Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

As pessoas invisíveis da sociedade

janeiro/2017 - Por Alessandro Vianna Vieira de Paula

Inegavelmente, a vinda de Jesus à Terra proporcionou uma nova ordem de ideias e sentimentos, apresentando-nos a psicoterapia do amor, que plenifica a criatura humana e dá-lhe novo sentido existencial, merecendo destaque o fato dEle não ter sido apenas um teórico do amor, pois vivenciou esse sentimento de forma intensa e inigualável, a fim de que a lição sublime penetrasse a nossa alma e se constituísse em lição eterna.

Dentro do manancial do amor vivido pelo Cristo, ressalta a convivência com pessoas que estavam esquecidas, desprezadas, marginalizadas, portanto, carentes de atenção e amor.

Naquela sociedade machista, hipócrita e preconceituosa, havia muitas pessoas nessas condições, como as mulheres, as prostitutas, os doentes, os hansenianos, os pobres, os tidos como de má vida, os obsediados, etc.

Jesus, num gesto de sublime amorosidade, as acolheu fraternalmente através de Suas palavras confortadoras e de Suas mãos iluminadas, para que pudessem prosseguir suas vidas mas, a partir daquele inesquecível encontro, seguissem mais fortalecidas e equilibradas.

Como esquecer o encontro de Jesus com Maria Madalena na casa de Simão, o fariseu (Lucas 7:36-50), tendo aquela abandonado a prostituição, tornando-se uma servidora fiel do Evangelho?!

Temos a conversa de Jesus com a mulher samaritana no poço de Jacó, ocasião em que Ele rompe dois preconceitos, pois acolhe uma mulher sem que ela estivesse na presença do marido ou do genitor (machismo impunha essa exigência), e ela era samaritana, portanto, odiada pelos Judeus. (Jo. 4:1-30)

Lembramos, ainda, quando Jesus acolheu o obsediado de Gadara, totalmente esquecido no cemitério da cidade, vindo a cessar a influência espiritual, restituindo a vida àquele sofredor. (Mc. 5:1-20)

Quantos foram os doentes e os leprosos curados por Jesus? Certamente foram muitos e que tiveram suas vidas modificadas a partir da ação amorosa do Cristo.

Anote-se que o assunto em questão foi despertado em mim por conta de uma história narrada recentemente pelo confrade Divaldo Pereira Franco.

Numa palestra, na cidade de Curitiba-PR, durante uma Conferência Estadual,  Divaldo disse que estava na cidade do Cabo, na África do Sul, e no primeiro dia, num hotel, ao entrar no local próprio para tomar o café da manhã, a benfeitora Joanna de Ângelis pediu-lhe que abraçasse um garçom que trabalhava naquele local.

Divaldo se viu diante de um desafio, porque teria que abraçar um desconhecido que era da etnia negra, num país que ainda enfrenta alguns desafios étnicos. Com a amorosidade que lhe é peculiar, ele pede que o funcionário lhe traga leite bem quente e, de improviso, para agradecê-lo, abraça-o efusivamente.

Naturalmente que o garçom estranhou. Mas Divaldo ficaria mais alguns dias na referida cidade e, para abreviar a história, registro que Divaldo abraçou-o mais de uma vez, descobrindo, ao final, que aquele servidor estava com câncer na próstata, com metástase, pensando em se matar. Divaldo acolhe-o amorosamente e o instrui acerca da vida imortal. Ao que consta, o garçom não consumou o suicídio.

Conversei com Divaldo sobre essa história que me impressionou, tendo  me dito que a benfeitora Joanna de Ângelis tem falado muito sobre esses seres invisíveis da sociedade.

Transportando os ensinos de Jesus para a atualidade, perguntamos: Temos em nossa sociedade essas pessoas esquecidas, invisíveis aos olhos comuns? Na qualidade de cristãos, o que temos feitos por esses seres invisíveis da sociedade?

Quantas pessoas passam pela nossa vida ao longo de um dia, sobretudo na via pública, na vida em sociedade, nos ambientes profissionais, sem que notemos suas presenças e carências (econômicas ou emocionais).

Muitos de nós somos absorvidos pela rotina ou pela correria da vida moderna, desperdiçando excelentes oportunidades de servir na vinha do Senhor.

Quantos mendigos, pessoas extremamente pobres, catadores de papelões, moradores de rua, indivíduos alcoolizados ou perturbados mentalmente, seres solitários ou crianças desamparadas já passaram por nós sem serem notados, ajudados ou que pelo menos tivessem recebido a nossa oração mental?

Quantas foram as ocasiões em que estivemos em restaurantes, hotéis, repartições públicas, etc., e sequer sorrimos ou apertamos fraternalmente as mãos dos funcionários que nos atenderam?

Muitas vezes esses seres invisíveis estão mais presentes na nossa vida do que imaginamos. Não notamos por distração, descuido, egoísmo, indiferença.

Às vezes, estão no nosso local de trabalho, há vários anos, carentes de atenção, de uma palavra amiga ou de um abraço.

Aliás, esses seres esquecidos também poderão estar em nosso círculo familiar. Alguns realizam excelentes ações caritativas fora da família mas, em algumas ocasiões, o ser carente está mais próximo de nós do que podemos imaginar.

Quando ajudamos esses seres invisíveis, certamente estamos mobilizando a energia sublime do amor, que tocará ambas as almas, a nossa e a deles, iniciando um vínculo de simpatia, que prosseguirá e se fortalecerá pela eternidade, desde que somos Espíritos imortais rumando para a angelitude.

A recomendação do Cristo acerca da vigilância e oração também se aplica à lição em questão (Mt. 26:41), porque mais vigilantes e conectados com as energias sublimes da vida pela oração não deixaremos de notar esses seres invisíveis, bem como não nos omitiremos nas responsabilidades cristãs de acolher ao próximo, sem nos preocuparmos com os julgamentos alheios.

Dessa forma, conforme recomenda o Apóstolo Paulo: Como, pois, recebestes o Senhor Jesus Cristo, assim também andai nele (Cl. 2:6), que possamos andar conectados com o Cristo, fazendo ao outro aquilo que desejamos a nós, espalhando a luz da caridade, que será a base da sociedade regenerada do porvir.

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