Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2019 Número 1621 Ano 87

Aprender a conhecer

fevereiro/2015

Continuamos o assunto anterior, referente ao Relatório Delors, desta feita exploraremos o primeiro dos pilares da educação neste novo Milênio: aprender a conhecer. Buscaremos entender como ele se aplica ao ensino e aprendizagem da Doutrina Espírita nos grupos de estudo.

Allan Kardec1 propõe: Três períodos distintos apresenta o desenvolvimento dessas ideias: primeiro o da curiosidade, que a singularidade dos fenômenos produzidos desperta; segundo, o do raciocínio e da filosofia; terceiro o da aplicação e das consequências. O período da curiosidade passou; a curiosidade dura pouco. Uma vez satisfeita, muda de objeto. O mesmo não acontece com o que desafia a meditação séria e o raciocínio. Começou o segundo período, o terceiro virá inevitavelmente.

Podemos traçar um paralelo entre esta análise do codificador a respeito da Doutrina como um todo e o processo pelo qual cada indivíduo que a busca também passa: primeiro, a pessoa quer saber a que veio a Doutrina Espírita, o que um Centro Espírita tem a oferecer, que diferença isso tudo pode fazer em sua vida. A seguir, ela começa a se apropriar dos seus princípios e conceitos. Somente então, passa a interpretar a sua vida sob esta nova óptica.

A partir da passagem citada da Codificação, pode-se entender que o estudo precisa de continuidade, disposição ao recolhimento, bem como disciplina. Vemos, assim, que são necessários: compromisso, envolvimento e interesse em empreender um projeto de longo prazo.

A primeira questão que deveríamos fazer para dar início ao processo de aprendizagem é: o que vou aprender?

Depois, quando já estamos dispostos a aprender, deveria ser: como vou aprender?

Não é difícil perceber que aprender a montar uma estante, a navegar na internet, a falar inglês, a tocar piano, a interpretar um texto e a preparar uma comida são aprendizagens muito distintas e, logo, devem necessitar de diferentes métodos.

O que nós queremos aprender quando buscamos a Doutrina Espírita?

Recordamos, novamente, que o compromisso da Doutrina deve ser com a transformação moral do ser humano2.

Assim sendo, quais são as aprendizagens necessárias para que se seja hoje melhor do que ontem e amanhã melhor do que hoje, consoante a proposta de Allan Kardec3?

Traremos a Doutrina para a nossa vida à medida que nos transformarmos moralmente, através dos esforços que realizamos para domar as nossas más inclinações4.

Como domarmos nossas inclinações e nos transformarmos moralmente? Quais são as aprendizagens necessárias para esse processo?

Para chegarmos a esse resultado, precisamos de diferentes aprendizagens: primeiro, precisamos saber o que precisamos fazer, depois precisamos aprender como fazer, para, por fim, aprendermos a fazer. Fazer, neste caso, refere-se a agir com virtude.

Esta é a sequência natural de todo processo de aprendizagem (ver figura 1 em anexo).

Como nós vamos aprender, este é justamente o metaobjetivo da educação proposto pelo relatório Delors, quando propunha “aprender a conhecer” como um dos seus pilares básicos.

Isto quer dizer que não basta que ensinemos coisas às pessoas, temos que capacitá-las a encontrar as respostas importantes por si mesmas, o que é especialmente verdadeiro quando estamos falando de aquisições legítimas e individuais do espírito, como as que a Doutrina Espírita se dispõe a promover.

Esta é uma aprendizagem que não estamos acostumados a buscar de maneira sistemática.

Comumente aprendemos o que é certo e errado no momento que experimentamos as consequências negativas dos nossos atos, o que se tem comumente chamado de “aprender pela dor”. Joanna de Ângelis5 suporta esta ideia, quando diz: “O aguilhão ainda é o principal impulsionador do progresso”.

Mas nós sabemos que este não é o único meio para se aprender a viver com virtude. A Doutrina Espírita traz a proposta de nos libertar da ignorância, permitindo-nos viver no mundo de uma maneira mais consciente e, consequentemente, fazer nossas escolhas de uma maneira mais deliberada.

Entretanto, para este empreendimento, precisamos, primeiramente, aprender a conhecer.

Assim sendo, nós, nos grupos de estudo, devemos ajudar os participantes a entenderem como se faz este tipo de aprendizagem, ao passo em que nós mesmos aprendemos a fazê-lo.

Propusemos que a aprendizagem da virtude se concretiza no momento em que conseguimos agir de uma maneira diferente, mas que isso se realiza a partir do momento em que se vencem estágios anteriores: primeiro precisamos aprender o que exatamente são as virtudes e quais virtudes ainda precisamos desenvolver para, a seguir, aprender o caminho para desenvolvê-las e, finalmente, ajustar a maneira de colocá-las em prática.

Assim, a reflexão que precisamos fazer junto aos participantes dos grupos de estudo é, em um primeiro momento, a respeito de quais os conhecimentos necessários e como adquiri-los.

É comum que os participantes dos grupos de estudo busquem modelos parecidos com os apresentados na escola, quando os mestres ou tutores apresentavam quais eram os conhecimentos necessários, e eram responsáveis pela avaliação da aquisição da suficiência pelo aluno.

