Jornal Mundo Espírita

Dezembro de 2017 Número 1601 Ano 85

As crônicas de Narnia

A viagem do Peregrino da Alvorada

março/2012 - Por Maria Helena Marcon

As crônicas de Nárnia, obra em sete volumes, escrita pelo britânico Clive Staples Lewis (C.S. Lewis), entre 1949 e 1954, chegou às telas e consagrou-se como sucesso.

À semelhança de outras histórias, que ganharam fama e atraíram milhões às salas de cinema, essa obra, desde a primeira versão, O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, que teve sua estreia em 2005, encantou ao grande público.

Crianças e adultos se apaixonam pelo Grande Leão Aslam, o guardião, o zelador, aquele que é invocado nos perigos e de quem se guarda a certeza de que não falhará.

Ele é o Senhor de Nárnia, o Reino do Bem, do Bom, da Pureza. Cercado de profecias, sua presença afugenta o mal, diluindo tudo que signifique maldade.

Na terceira versão cinematográfica das Crônicas, A viagem do Peregrino da Alvorada, as aventuras envolvem os irmãos Lúcia (a destemida) e Edmundo (o justo), os mais jovens da família Pevensie, seu primo Eustáquio, ao lado de Cáspian, agora rei de Nárnia.

O panorama ainda é o da Segunda Guerra Mundial. Lúcia e Edmundo vivem em casa de seus tios, na Inglaterra, tendo que suportar o inconveniente primo Eustáquio. Seu maior desejo é de que o conflito mundial logo termine, enquanto recordam, saudosos e com quase inveja, a sorte de Pedro e Susana, os irmãos mais velhos, que vivem nos Estados Unidos, com a mãe.

O lapso temporal desde o retorno de Nárnia, após as aventuras narradas no segundo filme, Príncipe Cáspian, é de três anos.

Repentinamente, o quarto onde se encontram Lúcia, Edmundo e Eustáquio é inundado por águas marinhas, saídas de um quadro na parede. Em segundos, estão submersos em mar aberto, logo resgatados por marinheiros a bordo de um navio, o Peregrino da Alvorada.

É o reencontro com Cáspian, o valente ratinho Ripchip, o minotauro e toda a magia de Nárnia.

A temática gira, outra vez, em torno dos valores morais e a família.

Os heróis precisam chegar à ilha de Ramandu e destruir o mal que agride o mundo, depositando sobre a mesa de Aslam as sete espadas, que devem ser resgatadas, uma a uma, das mãos dos sete lordes, a quem foram confiadas pelo próprio Aslam.

A analogia com missionários que vêm à Terra para específicas missões e se perdem, por causa de suas paixões, é notória. Desfilam a ganância, a cobiça pelo ouro, a glutonaria, como algumas das más paixões que comprometem as missões.7

A falha dos missionários, aliada ao comportamento inadequado dos homens, resulta em sofrimento e escravidão, conferindo com as noções da Lei de Causa e Efeito, onde a cada um é dado segundo as suas obras.

A ignorância é apontada como grande mal. Em uma das ilhas a que aportam, em sua viagem, para proteger os cidadãos, um mago os havia tornado invisíveis. Eles são frágeis em sua forma física e em suas mentes. Temem o que não entendem e o benfeitor é tido à conta de opressor.

À semelhança de quando imprecamos contra as forças celestes, por não entendermos o objetivo das circunstâncias e das dores que nos alcançam, essas pequenas e estranhas criaturas se mostram revoltadas, sem se darem conta da própria fragilidade. Ameaçam a ordem, sem êxito, entretanto.

Por serem ignorantes, fogem apavorados pelo simples fato de alguns fiapos serem jogados sobre eles. Perfeita analogia aos homens que, por não conhecerem certas leis, se tornam vulneráveis, prisioneiros da superstição e do engodo.6

Aos reis de Nárnia, Lúcia e Edmundo, compete a destruição do mal. É preciso enfrentar os perigos, combater os que se erguem como adeptos das trevas. Contudo, para lutar contra eles, é imprescindível, antes, domar as próprias paixões.3

Aqui, o link se faz com Jesus, na cura dos obsidiados, com a recomendação: Os demônios desta espécie não podem ser expulsos senão pela prece e pelo jejum.9 Oração para a ligação com o Superior e o jejum das más ações.

É imperioso, ainda, que os aventureiros mantenham a disciplina do pensamento porque o que pensam se torna real, por vezes, extremamente perigoso. Nada mais acorde com o ensinamento espírita. É Kardec que nos fala das imagens fluídicas e da fotografia do pensamento.4

E, na longa jornada, entre tempestades, ventos fortes, cada um é tentado na sua fragilidade moral. Vaidade, inveja conduzem a perigosos caminhos. Lúcia aprende que o importante não é ser bonita, como sua irmã Susana, nem requisitada pelos rapazes. O importante é ser ela mesma, valorizando o seu corpo e os seus talentos.

