Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

As dores humanas

outubro/2019 - Por Alessandro Viana Vieira de Paula

O Evangelista Mateus narra que Jesus, após vir para casa de Pedro, viu a sogra dele deitada e febril. Tocou a mão dela, e a febre a deixou; ela se ergueu e o servia.1

Certamente, o fato descrito revela a cura mais simples realizada por Jesus, do ponto de vista das complexidades físicas e emocionais das doenças e dores humanas.

Jesus havia curado cegos, mudos, surdos, leprosos, obsediados, utilizando-se de Seu fluido pessoal e movido por Seu inesgotável amor, agindo no perispírito do enfermo, reequilibrando-o, com repercussões imediatas no corpo físico, haja vista que o corpo espiritual está ligado àquele molécula a molécula.2

Assim sendo, curar uma simples febre representou para Jesus uma ação fluídica de pequeno porte, todavia, essa conduta, sob a perspectiva moral, nos traz profundas reflexões.

A Terra, sendo um mundo de provas e expiações, propicia ao Espírito moralmente endividado a possibilidade de se reabilitar, e, em muitas circunstâncias, essa reabilitação começa ou passará mais adiante pelo sofrimento, até mesmo como contingência natural da vida neste Orbe.

Esse sofrimento pode ser físico e/ou moral, de forma que há uma diversidade imensa de dores na Terra, desde as mais simples até as mais complexas, aquelas de cunho mais pessoal e outras de porte coletivo (familiar, social etc.), algumas de breve duração e aqueloutras mais prolongadas.

Jesus, ao curar a sogra de Simão Pedro, nos ensinou que nenhuma dor deve ser desprezada ou desdenhada, merecendo daquele que se propõe a ajudar a melhor consideração, atenção e solidariedade.

O Espiritismo, em sendo o Evangelho Redivivo, nos convida a essa possibilidade de sempre socorrermos o próximo, ofertando o nosso melhor, sem qualquer tipo de julgamento, tanto que nos oferece como premissa doutrinária que Fora da caridade não há salvação.

É uma tarefa desafiadora a de ajudar o irmão de caminhada, porque alguns ainda trazemos a tendência de julgar e medir a dor alheia.

No cotidiano, vamos nos deparar com pessoas portadoras dos sofrimentos mais variados, e quando é uma febre, uma dor de cabeça, um mal-estar, uma mera discussão conjugal, um desafio simples com um dos filhos, um episódio de tristeza que às vezes se prolonga, costumamos dizer: É um exagero ou Tá fazendo tempestade em copo d´água.

Com a visão espírita, aprendemos que cada ser é um Espírito imortal com conquistas morais diferenciadas, com luzes e trevas em seu interior, de tal sorte que cada pessoa tem um grau de resistência moral para as dores humanas, físicas e/ou morais.

Alguns enfrentam bem o luto, outros fazem uma depressão crônica; alguns lidam equilibradamente com a doença, outros se perturbam; alguns nem dão bola para a febre, outros reclamam e preferem cultivar o repouso, algumas vezes em exagero; alguns crescem com os desafios familiares, outros falham moralmente.

Aliás, sob a perspectiva biológica, também encontraremos pessoas com graus diversos de tolerância à dor. Algumas suportam dores físicas intensas (dor de dente, realizam procedimentos médicos e odontológicos sem anestesia etc.), ao passo que outras sofrem com as mínimas dores (dor de cabeça leve, optam por anestesia em qualquer tipo de intervenção física, não conseguem tomar líquidos quentes, como cafés e chás etc.).

Deveremos sempre ouvir as queixas alheias com imensa solidariedade e desejo de ajudar, seja com a oração, seja com bons conselhos, ou apenas ouvindo com paciência e atenção, demonstrando nossa amorosidade e sincera consideração.

Se alguém reclamar de febre, não julgar, apenas amparar da melhor forma possível.

Se alguém desabafar sobre a tristeza que a abate, não julgar, apenas servir à causa do bem.

Se alguém confidenciar um pequeno problema pessoal, não julgar, apenas ser útil e prestativo.

O importante é colocarmo-nos na situação do próximo e entender que aquele desafio, maior ou menor, o está incomodando, fragilizando-o, merecendo de nós uma conduta cristã, de auxílio fraternal, desinteressado e com plena dedicação, até porque, ao chegar a nossa vez de vivenciar a dor, certamente apreciaremos a presença de um amigo que possa nos acolher, sem julgamento.

Muitas vezes não encontramos em nós uma referência para a dor narrada pelo próximo, porque nunca a vivenciamos, e pode ser que tenhamos a tendência de imaginar que essa dor seja um exagero.

Permito-me narrar um episódio pessoal.

Inúmeras vezes, conversei com pessoas que estavam com depressão, em graus variados, e sempre tive dificuldade, por limites pessoais, de entender as dimensões da depressão, porque muitos relatavam dificuldade de agir, de realizar algo, de sair de casa, de levantar da cama, até de orar.

Algumas vezes pensei: Será que a pessoa não está exagerando um pouco?

Há alguns anos, passei por um período curto experimentando uma tristeza profunda, talvez uma depressão inicial, e vivenciei algumas dificuldades, como, por exemplo, de ter ânimo para ir ao trabalho.  Mas, com o conhecimento espírita e o auxílio de um extraordinário livro de Divaldo Pereira Franco/Joanna de Ângelis (Psicologia da Gratidão), consegui superar, extraindo valiosos aprendizados, entre eles, comecei a entender os dramas daqueles que sofrem de depressão.

Para os confrades espíritas que atuam no atendimento fraterno, a lição do Cristo em foco também é valiosa, uma vez que as pessoas que buscam esse serviço na Casa Espírita estão vivenciando desde as dores menos desafiadoras até aquelas mais crônicas, merecendo do atendente a melhor dedicação, sem qualquer impulso de desconsideração ou julgamento dos dramas alheios.

Merece registro o fato de Jesus ter tocado as mãos da sogra de Pedro, porque esse membro é o símbolo da caridade e da ação em prol do próximo.

Com efeito, quando estivermos passando por alguma dor, jamais desconsiderar a possibilidade de também servirmos o próximo, porque a vivência do amor nos fortalece para as lutas pessoais, e, conforme a vida nos ensina, aprendemos que ao nos preocuparmos com o sofrimento alheio, ao nos darmos conta, o nosso já passou ou era mínimo, conquanto não possa ser desprezado, se comparado aos grandes sofrimentos da vida.

Dessa forma, o episódio do Evangelho em questão merece nossa reflexão profunda, porque nele Jesus nos oferta uma belíssima lição, ou seja, o amor é lei da vida, de forma que sempre deveremos ajudar o próximo, sem qualquer impulso de julgamento, porque todo drama alheio merece nossa compreensão e solidariedade.

Não tenhamos dúvida que essa orientação evangélica fará uma grande diferença em nossas vidas, convidando-nos a sermos sempre servidores do amor em prol das dores dos irmãos de caminhada.

Isso é a legítima caridade!

 

Referências:

1.BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais no Brasil, 1988. cap. 8, vers. 14 e 15.

2.KARDEC, Allan. A Gênese. Os milagres e as predições segundo o Espiritismo.  Rio de Janeiro: FEB, 2002.  cap. XI,  item 17 e ss.

 

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