Jornal Mundo Espírita

Julho de 2020 Número 1632 Ano 88

As tarefas espíritas e o isolamento social

junho/2020 - Por Alessandro Viana Vieira de Paula

Vivemos, na atualidade, um grande desafio gerado pela Covid-19, que impôs à sociedade a necessidade de isolamento social, permanecendo em pleno funcionamento apenas as atividades consideradas essenciais, como farmácias, mercados etc.

O Espiritismo nos elucida que estamos enfrentando um grande flagelo destruidor, em plena transição planetária, cujo objetivo maior é fazer a Humanidade progredir mais depressa, conforme responderam os benfeitores espirituais à indagação lúcida de Allan Kardec1.

Naturalmente, são inúmeras as preciosas lições que podemos extrair de uma pandemia (individual e coletiva; material e moral). Porém, desejamos abordar aquelas relacionadas à suspensão das atividades religiosas por conta do fechamento das Casas Espíritas.

Conquanto muitos de nós não desejássemos fechar o Centro Espírita, convém anotar que essa medida decorreu do cumprimento de normas municipais e/ou estaduais, cabendo ao espírita cumprir e respeitar essas normativas, que visam atender as medidas de proteção na área da saúde, com o escopo de conter o crescimento de contágio da Covid-19.

Em relação aos grupos de estudo, notamos que muitos dirigentes, após perceberem que seria prolongado o período de isolamento social, reativaram os estudos na modalidade virtual, havendo diversas ferramentas tecnológicas à disposição, possibilitando a continuidade das reflexões em torno das temáticas espíritas, que tão bem fazem ao nosso coração e à nossa mente, fortalecendo-nos para o enfrentamento saudável da quarentena.

No que se refere às reuniões mediúnicas, percebemos um desafio adicional, ante a impossibilidade de se realizar as atividades práticas da mediunidade, ou seja, o intercâmbio com os Espíritos, embora possam os médiuns se reunir de forma virtual para estudar o Espiritismo.

A respeito, encontramos na Revista Espírita2 uma excelente sugestão de Allan Kardec.

O nobre Codificador trata da questão da suspensão da reunião mediúnica em decorrência da falta de médiuns, e sugere quatro atividades para o grupo mediúnico:

  1. reler e comentar as antigas comunicações, cujo estudo aprofundado fará ressaltar melhor seu valor;
  2. contar fatos de que se tem conhecimento, discuti-los, comentá-los, explicá-los pelas leis da Ciência Espírita;
  3. ler, comentar e desenvolver cada artigo de O livro dos Espíritos e de O livro dos médiuns, bem como quaisquer outras obras sobre o Espiritismo. [Em 1861, só havia essas duas obras do pentateuco kardequiano];
  4. discutir os vários sistemas sobre interpretação dos fenômenos espíritas. [Naquela época havia intensa discussão nessa área, havendo, inclusive, aqueles que negavam a ação dos Espíritos na produção dos fenômenos].

Esses quatro itens são notáveis alternativas para os grupos mediúnicos se manterem unidos e estudando, o que facilitará, oportunamente, o retorno das atividades de intercâmbio com os Espíritos.

Anotemos, ainda, que para os médiuns há duas lições importantes a serem analisadas, uma vez que alguns ainda conservamos a ideia equivocada de que estamos no grupo mediúnico apenas para socorrer os Espíritos sofredores e que somos os componentes mais importantes da reunião (orgulho), porque sem as nossas presenças não haveria o citado socorro.

A primeira lição para os que mantemos esses conceitos equivocados é que a reunião mediúnica também serve para o nosso aprendizado intelecto-moral, porque o bom médium estará atento às lições trazidas pelos Espíritos superiores e aprenderá com os relatos dos Espíritos em sofrimento.

A segunda lição para combater o orgulho consiste no ensinamento que o médium é apenas um instrumento, e que o atendimento aos Espíritos sofridos e obsessores pode ocorrer sem o nosso concurso. Aliás, antes de haver Casas Espíritas como ocorriam esses socorros? Acaso, nesta época de quarentena estão suspensos os atendimentos aos Espíritos infelizes?

