Jornal Mundo Espírita

Março de 2020 Número 1628 Ano 87

As tentações de Cristo em nós

fevereiro/2020

No Evangelho de Mateus1, encontramos descrita a experiência de Jesus no deserto, durante 40 dias e 40 noites, logo após ser batizado por João Baptista e antes de iniciar sua missão, em Cafarnaum.

O Evangelho relata que Jesus, após ser batizado no Jordão, foi visitado pelo Espírito de Deus que O levou ao deserto para ser tentado pelo diabo em três situações (ou provocações):

  • Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães.2
  • Se tu és o Filho de Deus, lança-te de aqui abaixo; porque está escrito: Que aos seus anjos dará ordens a teu respeito, E tomar-te-ão nas mãos, para que nunca tropeces com o teu pé em alguma pedra.3
  • Novamente o transportou o diabo a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles. E disse-lhe: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares.4

Parece que a figura de Satanás, em suas investidas para dominar a Jesus, sempre o tentou com as coisas do mundo, aquelas desejadas por quem prioriza os valores materiais. Para isso, instigou o Mestre de Nazaré a saciar a própria fome, que pode ser entendida no sentido simbólico como cobiça, ganância e ambição; provocou Jesus em Sua espiritualidade, testando a forma como vivenciava a conexão com o Divino e praticava a fé e, por fim, ofereceu-lhe, caso se lhe submetesse, uma posição de poder, que costuma carregar consigo grandes riquezas e prestígios.

Essa passagem da vida do Cristo pode nos servir de roteiro para a autoiluminação. Como primeiro passo nessa busca, podemos pensar a respeito da necessidade do recolhimento. Assim como Jesus foi levado pelo Espírito de Deus ao deserto, ausentando-se da convivência social, a fim de enfrentar as sombras e se preparar para a missão que viria a desempenhar, também nós, que buscamos o autoconhecimento, devemos entender que o silêncio interior (nosso deserto) é fundamental para o autoencontro.

Joanna de Ângelis nos explica que:

Na atualidade, a busca desse deserto não conduz o indivíduo às regiões geográficas áridas e distantes da civilização, mas às paisagens interiores que aguardam ser conhecidas pela reflexão profunda, penetradas pela busca do silêncio iluminativo.5

É no deserto interior, longe das distrações e perturbações comuns à vida prática, que temos maior possibilidade de ouvir a nós mesmos e de nos conhecermos mais profundamente. No silêncio desse deserto somos capazes de enxergar quais demônios nos atormentam e nos distanciam de nossas tarefas espirituais.

A respeito das tentações sofridas por Jesus – ambição, falta de fé e poder –, podemos estabelecer um paralelo com nossas próprias vivências, utilizando esses símbolos como sinais de alerta e de atenção, a fim de nos mantermos fiéis aos nossos valores essenciais:

  1. Jesus foi provocado a desistir de seu propósito de jejuar e a satisfazer sua fome.

É muito comum nos comprometermos conosco mesmos em estabelecermos, pela disciplina, novos rumos em nossas vidas, abstendo-nos de certas ambições, as quais entendemos prejudiciais ao nosso futuro e então sermos visitados por convites fáceis, que nos arrastam de volta aos hábitos nocivos, tanto os relativos à vida material, quanto às condutas morais.

  1. Jesus foi desafiado a se lançar do alto do templo para ser salvo por anjos.

Em nossas vivências religiosas costumamos nos deparar com circunstâncias ou encontrar pessoas que desejam testar nossa fé, gerando situações ou discussões de forma propositada, a fim de nos constrangerem de alguma forma. Parecem incomodadas com nossas crenças e buscam formas de demonstrarem a inutilidade de nossas escolhas, pedindo provas ou apelando para argumentos sofistas, sempre em tentativas de nos despertarem dúvidas ou descrença.

III. Jesus foi pressionado a se submeter a Satanás em troca de se tornar poderoso.

Jung6 afirmava que onde existe amor não predomina o poder do indivíduo e onde existe o poder do indivíduo não reina o amor (§ 453). Esse pensamento parece corroborar o ponto de vista de Satanás que tentava afastar Jesus de Sua missão de amor, fascinando-O com o brilho do poder. A psicologia profunda também nos alerta para o alinhamento que deve existir no eixo ego-Self, porque caso o primeiro predomine, podemos nos encantar com as coisas do mundo, distanciando-nos dos propósitos espirituais.

Ao conseguirmos vivenciar a experiência do deserto deixada por Jesus como referência de preparação para os enfrentamentos da vida, certamente despertamos a força interior necessária para seguirmos nossa jornada com maior probabilidade de êxito.

Mas aproveitar as experiências deixadas por Jesus como referências para o nosso próprio caminho de crescimento espiritual não é tarefa fácil e costuma ser interpretada, muitas vezes, de forma distorcida. É comum ouvirmos expressões como imitar o Cristo ou fazer como o Cristo, mas nem sempre a aplicação dessa recomendação é feita de forma a gerar real transformação.

