Jornal Mundo Espírita

Abril de 2019 Número 1617 Ano 87
Trabalhadores do Bem Envie para um amigo Imprimir

Arthur Lins de Vasconcellos Lopes

outubro/2012 - Por José Virgílio Góes e Maria Helena Marcon

Lins de Vasconcellos é nome citado, largamente, pelos espíritas. Contudo, nem todos lhe conhecemos a extraordinária performance como homem, cidadão, trabalhador espírita.

Lins reencarnou no dia 27 de março de 1891, na Vila da Serra de Teixeira, no alto sertão da Paraíba. Ainda garoto enfrentou o cabo da enxada, trabalhando na roça com seu pai.

Aos quinze anos, transpôs os limites do território do seu sertão e se tornou tropeiro. Muitas vezes, dormiu ao relento, no meio da viagem, enquanto descansavam os burros cargueiros.

Nessa época, começa ele a suspeitar que o mundo era muito maior e mais belo do que pensava, pois, quando atingia o limite do horizonte longínquo que, do alto de uma colina divisava, outro horizonte, ainda mais vasto, se abria ante os seus olhos deslumbrados…

Então deixou o sertão, rumo à capital do Estado em busca de melhor trabalho e de oportunidade escolar.

Alistou-se no Exército  e matriculou-se na Escola Regimental do Quartel. De tal sorte foi seu esforço intelectual e moral que, a breve tempo, conquistou as divisas de cabo e, logo, de sargento.

Sentia-se atraído, no entanto, para as terras do sul do país. Recebeu transferência para o Rio de Janeiro (RJ) e depois para Florianópolis(SC). A sede de saber o impulsionava a buscar jornais para sua leitura e livros, que obtinha de empréstimo.

Foi por essa época que ouviu falar em Espiritismo. Foi a sessões espíritas. Achava absurdo o que via, mas interessante o que ouvia. Mergulhou, então, a fundo, na leitura de obras espíritas.

Sem o saber, encontrara, afinal, o verdadeiro objetivo de sua existência terrena. Iniciara, nesse ponto, a trajetória que o levaria à proeminência de líder espírita no Brasil.

Ainda como militar veio para Curitiba e passou a frequentar a Federação Espírita do Paraná – FEP, tomando parte ativa nos seus trabalhos doutrinários e mediúnicos. Foi o encontro do missionário com a missão.

Era o ano de 1912 e Lins, sargento do Exército, tinha somente vinte e um anos de idade. Iniciou seus estudos superiores matriculando-se, em 1918, na Escola Superior de Agronomia, onde concluiu brilhantemente o curso de Engenheiro Agrônomo.

Deixando o Exército, foi para o Corpo de Bombeiros, mas o seu destino não era apagar labaredas dos incêndios devoradores de coisas materiais, mas acender nas almas dos seus semelhantes a chama rutilante da fé cristã, incutindo-lhes a certeza nos superiores destinos do homem.

Assim, logo depois, foi trabalhar como escrevente juramentado em Cartório, na Praça Tiradentes.

Na FEP, já em 1916, assumiu a Presidência, cargo para o qual seria eleito mais cinco vezes. Também ocupou diretorias várias, foi secretário e tesoureiro.

Quando precisou renunciar ao cargo de Presidente, em 1929, em virtude da sua transferência para o Rio de Janeiro, foi aclamado Presidente Honorário da FEP, dados os relevantes serviços prestados.

Mas, antes disso, em 1925, quando o Projeto de Lei no 4, do Poder Executivo Estadual pedia autorização ao Congresso Legislativo para conceder auxílio financeiro para a formação de dioceses católicas, em Ponta Grossa e Jacarezinho, Lins liderou um grupo de espiritualistas e livres pensadores para denunciar o Presidente do Estado ao Presidente da República, encaminhando-lhe longo telegrama. Lins o assinou pela Federação Espírita do Paraná, representando dezoito associações federadas.  O gesto lhe valeu a exoneração do cargo de Segundo Tabelião Interino da Capital e Escrevente Juramentado.

Ele precisou entregar a casa onde morava com a família e mudou-se para uma dependência da Federação Espírita, no terceiro pavimento do edifício da rua Saldanha Marinho (atual Sede Histórica).

Foi Lins quem sugeriu fosse dada a denominação de Bom Retiro ao sanatório (hoje Hospital), que deveria ser construído na propriedade adquirida no bairro do Pilarzinho.

