Jornal Mundo Espírita

Fevereiro de 2019 Número 1615 Ano 86

As raízes da moderna eremitagem, suas sequelas e cura

fevereiro/2019 - Por Rogério Coelho

(…) Os mecanismos da evolução exigem do homem o instinto
gregário. Isolado, o ser humano se estiola e morre: não progride.
François C. Liran

Segundo o ínclito mestre lionês[1], para o homem que vivesse insulado não haveria vícios nem virtudes; preservando-se do mal pelo insulamento, o bem de si mesmo se anularia. 

A vida social é a pedra de toque das boas ou más qualidades.

A bondade, a maldade, a doçura, a violência, a benevolência, a caridade, o egoísmo, a avareza, o orgulho, a humildade, a sinceridade, a franqueza, a lealdade, a má-fé, a hipocrisia, em uma palavra, tudo o que constitui o homem de bem ou o perverso tem por móvel, por alvo e por estímulo as relações do homem com os seus semelhantes. 

Desde os mais remotos horizontes da Humanidade, as criaturas perceberam que viver em grupos sociais era extremamente vantajoso e conveniente em todos os sentidos, inclusive, para as prementes questões da sobrevivência. Mas, a partir do período histórico que os especialistas chamam de Horizonte Agrícola, o instinto gregário se fez sentir mais forte.

O que determinaria, então, a fuga do convívio social praticada por inúmeras criaturas?! Estudando o assunto, a nobre mentora de Divaldo Pereira Franco nos oferece explicações bastante ponderáveis que nos fazem compreender essa anomalia do comportamento humano. Ela ressalta dois fatores essenciais para tal comportamento antigregário: o primeiro são os registros no inconsciente profundo e o segundo deflui da ignorância medieval, atavismo ainda remanescente no homem.

Leciona Joanna de Ângelis que o primeiro fator, ou seja, os registros no inconsciente profundo são resultantes de comportamentos inadequados ou destrutivos em outras existências ou na atual, que encarceram o ser em reminiscências perturbadoras que se encontram atuantes. Nesse caso, sentimentos controvertidos se mes­clam nos processos normais das atividades patológicas, ge­rando situações de desconfiança e revolta, mágoa e insegu­rança.

Inadvertidamente, a criatura experimenta a desagradá­vel sensação de haver escamoteado a verdade ou agido erra­damente, sem que ninguém tivesse ideia ou conhecimento dos seus atos reprocháveis.  Porque os dissimulou com vigor ou conseguiu negá-los com veemência, permanece-lhe a cren­ça subjacente de que, num ou noutro momento pode ser cha­mado à prestação de contas ou ser desmascarado, tombando em descrédito ou sofrendo a zombaria de quem hoje lhe ofe­rece confiança e amizade.

Acoimado pela culpa, foge dos relacionamentos de qual­quer natureza, cultiva o mau humor, processa erradamente o que ouve, sempre considerando que todas as queixas e repri­mendas, advertências e observações que o alcançam têm por meta censurá-lo, humilhá-lo, estigmatizá-lo…

Assim acreditando, inconscientemente arma-se contra a família, o grupo social, as pessoas com quem convive, sem­pre escudado na autocompaixão, na autorrecriminação ou na autopunição.

Esse indivíduo é muito difícil de ser aceito no convívio social, instável no comportamento que mantém e, não raro, é malicioso, quando não se faz perverso em mecanismo de au­tovalorização equivocada.

O segundo fator que deflui da ignorância medieval nele ain­da remanescente, que (…) transformava tudo em pecado, culpa e imundície (…), consideradas dignas de pu­nição.

Apesar do conflito, prossegue mantendo a mesma con­duta irregular através da ação oculta, quando as circunstânci­as o permitem, ou mental e emocionalmente, desde que não seja percebida pelas demais pessoas a presença desses algo­zes internos que o atemorizam e o fazem sofrer.

Tudo aquilo quanto lhe parece ilícito e negativo, desde que conhecido, é vivenciado intimamente, sem testemunhas, em tormentosa busca de alegria e de prazer, que não se po­dem manifestar em razão das circunstâncias serem neuroti­zantes.

Isso resulta em sentimento de culpa e vergonha. Consequentemente (…) culpa e vergonha têm semelhanças de conteúdo, porque ambos coíbem a liberdade e proporcionam sofrimentos que devem ser ultrapassados e vencidos.

Aceitando o corpo e suas funções, sem o sentimento de vergonha pelos seus impulsos primitivos, que levaram a com­portamentos escusos, mais fácil fica o processo de diluição do conflito.

Da mesma forma, assumindo a culpa e trabalhando-a com naturalidade, o sentimento de perdão e compreensão (…) aos fatores que trabalharam para a sua instalação facultam-­lhe o desaparecimento paulatino até a total desintegração.

Pode-se acrescentar ainda, que esses dois sentimentos podem ser decorrência de uma convivência doentia com os pais neuróticos e irritados, que gritam e acusam, que maltra­tam e agridem a criança que, se sentindo impossibilitada de tolerá-los, foge-lhes da presença, refugiando-se no seu quar­to ou no mundo particular da imaginação.

Enquanto se encontra sob essa tensão do lar, incapaz de entender o conflito que experimenta, em mecanismo de fur­tar-se à situação constrangedora, divide a unidade da perso­nalidade, o seu equilíbrio, e passa a vivenciar uma conduta esquizofrênica.

Muitos creem que o contrário do amor é o ódio.  Ledo engano: o contrário do amor é a indiferença. E nada é mais cruel e destrutivo do que a sua presença no relacionamento entre pais e filhos. Joanna de Ângelis assinala tal procedimento como verdadeiro assassinato em vida dessas vítimas, em geral indefesas.

O pior procedimento perpetrado pelos pais é o que se expressa pela indiferença em relação à criança, dando-lhe a ideia de que é invisível, inexistente. Tal crueldade, executada pelos adultos, fere profundamente o ser que se inibe e perde o sen­tido existencial e o significado psicológico da vida.

A criança que sobrevive psicologicamente a esse confli­to no lar torna-se incapaz de amar, sempre atormentada pelo ódio, que decorre do medo de novos sofrimentos, vivifican­do a amargura de haver sido “morta em vida”.

Para o cometimento da saúde, somente através de tera­pia cuidadosa e prolongada, acompanhada do esforço desen­volvido pela criatura para autocurar-se, é que culminará o processo de libertação desses algozes mediante a entrega to­tal ao “Self”, num relacionamento profundo, exteriorizando os sentimentos de forma equilibrada e compensadora2.

Inclui-se, segundo a nobre Mentora, de maneira muito significativa para a erradicação dos sentimentos confli­tantes (…) a busca do amor como terapia, e depois como ex­pressão de vida, porquanto nele se podem fundir todas as emoções, anulando as imagens “odientas” dos pais cruéis (…).

O amor é o verdadeiro milagre da vida.  Frágil, é portador de força incomum.  Assemelha-se a essa persistência e poder do débil vegetal que medra em solo coberto de cimento e asfalto, enfrentando todos os impedimentos, e ali ergue sua pequenina e delicada folha verde de esperança.

É indispensável abrir-se ao amor, a fim de que o amor se assenhoreie do coração e passe a comandar as disposições existenciais, traçando planos grandiosos para o futuro.

O amor é terapia eficaz para vários distúrbios do comportamento.
 

Referências:

[1] –  KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. Rio de Janeiro: FEB, 2003. pt. 1, cap. III, item 8.

2 – FRANCO, Divaldo Pereira. O Despertar do Espírito. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 2003. cap. Sentimentos tumultuados.

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