Podemos, por exemplo, imitar o Cristo como se estivéssemos num teatro vestindo um personagem que faz como deveria, sem, no entanto, ser como deveria, ou seja, desempenha um papel ensaiado, mas não se transforma internamente no ser que interpreta. Não deveríamos ser atrizes ou atores de Jesus, mas seguidores dEle, que enfrentam realmente seus desertos e suas tentações, de modo a progredir e se cristificar, no sentido de se tornar uno com o Cristo, como o Apóstolo Paulo7: Já não sou eu mais quem vive, mas Cristo vive em mim.

Conta a história que antes de São Cristóvão se tornar santo, ele se chamava Réprobo, era enorme em estatura e bastante feio. Ele havia decidido que buscaria encontrar o maior príncipe existente, a quem gostaria de se dedicar. Depois de se frustrar servindo ao denominado maior rei de todos da época, por notar que esse grande soberano temia o diabo, Réprobo decidiu reiniciar sua busca e tomou conhecimento da existência de Jesus, partindo em Sua procura. No caminho, ao passar por um rio, encontrou uma criança que lhe pediu ajuda. Aquele homem gigantesco, então, colocou a criança nos ombros para fazer a travessia e teve uma grande surpresa: à primeira vista essa não deveria ser uma tarefa difícil porque a criança parecia pequena e leve, mas ao iniciar o cruzamento para o outro lado do rio, deu-se conta do quanto pesado era aquele menino. Descobriu, então, tratar-se de Jesus. Depois desse encontro, Réprobo passou a se chamar Cristóvão, o condutor do Cristo.

Assim também nos comportamos quando buscamos o Mestre de Nazaré. No início O observamos como se fosse uma criança no sentido de ser fácil de ser compreendida, para depois percebermos o quanto pode se tornar complexa a tarefa de levarmos o Cristo conosco em nossas travessias.

Ao utilizarmos as tentações de Jesus como guia para o autoconhecimento, então, temos a oportunidade de sermos mais crísticos e de desenvolvermos:

  • Disciplina para vencermos as ambições do ego, praticando os jejuns que nos fortalecem em nossos propósitos;
  • para seguirmos nossos caminhos confiantes da presença divina em nosso favor, protegendo-nos, orientando-nos e garantindo-nos o progresso em direção à perfeição e à felicidade;
  • Amor que nos lembra que somos todos irmãos e ocupamos os mesmos lugares nos planos divinos, protegendo-nos, então, das fantasias do ego, que costuma se iludir com o poder.

Assim sendo, é sempre importante a mente vigilante e o Espírito direcionado ao propósito da reencarnação, que é a transformação íntima, o progresso moral e a atenção às tentações que podem nos iludir com os tesouros materiais e nos desviar de nossa tarefa na Terra.

Momentos de deserto, de oração, de imersão em si mesmo, buscando identificar as próprias sombras conflitivas, bem como as más influências externas, é recurso essencial para uma vida mais segura e protegida por Deus.

*   *   *

Os Espíritos maus, egoístas e duros, logo após a morte, são entregues a uma dúvida cruel sobre o seu destino presente e futuro. Olham em torno de si e, a princípio, não veem nenhum assunto sobre o qual possam exercer a sua influência má e o desespero se apodera deles, porque o isolamento e a inação são intoleráveis para os maus Espíritos. Não levantam o olhar para os lugares habitados pelos puros Espíritos. Consideram o que os cerca, e em breve, tocados pelo abatimento dos Espíritos fracos e punidos, lançam-se a eles como a uma presa, armando-se com a lembrança de suas faltas passadas, frequentemente reveladas por seus gestos irrisórios. Não lhes bastando esta zombaria, caem sobre a Terra como abutres esfaimados e procuram entre os homens a alma que dará mais fácil acesso às suas tentações. Dela se apoderam, exaltam-lhe a cobiça, procuram extinguir a fé em Deus e quando, enfim, donos de sua consciência, veem a presa dominada, estendem sobre tudo o que se aproxima de sua vítima o contágio fatal.8

*   *   *

A prece torna melhor o homem?

Sim, porquanto aquele que ora com fervor e confiança se faz mais forte contra as tentações do mal e Deus lhe envia Espíritos bons para assisti-lo. É este um auxílio que jamais se lhe recusa, quando pedido com sinceridade.9

 

Referências:

1.. BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais no Brasil, 1988. cap. 4, vers. 1 a 11.

  1. Op. cit. ______. cap. 4, vers. 3.
  2. Op. cit. ______. cap. 4, vers. 6.
  3. Op. cit. ______. cap. 4, vers. 8 e 9.
  4. FRANCO, Divaldo Pereira. Ilumina-te. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Catanduva: InterVidas, 2013. cap. 1.
  5. JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2013.
  6. BÍBLIA, N. T. Gálatas. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais no Brasil, 1988. cap. 2, vers. 20.
  7. KARDEC, Allan. Revista Espírita – Periódico de Estudos Psicológicos. São Paulo: EDICEL, 1985. ano III, v. 10, Dissertações Espíritas: O castigo.
  8. ______. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2002. pt. 3, cap. 2, q. 660.
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