Jornal Mundo Espírita

Julho de 2020 Número 1632 Ano 88

Aprendendo a conhecer com Jesus

abril/2011 - Por Coordenadoria de Estudo da Doutrina Espírita

Ninguém melhor para nos dar o exemplo de como conhecer as coisas do que Jesus. Ele nos mostrou o caminho seguro e efetivo do autoconhecimento e da prática do amor. Espírito Puro que era, fazia com que todos à sua volta despertassem para a reflexão e para a expressão dos sentimentos.

Certa vez, quando os discípulos de João Batista vieram ter com ele, disseram que João perguntara se ele era o “enviado de Deus” ou se o povo deveria esperar por outra pessoa. Jesus nos dá nesse instante o exemplo desse estímulo à reflexão. Ao invés de dizer que era o “enviado de Deus” disse:

— Ide anunciar a João o que tendes visto e ouvido: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciado o reino dos Céus (Lucas 7:22).

Esta passagem mostra claramente esta característica do Cristo. Ele estimulou seus interlocutores a observar a realidade e a refletir sobre o que estavam vendo. Ao trazer estas questões para reflexão, Jesus nos ensina a conhecer as coisas pelo método da análise, mostrando que a fé pode ter como base o raciocínio bem fundamentado.

Há grande diferença em ouvir de alguém um ensinamento e descobrir ensinamentos da fala de alguém. Jesus, nesta passagem, fez isso. Ao invés de dizer que ele era de fato quem eles esperavam, fez com que eles percebessem o que ele realizava, estimulando-os a tirar suas próprias conclusões.

Outro aspecto importante do relacionamento de Jesus com seus discípulos era o constante estímulo à experiência prática, através da qual podemos fortalecer e consolidar conceitos abstratos.

Jesus estimulava os apóstolos a ir ter com as multidões. Ele dizia a cada um que o desejo sincero de fazer o bem, o amor verdadeiro pelo próximo e a ação davam a eles a segurança de agir em nome de Deus.

— Ide em busca das ovelhas perdidas da casa de nosso pai que se encontram em aflição e voluntariamente desterradas de seu divino amor. Reuni convosco todos os que se encontram de coração angustiado e dizei-lhes, de minha parte, que é chegado o reino de Deus. Trabalhai em curar os enfermos, limpar os leprosos, ressuscitar os que estão mortos nas sombras do crime ou das desilusões ingratas do mundo, esclarecei todos os espíritos (…).

O que vos ensino em particular, difundi-o publicamente, porque o que agora escutais aos ouvidos será o objeto de vossas pregações de cima dos telhados.

Quando os apóstolos titubeavam no trabalho, duvidando de sua capacidade de realizá-lo, o Mestre fazia o papel do professor que transmite conhecimentos e ao mesmo tempo faz com que seus alunos reflitam e percebam as coisas que já conhecem.

Este é um exemplo de como Jesus trabalhava a partir das necessidades trazidas pelos apóstolos, utilizando-se muitas vezes dos elementos da Natureza e do cotidiano para facilitar a aprendizagem do grupo:

— Simão, que faz o pescador quando se dirige para o mercado com os frutos de cada dia?

O apóstolo pensou alguns momentos e respondeu hesitante:

— Mestre, naturalmente escolhe-se os peixes melhores. Ninguém compra os resíduos da pesca.

Jesus sorriu e perguntou de novo:

— E o oleiro? Que faz para atender à tarefa a que se propõe?

— Certamente, Senhor – redarguiu o pescador, intrigado – modela o barro, imprimindo-lhe a forma que deseja.

O Amigo Celeste, de olhar compassivo e fulgurante, insistiu:

— E como age o carpinteiro para alcançar o trabalho que pretende?

O interlocutor, muito simples, informou sem vacilar:

— Lavrará a madeira, usará a enxó e o serrote, o martelo e o formão. De outro modo, não aperfeiçoará a peça bruta.

Calou-se Jesus, por alguns instantes, e aduziu:

— Assim, também, é o lar diante do mundo. O berço doméstico é a primeira escola e o primeiro templo da alma. A casa do homem é a legítima exportadora de caracteres para a vida comum. Se o negociante seleciona a mercadoria, se o marceneiro não consegue fazer um barco sem afeiçoar a madeira aos seus propósitos, como esperar uma comunidade segura e tranquila sem que o lar se aperfeiçoe? A paz do mundo começa sob as telhas a que nos acolhemos. Se não aprendemos a viver em paz, entre quatro paredes, como aguardar a harmonia das nações? Se nos não habituamos a amar o irmão mais próximo, associado à nossa luta de cada dia, como respeitar o Eterno Pai que nos parece distante?

