Jornal Mundo Espírita

Outubro de 2019 Número 1623 Ano 87

Aprender a conviver com Jesus

agosto/2011 - Por Coordenadoria de Estudos da Doutrina Espírita

Na obra “Jesus no Lar”, da lavra mediúnica de Francisco Cândido Xavier, o Espírito Neio Lúcio nos apresenta a seguinte página:

Salientando o Senhor que a construção do Reino Divino seria obra de união fraternal entre todos os homens de boa vontade, o velho Zebedeu, que amava profundamente os apólogos do Cristo, pediu-lhe alguma narrativa simbólica, através da qual a compreensão se fizesse mais clara entre todos.

Jesus, benévolo como sempre, sorriu e contou:

— Viviam os homens em permanentes conflitos, acompanhados de miséria, perturbação e sofrimento, quando o Pai compadecido lhes enviou um mensageiro, portador de sublimes sementes da Árvore da Felicidade e da Paz. Desceu o anjo com o régio presente e, congregando os homens para a entrega festiva, explicou-lhes que o vegetal glorioso produziria flores de luz e frutos de ouro, no futuro, apagando todas as dissensões, mas reclamava cuidados especiais para fortalecer-se. Em germinando, era imprescindível a colaboração de todos, nos cuidados excepcionais do amor e da vigilância.

As sementes requeriam terra conveniente, aperfeiçoado sistema de irrigação, determinada classe de adubo, proteção incessante contra insetos daninhos e providências diversas, nos tempos laboriosos do início; a planta, contudo, era tão preciosa em si mesma que bastaria um exemplar vitorioso para que a paz e a felicidade se derramassem, benditas, sobre a comunidade em geral. Seus ramos abrigariam a todos, seu perfume envolveria a Terra em branda harmonia e seus frutos, usados pelas criaturas, garantiriam o bem-estar do mundo inteiro.

Finda a promessa e depois de confiadas ao povo as sementes milagrosas, cada circunstante se retirou para o domicílio próprio, sonhando possuir, egoisticamente, a árvore das flores de luz e dos frutos de ouro. Cada qual pretendia a preciosidade para si, em caráter de exclusividade.

Para isso, cerraram-se apaixonadamente nas terras que dominavam, experimentando a sementeira e suspirando pela posse pessoal e absoluta de semelhante tesouro, simplesmente por vaidade do coração.

A árvore, todavia, a fim de viver, reclamava concurso fraterno total, e os atritos ruinosos continuaram.

As sementes, pela natureza divina que as caracterizava, não se perderam; entretanto, se alguns cultivadores possuíam água, não possuíam adubo e os que retinham o adubo não dispunham de água farta. Quem detinha recursos para defender-se contra os vermes, não encontrava acesso à gleba conveniente e quem se havia apoderado do melhor solo não contava com possibilidades de vigilância. E tanto os senhores provisórios da água e do adubo, da terra e dos elementos defensivos, quanto os demais candidatos à posse da riqueza celeste, passaram a lutar, em desequilíbrio pleno, exterminando-se reciprocamente.

O Mestre fez longo intervalo na curiosa narrativa e acrescentou:

— Este é o símbolo da guerra improfícua dos homens em derredor da felicidade. Os talentos do Pai foram concedidos aos filhos, indistintamente, para que aprendam a desfrutar os dons eternos, com entendimento e harmonia. Uns possuem a inteligência, outros a reflexão; uns guardam o ouro da terra, outros o conhecimento sublime; alguns retêm a autoridade, outros a experiência; todavia, cada um procura vencer sozinho, não para disseminar o bem com todos, através do heroísmo na virtude, mas para humilhar os que seguem à retaguarda.

E fitando Zebedeu, de modo significativo, finalizou:

— Quando a verdadeira união se fizer espontânea, entre todos os homens no caminho redentor do trabalho santificante do bem natural, então o Reino do Céu resplandecerá na Terra, à maneira da árvore divina das flores de luz e dos frutos de ouro.

O velho galileu sorriu, satisfeito, e nada mais perguntou.

– * –

Jesus, como sempre, nos lega profundas reflexões em mais uma de suas parábolas.

Podemos retirar diversos ensinamentos desta parábola e, especificamente no que tange às regras de convivência, acreditamos que Jesus nos dá a diretriz áurea.

Ele correlaciona a discórdia com o interesse em dominar, se apoderar das riquezas e das concessões celestiais.

Vale lembrar que na questão 298 de O Livro dos Espíritos, os gênios da espiritualidade asseveram que “da discórdia nascem todos os males humanos; da concórdia resulta a completa felicidade”.

A parábola nos demonstra que cada um deve oferecer, entregar os bens que Deus nos concede, em favor da coletividade.

A oferta despretensiosa, a doação sem a exigência de retorno, é o caminho para a união, a concórdia e a consequente felicidade.

Por isso, é importante que em nossos grupos oportunizemos e estimulemos a entrega dos talentos pessoais, criando espaço para que as pessoas possam compartilhar seus pensamentos e sentimentos, bem como para que possam agir na direção do encontro, intimidade e compartilhamento no grupo.

Todos aspiramos por um clima de intimidade e fraternidade, mas vale lembrar, como já salientamos em outros textos, que este tipo de relacionamento só é possível se conseguirmos que os membros se sintam de fato parte do grupo e possam mostrar a si mesmos e exercer seus papéis.

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