde nos situamos: na autonomia ou no automatismo da tarefa?

Tanto em seu Plano proposto para melhoria da Educação Pública (1828) quanto em seu Discurso pronunciado na distribuição de prêmios (1834), o Professor Rivail chamou-nos a atenção para a importância da preparação à qual o educador precisa se submeter se quiser realizar com excelência a sua tarefa. Disse ele: Faço tanto caso de um educador (como educador e não indivíduo) que não estudou sua arte, quanto de um charlatão que ministra drogas, que ele diz aprovadas pela Academia de medicina. (…) mas há uma grande diferença entre um professor e um educador; o primeiro se limita a ensinar; é suficiente, para cumprir sua função, ser bem instruído e ter um bom método; mas o segundo é encarregado do desenvolvimento inteiro do homem e a isto se dá menor importância.

Para desenvolver um ser humano inteiro, é preciso que nos vejamos por inteiro por meio de um processo de autoconhecimento.

É preciso que tenhamos uma visão ampla da Codificação Espírita,  entendamos como a evangelização espírita infanto-juvenil se situa nos contextos do Centro e do Movimento Espírita de nossa região e, para isso, é preciso estudo, sensibilidade, abertura e autonomia.

O desenvolvimento da autonomia nos coloca diante de inúmeros desafios, todos perfeitamente possíveis de serem enfrentados e vencidos, próprios da nossa condição de Espíritos reencarnados.

Com coragem, perseverança e fé, auxiliados sempre pelos nossos bondosos guias espirituais que se encontram num estágio mais adiantado e mais autônomo, conseguiremos, por certo, superar nossos automatismos, nos descondicionando de tudo o que ainda nos impede de enxergar claramente a realidade em nós e à nossa volta, tornando-nos, portanto, melhores pessoas e, consequentemente, melhores evangelizadores.

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