Foi Lins quem, em 1949, decidiu transferir para a FEP, a Gráfica e o Jornal Mundo Espírita. Ele investira apreciável soma de dinheiro e assumira a responsabilidade total. Sonhara para o jornal o prosseguimento da propaganda espírita mas tinha a saúde comprometida.

Assim, ressarciu o fundador e até então mantenedor Dr. Henrique de Andrade, saldou débitos com outras editoras e externou à FEP o seu sonho. Suas esperanças repousavam nela. O Conselho da FEP se mostrou favorável e Gráfica e Jornal foram trazidos ao Paraná.

Assinale-se que a ação de Lins não se restringiu ao Paraná. Levantou e apoiou inúmeras obras de caridade e de beneficência, nas quais até hoje lhe abençoam o nome, devendo-se-lhe o desenvolvimento da obra social, sem paralelo no meio espírita nacional.

Tornou-se um dos que mais concorreram para a concretização do Pacto Áureo, em 5 de outubro de 1949, razão pela qual, entre tantas outras, é considerado responsável pela efetivação do processo de Unidade, União e  Unificação do Movimento Espírita,  tão ardentemente desejada por todos os verdadeiros espíritas.

Embora as preocupantes questões de saúde, Lins empreendeu a sua última viagem em prol do Espiritismo. No dia 15 de fevereiro de 1952, foi a Florianópolis, SC, para a inauguração da sede da Federação Espírita Catarinense – FEC.

Foi atendido com passes, por Abibe Isfer, mais tarde, no hotel, pois se sentiu mal. Mas, no dia seguinte, participou de uma  Concentração  Geral dos Centros Espíritas, na sede da FEC. À noite, proferiu a palestra O que é atualmente o Espiritismo no Brasil e sua gigantesca obra em marcha.

Ainda visitou, nos dois dias seguintes, Centros Espíritas na capital catarinense, em Itajaí, Joinville e São Francisco do Sul.

Na madrugada de 21 de março, em São Paulo, onde residia, poucas horas antes da desencarnação, escreveu:

Não tenho medo do que chamamos morte, mas não gostaria de partir sem deixar as coisas em ordem. Isso me atormenta mais que o fenômeno da “morte” em si mesmo. O que ora estou escrevendo é uma espécie de despedida. Sem tempo de meditar. Vou lançando os pensamentos como se estivesse conversando com os companheiros que vão ficar. Não há tempo para fazer literatura, nem corrigir nada.  Cada um desculpará os erros, as repetições de palavras,  o desalinho das frases. São três madrugadas que se foram. Terei tempo de prosseguir? São 4 horas. Vou repousar. Senão tiver essa ventura… até breve!”

Conforme seu desejo, seu corpo foi sepultado no jardim do Sanatório Bom Retiro.

Em agosto de 1952, quando das solenidades alusivas ao cinquentenário da FEP, sob a vibração de fraternos sentimentos, foi inaugurado o túmulo erigido em testemunho das saudades que deixou Lins de Vasconcellos nos corações dos Espíritas do Paraná, que tanto ficou a dever-lhe pela enorme soma de benefícios aqui espalhados durante largo espaço de tempo.

O bronze morto e frio de expressiva placa recebeu, sem dúvida, com desvanecimento a honra, o calor e a vida que estas palavras imprimiram os Espíritas do Paraná:

“A quem na Terra foi discípulo de Cristo, apóstolo do Bem, exemplo de compreensão e renúncia; que soube sublimar a riqueza material, transformando-a em instrumentos de Amor e Progresso – preito de admiração, reconhecimento e saudade dos seus companheiros de ideal cristão.”

No mesmo monumento, também foi incrustada a saudade carinhosa da esposa querida, expressa nesta delicada e maravilhosa síntese:

“Imorredouras saudades de sua esposa.”

Segundo Francisco Cândido Xavier,  era ele uma coluna firme da Doutrina em nosso País e um companheiro de nosso movimento de Unificação.

 

Bibliografia consultada:

1.LOBO, Ney. Lins de Vasconcellos – o Diplomata da Unificação e o Paladino do Estado Leigo. Curitiba: Fep, 1997.

2.VASCONCELLOS, Arthur Lins e FRANCO, Divaldo Pereira. Lins, neste mundo e no outro. Curitiba: Fep, 2004.

3.Semeando a boa nova por um mundo melhor. Federação Espírita do Paraná. 1902-2012. Curitiba: Fep, 2012.

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