Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2019 Número 1621 Ano 87
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Aung San Suu Kyi

outubro/2016 - Por Mary Ishiyama

Uma difícil escolha foi feita por Aung San Suu Kyi.

Antes de casar, através de 187 cartas, ela pediu ao futuro marido: Se o meu povo precisar de mim, você me ajuda a cumprir meu dever para com ele. Tenho medo, às vezes, de que circunstâncias e considerações de ordem nacional nos separem, exatamente quando somos tão felizes juntos e a separação seria um tormento. Mas esse medo é inútil e inconsequente: se nos amarmos e nos quisermos tanto quanto podemos e enquanto podemos, tenho certeza de que no final o amor e a tolerância triunfarão.1

Essa mulher forte e consciente de sua missão reencarnou em 1945, na Birmânia, filha de Aung San, herói nacional assassinado pouco antes da independência da Birmânia (atual Mianmar), em 1948 e de Daw Khin Kyi.

Ela estudou em Oxford, onde conheceu Michael Aris, com quem se casou em 1972 e teve dois filhos, Alexander e Kim. Trabalhou na ONU e viveu, até 1988, em Oxford, quando retornou ao seu país, por estar gravemente enferma sua mãe.

Seu retorno a Birmânia coincidiu com a eclosão de uma revolta popular contra os vinte e seis anos de governo do general Ne Win. Por ser descendente de um líder da independência, sua presença inflamou o movimento.

O general renunciou, mas as manifestações populares continuaram e foram violentamente reprimidas. Muitos manifestantes foram mortos na chamada Revolta 8888.

Instalou-se uma junta militar no governo. Formou-se um novo partido, a Liga Nacional pela Democracia, LND, tendo Aung San Suu Kyi como a principal líder do movimento pró-democratização.

Devido à brutalidade e desordem reinante, entre outubro e dezembro de 1988, Aung San percorreu o país, pregando a não violência e a desobediência civil, em grandes comícios.

Enfrentando um clima tenso, disse: Faço parte da grande maioria do povo que luta pela democracia e meu objetivo é ajudar o povo a conseguir a democracia sem mais violência ou perda de vidas. 1

Em 1989, ela foi presa pela primeira vez, ficando impedida de apresentar sua candidatura às eleições gerais do ano seguinte, as primeiras no país desde 1962.

Apesar do seu partido ganhar as eleições, em 1990, com 59% dos votos, conquistando 81% das cadeiras em disputa, a junta militar não reconheceu o resultado das eleições.

Por vinte anos, Suu enfrentou períodos de liberdade e prisão domiciliar, sendo proibida de sair de casa ou receber visitas. Raras vezes pôde receber o marido e os filhos. Em seu primeiro natal, em seu país, reclusa, teve permissão para receber apenas o marido.

Durante sua prisão, foi agraciada com o Prêmio Rafto e o Prêmio Sakharov para a Liberdade de Pensamento em 1990; o Prêmio Nobel da Paz de 1991, que foi recebido pelos seus filhos; o Prêmio Jawaharlal Nehru para a Compreensão Internacional, concedido pela Índia;  o Prêmio Internacional Simon Bolívar, da Venezuela, em 1992; o Prêmio Internacional Catalunha, em 2008. Recebeu a Cidadania Honorária do Canadá, em 2007.

Foi homenageada com a música Walk On pelo grupo U2, em 2000; com a música Unplayed Piano, em 2005, por Damien Rice e Lisa Hannigan, que foi executada na entrega do seu Nobel da Paz.

Todos os dias, Aung San Suu Kyi se viu diante da escolha: permanecer prisioneira em seu país ou reencontrar sua família em Oxford, sabendo que, se saísse de Mianmar, nunca mais a deixariam a ele retornar.

Eu gostaria de ter estado com a minha família. Eu gostaria de ter visto meus filhos crescerem. Mas não tenho dúvidas sobre o fato de que eu tinha de escolher ficar com o meu povo.2

Um dos piores momentos foi quando seu marido foi diagnosticado com câncer terminal, em 1997. O regime militar a liberou mas, ela sabia que não poderia retornar.

Corajosamente, declarou: Nunca houve um ponto em que eu pensei em ir. Eu sabia que não iria. E ele sabia também.

Michael morreu em 1999. Eles haviam se encontrado, pela última vez, no Natal de 1995.

Ao reencontrar seu filho mais novo, após doze anos de proibição, o amor pela música os uniu de imediato.  Totalmente desatualizada das músicas jovens, ele, pacientemente, a atualizou, enriquecendo-se ambos na troca e na saudade.

Seu filho Kim diz que a mãe é genuinamente forte. E, você sabe, mesmo se ela estiver triste com algo, ela sabe que tem de ir adiante. Ela não vai perder tempo chorando.2

Somente em 2010, Aung recebeu sua liberdade e a Medalha Wallenberg, em 2011.

Várias vezes, sentiu medo, mas dizia que a única prisão real é o medo e a única liberdade real é a liberdade de não ter medo.

E foi para que o medo se amenizasse no seu país,  que a justiça fosse para todos que Suu Kyi abriu mão de sua vida para dá-la ao seu povo.

Em 2016, o partido criado por Suu elegeu o presidente Htin Kyaw, que terá a missão de promover grandes reformas na educação, saúde, serviços públicos e o grande poder dos militares.

A pequena grande mulher, aos 71 anos, tem os pés firmes no chão, sabedora que eles a levaram ao caminho ajustado na Espiritualidade e afirma: Nós sabemos que algo excepcional está acontecendo. Estamos todos conscientes de que este é um período muito raro para Mianmar. É um momento extraordinário para o nosso país.

Ela abriu mão de seus amores pelo bem maior, seu país, que ainda está longe de atingir os objetivos. Ela ofereceu o sacrifício que lhe cabia.

 

Bibliografia:

1. ARIS, Michael. Viver sem medo e outros ensaios. Rio de Janeiro: Campos, 1991.

2. www.bbc.com/portuguese/noticias/2012/09/120923_suukyi_ac.shtml

3.http://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/03/presidente-de-mianmar-htin-kyaw-toma-posse.html

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