Naturalmente, que os atendimentos ocorriam antes do surgimento do Espiritismo e ocorrem agora, haja vista que os Espíritos nobres mudam as suas estruturas vibratórias, tornando seus perispíritos mais densos, ficando visíveis aos Espíritos a serem atendidos, orientando-os e acolhendo-os diretamente.

Em relação aos grupos de estudo e mediúnico é provável que não se consiga a adesão de todos os componentes, por diversos fatores, inclusive por falta de equipamento viável para o encontro virtual. Entretanto, isso não deverá obstar a iniciativa ou a manutenção desses estudos on-line.

Quanto às preleções públicas, diversas Casas Espíritas estão oferecendo palestras e Explanação do Evangelho virtuais. Igualmente, muitos palestrantes espíritas usam as redes sociais para divulgarem a mensagem do Espiritismo, merecendo, todas essas práticas, a nossa gratidão e o incentivo para que permaneçam enquanto perdurar a pandemia, e, quem sabe, mesmo após o isolamento social, vejamos o crescimento dessas modalidades de tarefas espíritas.

As atividades de Atendimento Fraterno também sofreram os impactos da quarentena. Por se tratar de tarefa vital, por conta das variadas aflições e sofrimentos que atingem as pessoas, sobretudo, nestes dias, algumas alternativas foram criadas, sempre respeitando as normas vigentes. Por exemplo, manter o Atendimento via telefone ou contato on-line.

Outro ponto a se destacar diz respeito aos aprendizados e às reflexões que os espíritas devemos fazer diante do distanciamento das atividades da Casa Espírita e do convívio com os confrades.

É comum sermos envolvidos pela rotina e isso abrange as tarefas espíritas, de forma que alguns, com o passar do tempo, continuamos comparecendo às atividades mais por obrigação e não extraímos todos os benefícios morais e espirituais que essas atividades podem gerar em nossa vida.

Quando estamos engessados pela rotina, realizamos a tarefa no piloto automático (estudo, prática mediúnica, passe, atendimento fraterno, assistencial etc.), portanto, sem estabelecer uma sintonia mais refinada e intensa com a Espiritualidade superior. Por consequência, podemos ser dominados pelo cansaço físico, pela desmotivação e pela perda da alegria na realização das tarefas, culminando, eventualmente, mais adiante, no abandono desses compromissos.

Devemos, dessa forma, nestes tempos de isolamento, avaliar a grandeza e a honra de podermos trabalhar na Vinha do Senhor, esforçando-nos para que sempre esteja presente em nós, nas abençoadas tarefas espíritas, a gratidão, a alegria de servir, a afetividade equilibrada e amorosa na convivência pessoal com os demais trabalhadores.

Cabe-nos, ainda, no isolamento social, o dever de nos mantermos ativos nas leituras doutrinárias e naquelas de boa qualidade, realizarmos o Evangelho no lar, buscarmos o lenitivo da prece e investirmos ou intensificarmos o processo de autoconhecimento, procurando sempre nossa melhoria espiritual.

Dessa maneira, estes tempos de pandemia devem nos trazer excelentes materiais de reflexão e crescimento, particularmente nas atividades das Casas Espíritas, a fim de que possamos cada vez mais perceber a sua importância em nossas vidas, procurando, ainda, ofertar o nosso melhor para que elas se realizem com os propósitos estabelecidos pela Espiritualidade Superior.

Reflitamos acerca da advertência de Jesus, o Modelo e Guia: Dá conta de tua administração.3

 

Referências:

1 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974. pt. 3, cap. VI, q. 737.

2 ______. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos. Ano 1861, v. II. São Paulo: EDICEL, 1999. Penúria (escassez) de médiuns.

3  BÍBLIA, N. T. Lucas. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 16, vers. 2.

Assine a versão impressa
Leia também