Cada qual tem seu valor específico e nenhuma criatura, aos olhos de Aslam, é desconsiderada.  A lição aqui é do amor de Jesus para conosco, o amor do Bom Pastor, do Governador da Terra a todas as almas que lhe foram confiadas por Deus.

Por sua vez, a ambição pelo ouro e pelo poder quase destroi a preciosa amizade entre Edmundo e Cáspian, alertados, oportunamente, da sua insensatez, por Lúcia.

Não é o que fazem os nossos amigos, em horas cruciais de nossas vidas, interpretando as orientações daqueles que da Espiritualidade por nós velam quais verdadeiros anjos de guarda?1

O pensamento nos remete, ainda, às exortações de Jesus, do Orai e Vigiai, ao assistirmos Edmundo sendo atormentado pela visão da Rainha Branca, Jadis. Nos primeiros momentos, ele se permite envolver, vacilando, para logo se dar conta de que ela não existe, fora derrotada. É uma ilusão.

As aparições da névoa, envolvendo os heróis ou as demais criaturas descrevem, embora ludicamente, o ataque dos Espíritos do mal aos que se ensaiam no bem, e a luta que esses empreendem por se libertar daqueles.2

Em O livro dos médiuns, colhemos que o melhor método de livrar-se dos Espíritos obsessores é lhes cansar a paciência, porfiando no reto proceder.5

Eis a tônica do filme que, ademais, enfatiza a nobreza de caráter, a possibilidade da reforma da criatura. Eustáquio, que inicia a viagem contra a sua vontade e de tudo reclama, acaba tendo sua vida modificada, após traumática experiência de se ver transformado em um dragão. De uma pessoa chata, sem disposição de ajudar a quem quer que seja, torna-se  alguém pronto a auxiliar, uma criatura melhor.

E, finalmente, chegados aos portões do reino de Aslam e desejando adentrá-lo, ele os orienta de que ainda há muito por ser feito, definindo assim os objetivos da reencarnação, na Terra, dos quais não nos devemos furtar.

Sim, pode-se optar por tentar adentrar aquele reino antes da hora correta, mas as consequências não serão as melhores. Há tempo para tudo: tempo para viver, tempo para lutar, tempo para adentrar o mundo espiritual…8

C.S. Lewis, embora servindo-se em sua obra, da mitologia nórdica e grega, além dos próprios contos de fadas, para compor seus personagens, deixa bem clara a temática cristã, onde crianças (Jesus disse que para adentrar Seu reino era preciso que nos tornássemos semelhantes às crianças) são instruídas pelo Grande Leão Aslam.12

Como aprendemos na Doutrina Espírita, as verdades espirituais se derramam por toda a Terra, de muitas e diversas maneiras. Inclusive como contos lúdicos, que encantam, enquanto lecionam.

Quem tiver olhos de ver e ouvidos de ouvir…10 e 11

 

Ficha Técnica

Diretor: Michael Apted

Elenco: Ben Barnes, Eddie Izzard, Skandar Keynes, Georgie Henley, Will Poulter, Liam Neeson.

Produção: Andrew Adamson, Mark Johnson, Philip Steuer

Roteiro: Christopher Markus, Stephen McFeely e Michael Petroni, baseados na obra de C. S. Lewis

Fotografia: Dante Spinotti

Trilha Sonora: David Arnold

Duração: 113 min.

Ano: 2010

País: Reino Unido

Gênero: Aventura

Cor: Colorido

Distribuidora: Fox Film

Estúdio: Walden Media / Fox 2000 Pictures / Dune Entertainment

Classificação: 10 anos

 

Bibliografia:

1.KARDEC, Allan. Da intervenção dos Espíritos na vida corporal. In:___. O livro dos espíritos. 81. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2001. pt. 2, cap. IX, itens 489 a 521.

2.______.Op. cit., itens 459 a 472.

3.______.Da perfeição moral. Op. cit.  pt. 3, cap. XII, itens 907 a 912.

4.______. Os fluidos. In:___. A gênese. 41. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2002. cap. XIV, item 15.

5.______.Da obsessão. In:___. O livro dos médiuns. 66. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2000. pt. 2, cap. XXIII, item 249.

6.FRANCO, Divaldo Pereira. Crendices e superstições. In:____.Após a tempestade. 8. ed. Pelo Espírito Joanna de Angelis. Salvador: Leal, 2000. cap. 20.

7.______. Entre os dois mundos. Pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda. Salvador: Leal, 2005.

8.BIBLIA, A.T. Livro do Eclesiastes. Português. Bíblia Sagrada. 6. ed. São Paulo: Paulinas, 1953. cap. 3, vers. 1 a 8.

9.______.   N.T. Marcos. Op. cit. cap. 9, vers. 28.

10.______. N.T. Mateus. Op. cit. cap. 11, vers. 15.

11.______. N.T. Mateus. Op. cit. cap. 13, vers. 16 e 17.

12.______. N.T. Mateus. Op. cit. cap. 18, vers 2 a 6.

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