Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2019 Número 1621 Ano 87

Aprender a conviver

julho/2011 - Por Coordenadoria de Estudos da Doutrina Espírita

Seguindo com nossas reflexões sobre a aprendizagem, percebemos que o relatório Delors apresenta um caminho para a formação do ser humano, que passa por etapas bem constituídas. Primeiro, aprendemos a conhecer, entendendo qual o processo que utilizamos para aceitar e entender as informações ao nosso redor; depois, sedimentamos a aprendizagem desse novo conteúdo, ao aplicarmos o conhecimento de forma prática; este é o “aprender a fazer”.

Falaremos agora sobre o terceiro pilar da aprendizagem, aquele que muito interessa aos coordenadores de grupos de estudo pela sua consequência na forma como conduzimos esses grupos em “nossa” Casa Espírita; trata-se do “a prender a conviver”.

Allan Kardec enfatiza que o conhecimento do Espiritismo traz inúmeras consequências para a vida do ser humano. Ele diz, também, que o conhecimento da Doutrina não só ajuda seus adeptos a entender melhor os mecanismos do Universo, mas também é capaz de torná-los mais felizes. Analisemos a citação que se segue (grifo nosso):

“Quando, porém, conseguir a soma de gozos que o progresso intelectual lhe pode proporcionar, verificará que não está completa a sua felicidade. Reconhecerá ser esta impossível, sem a segurança nas relações sociais, segurança que somente no progresso moral lhe será dado achar: Logo, pela força mesma das coisas, ele próprio dirigirá o progresso para essa senda e o Espiritismo lhe oferecerá a mais poderosa alavanca para alcançar tal  objetivo”.

L.E: Conclusão, item IV

Kardec coloca a segurança nas relações sociais como fator essencial para a felicidade. Isto nos ajuda a compreender o papel que a boa convivência tem em nossas vidas.

Santo Agostinho trata desta questão em O Evangelho segundo o Espiritismo, no capítulo “Há Muitas Moradas na Casa de Meu Pai” quando fala dos mundos de provas e expiações. Ele diz que nosso planeta possui os estímulos necessários para no crescimento intelectual e moral.

A Terra, conseguintemente, oferece um dos tipos de mundos expiatórios, cuja variedade é infinita, mas revelando todos, como caráter comum, o servirem de lugar de exílio para Espíritos rebeldes à lei de Deus. Esses Espíritos têm aí de lutar, ao mesmo tempo, com a perversidade dos homens e com a inclemência da Natureza, duplo e árduo trabalho que simultaneamente desenvolve as qualidades do coração e as da inteligência. É assim que Deus, em sua bondade, faz que o próprio castigo redunde em proveito do progresso do Espírito”. Santo Agostinho (Paris, 1862) (Grifo Nosso)

Fizemos observações específicas nas duas passagens acima para mostrar a importância dada ao assunto, tanto por Kardec quanto pelos Espíritos. O crescimento moral se expressa nas relações sociais, no trato que o homem tem com as pessoas a sua volta.

Conseguimos observar o princípio do bem conviver no conceito de caridade estabelecido pelo Cristo (O Livro dos Espíritos, questão 886). Quando os Espíritos nos esclarecem que a caridade entendida por Jesus se tratava de Benevolência para com todos, Indulgência para com os erros alheios e Perdão das ofensas, esta já mostrava o caráter da boa convivência e da segurança nas relações sociais.

Reforçando ainda mais essa ideia, na questão 298 de O Livro dos Espíritos, os orientadores espirituais nos dão a ideia de que os males humanos nascem da discórdia entre os homens, e que os Espíritos Superiores têm como fonte de suprema felicidade o amor que os une (questão 967).

Se levarmos em consideração o fato de os grupos de estudos servirem de ambiente para o aprendizado e prática dos princípios da Doutrina Espírita, será nesse ambiente também que envidaremos esforços para a boa convivência. O “aprender a conviver” passa a ser pilar fundamental em um programa de estudos.

Para tanto, o grupo deve estimular os integrantes a buscarem compreender como funcionam em grupo, iniciando a reflexão a partir da análise de como eles têm se portado dentro do próprio grupo, um ambiente muito privilegiado, tanto pela boa intenção de todos os que estão presentes, como pela ajuda dos bons Espíritos e também com base nos princípios e valores que são estudados regularmente.

Será, então, a partir destas reflexões que os participantes poderão compreender os princípios da Doutrina (como as Leis Morais, por exemplo) e aplicá-los de forma segura e orientada dentro do grupo.

O coordenador deve, então, buscar construir um ambiente de estímulo à reflexão e experimentação das atitudes saudáveis que ainda virão a se tornar hábitos, a partir do esforço de cada um.

Assim sendo, explorar os nossos sentimentos e atitudes diante de um membro do grupo que nos incomoda pode ser uma das mais ricas experiências, desde que se o faça com o interesse em compreender e melhorar.

Do mesmo modo, receber dos outros a impressão que lhes causo, para saber o que posso fazer melhor, pode ser um grande presente que nos poupe muitos sofrimentos para buscar a conscientização necessária.

Os coordenadores devem, para tanto, habituar-se primeiro com a tarefa do conhecimento de si mesmos, para, então, eficazmente, conseguirem ajudar os outros a trilhar esse caminho, descobrindo ângulos de sua personalidade antes obscuros por motivos diversos, e crescendo com isso. É o esforço de deixar de ser um doutrinador, para tornar-se um evangelizador, consoante o ensino de Emmanuel, na sua obra O Consolador, na questão 237.

A arte de bem conviver é um passo essencial para a construção de um mundo mais feliz. É a oportunidade que temos de experimentar, em parte, a felicidade que os Espíritos mais elevados têm em mundos superiores.

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