A coordenação dos grupos de estudo, também inspirada nos modelos escolares tradicionais, deseja logo apresentar currículos a serem aprendidos pelos participantes, ansiosos por apresentar os elevados conceitos da Doutrina Espírita.

Acontece que a aprendizagem das virtudes não pode ser feita por golpes verbais. O desenvolvimento das virtudes é uma construção e reforma, ao mesmo tempo, como na proposta evangélica: Destruir o homem velho para edificar o novo.

No processo de desconstrução do homem velho, na primeira etapa da aquisição do conhecimento, quando nos perguntamos: O que preciso aprender? Entramos em um terreno novo para as teorias do conhecimento, pois precisamos saber em que patamar estamos, para inventariar o que precisa ser reformado, o que precisa ser reforçado e o que precisa ser construído.

Por isso, aprender a aprender nos grupos de estudo ou aprender a aprender a Doutrina Espírita, começa no aprender a se autodiagnosticar. A tarefa do facilitador/coordenador será proporcionar aos indivíduos espaço e ferramentas para que possam acessar o seu íntimo e aprendam a se autoconhecer em primeiro lugar.

Isso nos guiaria pelo terreno ainda relativamente novo da aprendizagem significativa e consciente, sem a necessidade da fuga da dor como móvel principal. Por isso destacamos a importância da continuidade, da disciplina e do recolhimento na proposta de Allan Kardec.

Se nós colocamos, por exemplo, aprender a perdoar entre as aprendizagens importantes para um indivíduo dentro da Doutrina Espírita, segundo a nossa proposta, primeiro o indivíduo precisa se convencer da importância do perdão.

A seguir, ele precisa tomar consciência se tem ou não perdoado e o que o mobiliza a seguir nesta ou naquela direção.

O próximo passo é desenvolver as habilidades necessárias para, por fim, conseguir trazer para o campo das atitudes a nova aprendizagem.

Conhecer as sutilezas e complexidades dos caminhos da aquisição de virtudes é o desafio do “aprender a conhecer” dentro dos grupos de estudo da Doutrina Espírita.

Além de trazer estes assuntos para a pauta da discussão dos grupos de estudo, outros elementos exercem influência sobre a capacidade do participante de “aprender a conhecer” e podemos dividi-los em três categorias: relacionados com a instituição, com o funcionamento interno do grupo e atitudes do facilitador (ver tabela em anexo).

 

Aspectos relacionados à instituição:

Uma instituição que ofereça vários grupos, com diferentes temas e diferentes métodos de funcionamento, oferecerá um conjunto de oportunidades maior para que o participante possa mergulhar nos temas pelos quais tem mais interesse e em metodologias que sejam adequadas ao seu momento. Ao contrário, algumas instituições podem ter poucos grupos de estudos, ou grupos com programas rígidos e centrados no conteúdo, com pouca ou nenhuma flexibilidade para se adaptar às necessidades e especificidades dos participantes. Além disso, dentro da instituição pode preponderar um clima de desconfiança a respeito da capacidade dos indivíduos tomarem boas decisões, que se manifestam por uma tentativa de controlar as pessoas, não dando oportunidades para estas se autodirigirem. Por fim, a instituição pode ter uma exiguidade de recursos para pesquisa e ampliação das discussões. Todos estes fatores podem facilitar ou dificultar a possibilidade de o indivíduo se conduzir na sua aprendizagem, aprendendo como fazê-lo.

Aspectos relacionados ao funcionamento do grupo:

A abertura para participação é um fator determinante no processo de aprender a aprender, à medida que possibilita a escolha de metas e meios para a execução. Ainda, grupos onde o coordenador é uma figura com muito poder, da qual os participantes são subordinados e dependentes, não permite o clima de introspecção e iniciativa necessários para a condução da aprendizagem. Soma-se a estas características o hábito de estimular os participantes a fazer pesquisas a respeito dos assuntos discutidos e trazer seus conteúdos pessoais, como sentimentos e experiências para a reflexão, o que vai ensinando o participante como aprender.

Atitudes do facilitador:

Outro elemento fundamental no processo de aprender a conhecer são as atitudes do facilitador. Um facilitador/coordenador, que estimule a reflexão, com uma compreensão empática e a perquirição inteligente e sistemática, promoverá um clima propício ao “aprender a conhecer”.

Por outro lado, no sentido contrário, se o coordenador sempre chama para si a palavra final, impondo suas ideias e, por vezes, até disputando com os membros do grupo, ele dificulta a conscientização do participante a respeito dos próprios processos e necessidades de aprendizagem.

Estes são elementos do aprender a conhecer presentes nos grupos de estudo da Doutrina Espírita. Excluíram-se da nossa análise as características individuais dos participantes que facilitam ou dificultam o processo, por não serem modificáveis pelo coordenador ou pela Instituição Espírita.

E assim, vemos como podemos construir um clima concordante com o aprender a conhecer, pilar essencial da educação para o novo milênio e as vantagens de desenvolvê-lo em nossos grupos de estudo nos Centros Espíritas, de tal modo a obtermos resultados ainda mais produtivos do que já temos obtido.

 

1. O Livro dos Espíritos – conclusão, item V.

2. O Espiritismo em sua Expressão mais Simples, item 35.

3. O Espiritismo em sua Expressão mais Simples, item 38

4. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XVII, item 4

5. Leis Morais da Vida, cap. 39

 

 

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