Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Aprender é recordar

janeiro/2019 - Por Rogério Coelho

Esse vos ensinará todas as coisas, e
vos fará lembrar tudo
o que vos tenho dito.
Jo 14:26

Assim como no processo reencarnatório repetimos, na intimidade uterina, todas as etapas de nossa evolução filogenética, também, após a desencarnação, progredimos lentos em graus de consciência…

O Espírito André Luiz narra que recordando as anteriores comparações com o domínio dos insetos, a matriz uterina oferece ao Espírito novas formas, e, assim como a larva se alimenta, assegurando a esperada metamorfose, a alma avança em experiência, enquanto no corpo carnal, adquirindo méritos e deméritos, segundo a própria conduta, e entregando-se em seguida, no fenômeno da morte ou histólise do invólucro de matéria física, à pausa imprescindível nas próprias atividades ou hiato de refazimento, que pode ser longo ou rápido, para ressurgir, pela histogênese espiritual, senhoreando novos órgãos e implementos necessários ao seu novo campo de ação, demorando-se nele, à medida dos conhecimentos conquistados na romagem humana.

É assim que a consciência nascente do homem pratica as lições da vida, no plano espiritual, pela desencarnação ou libertação da Alma, como praticou essas mesmas lições da vida no plano físico, pelo renascimento ou internação do elemento espiritual na matéria densa, evoluindo, degrau a degrau, desde a excitabilidade rudimentar das bactérias até o automatismo perfeito dos animais superiores em que se baseia o domínio da inteligência.  De liberação a liberação, na ocorrência da morte, a criatura começa a familiarizar-se com a esfera extrafísica.

Assim como recapitula, nos primeiros dias da existência intrauterina, no processo reencarnatório, todos os lances de sua evolução filogenética, a consciência examina em retrospecto de minutos ou de longas horas, ao integrar-se definitivamente em seu corpo sutil, pela histogênese espiritual, durante o coma ou a cadaverização do veículo físico, todos os acontecimentos da própria vida, nos prodígios de memória, a que se referem os desencarnados quando descrevem para os homens a grande passagem para o sepulcro.

É que a mente, no limiar da recomposição de seu próprio veículo, seja no renascimento biológico ou na desencarnação, revisa automaticamente e de modo rápido todas as experiências por ela própria vividas, imprimindo magneticamente às células, que se desdobrarão em unidades físicas e psicossomáticas, no corpo físico e no corpo espiritual, as diretrizes a que estarão sujeitas, dentro do novo ciclo de evolução em que ingressam.1

E continua, o ínclito Benfeitor Espiritual, a esclarecer: de consciência desperta e responsável, o homem começa a penetrar na essência da Lei de Causa e Efeito, encontrando em si mesmo os resultados enobrecedores ou deprimentes das próprias ações.

Quando dilacerado e desditoso, grita a própria aflição, ao longo dos largos contingentes do Espaço Cósmico, reunindo-se a outros culpados do mesmo jaez, com os quais permuta os quadros inquietantes da imaginação em desvario, tecendo, com o plasma sutil do pensamento contínuo e atormentado, as telas infernais em que as consequências de suas faltas se desenvolvem, mediante as profundas e estranhas fecundações de loucura e sofrimento que antecedem as reencarnações reparadoras; contudo, é também aí que começa, sobrepairando o inferno e o purgatório do remorso e da crueldade, da rebelião e da delinquência, o sublime apostolado dos seres que se colocam em harmonia com as Leis Divinas, almas elevadas e heróicas que, em se agrupando intimamente, tocadas de compaixão pelos laços que deixaram no mundo físico, iniciam, com a inspiração das Potências Angélicas, o serviço de abnegação e renúncia, com que a glória e a divindade do amor edificam no império do Sumo Bem, no chamado Céu, de onde vertem mais ampla luz sobre a noite dos homens.2

Em aditamento a essas questões levantadas por André Luiz, (e para as compreendermos com mais proveito), podemos pinçar parte das palavras de Richard Simonetti3 a respeito da erudição demonstrada por Jesus no Templo de Jerusalém, durante o diálogo com os doutores da Lei, o que nos leva à plena convicção de que Ele já trazia consigo todo o conhecimento que lhes inspirava assombro.

Superando o choque biológico do nascimento, que impõe o esquecimento do passado, apresentou-Se desde cedo na plenitude de Seus conhecimentos e poderes.

Vale destacar que os grandes gênios da Humanidade, em variados setores de atividade, revelam sua genialidade desde a mais tenra infância.  Exemplo marcante foi Mozart.  Aos quatro anos, tocava piano; aos cinco, compunha; aos sete, teve quatro sonatas publicadas; aos doze, apresentou sua primeira sinfonia.

Certa feita, um adolescente lhe perguntou o que fazer para compor música erudita.   Mozart recomendou-lhe que pensasse em uma simples balada talvez…

“Mas, mestre”, contestou o aprendiz, “bem mais cedo que eu, o senhor compunha obras complexas.”

“Sim”, respondeu ele, “mas não precisei pedir auxílio a ninguém…”

É isso: o gênio vem pronto! Traz seu patrimônio de experiências em vidas anteriores.  O processo de sua formação é, antes de tudo, uma rememoração.

Sócrates dizia que “aprender é recordar.”

Os melhores alunos, em qualquer aprendizado de caráter cultural, artístico ou profissional, são aqueles que lidaram com o assunto no passado. As vocações inatas relacionam-se com nossas atividades em vidas anteriores. Por isso uns têm facilidade para idiomas, outros para trabalhos manuais, outros para a arte, outros para a literatura…

Tudo o que fazemos e pensamos fica registra­do nos arquivos do inconsciente, a manifestar-se na forma de tendências e aptidões, num somatório de experiências que operam sutilmente nosso cresci­mento espiritual, ao longo das reencarnações que se sucedem, sem que nada se perca.  Dessa forma, nunca é tarde para aprender, reciclar conhecimentos, renovar-se, aprimorar ideias, fazer o melhor…

Nosso empenho de hoje nos fará mais fortes, mais esclarecidos, mais capazes amanhã, nesta vida, na vida espiritual ou em reencarnações futuras.                                

 

Referências:

1 XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo.  Evolução em dois mundos. Pelo Espírito André Luiz. 4. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1997. cap. XII, itens Desencarnação natural e Revisão das experiências.

2. cit. cap. XII, item Lei de Causa e Efeito.

3 SIMONETTI, Richard. Paz na Terra. Bauru: CEAC, 2010. cap. No templo.

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