Jesus no Lar – Neio Lúcio

 

Nesta outra passagem, ele continua a discussão dos assuntos do cotidiano, estimulando a reflexão em um ambiente informal e colaborativo:

— Sara, qual é o serviço fundamental de tua casa?

— É a criação de cabras – redarguiu a interpelada, curiosa.

— Como procedes para conservar o leite inalterado e puro no benefício doméstico?

— Senhor, antes de qualquer providência, é imprescindível lavar cautelosamente o vaso em que ele será depositado. Se qualquer detrito ficar na ânfora, em breve todo o leite se toca de franco azedume e já não servirá para os serviços mais delicados.

Jesus sorriu e explanou:

— Assim é a revelação celeste no coração humano. Se não purificamos o vaso da alma, o conhecimento, não obstante superior, se confunde com as sujidades de nosso íntimo, como que se degenerando, reduzindo a proporção dos bens que poderíamos recolher. Em verdade, Moisés e os profetas foram valorosos portadores de mensagens divinas, mas os descendentes do povo escolhido não purificaram suficientemente o receptáculo vivo do espírito para recebê-las. É por isto que os nossos contemporâneos são justos e injustos, crentes e incrédulos, bons e maus ao mesmo tempo. O leite puro dos esclarecimentos elevados penetra o coração como alimento novo, mas aí se mistura com a ferrugem do egoísmo velho. Do serviço renovador da alma restará, então, o vinagre da incompreensão, adiando o trabalho efetivo do reino de Deus.

Jesus no Lar – Neio Lúcio

Estas eram oportunidades para os discípulos praticarem o que Jesus ensinava, de aprenderem, a partir da reflexão sobre a prática, e pelo prazer de servir, a alegria de serem úteis. O conhecimento se tornava então o que eles pensavam intelectualmente e sentiam emocionalmente.

Jesus, nosso modelo maior de educador, então, nos apresenta, pelo seu exemplo, diretrizes para a facilitação do conhecimento, balizas para o “Aprender a conhecer”:

Não apresentar respostas prontas: Jesus sempre estimulava a pessoa a refletir mais sobre qual era o problema que realmente incomodava, como quando propõe aos discípulos que reflitam sobre o sofrimento que devem vivenciar aqueles que agridem os homens que se esforçam para fazer o bem (Jesus no Lar, cap. 35). Além disso, o mestre não perdia a oportunidade de responder às indagações com novas perguntas, frequentemente desafiando o interlocutor à autorreflexão ou ao exame comparativo de situações com as quais estava acostumado a lidar;

Meditar antes de apresentar soluções: os evangelhos e as obras espíritas que descrevem as atitudes de Jesus são recorrentes em apresentar as pausas que Jesus fazia, ao apresentar um esclarecimento. Ainda que o mestre pudesse ter as respostas prontas, tomava um tempo, para deixar que os outros pudessem refletir, para criar prontidão e expectativa e também para escolher a melhor maneira de prestar o esclarecimento;

Estimular a reflexão sobre a vivência: são de exceção os relatos de Jesus introduzindo um tema para as discussões. A sua técnica de facilitador da aprendizagem era sempre trabalhar com os conteúdos trazidos pelos necessitados. E, ao abordar estes assuntos, Jesus sempre estimulava à reflexão sobre as vivências antes de apresentar qualquer resposta, o que não raro era sequer necessário;

Usar elementos e histórias que tenham a ver com o cotidiano do aprendiz:

O Nazareno nos demonstra que, para que possamos aprender, temos que usar elementos já conhecidos, buscar analogias com as nossas vivências;

Usar a experiência como a grande fonte de aprendizagem para a vida: Jesus sempre convocou todos a viver e ensinar as diretrizes para um mundo melhor;

Construção compartilhada do conhecimento: O Galileu nos dá o exemplo de que devemos usar as colaborações de todos para construir o conhecimento, num processo participativo, como fica evidente, por exemplo, no cap. 3 do livro Jesus no Lar;

Permissão do aporte de assuntos pessoais e emocionais: Ao invés de se centrar em um determinado tema, Jesus sempre instou aqueles que o rodeavam a trazer seus assuntos pessoais, e sempre foi muito atento aos relatos e às necessidades emocionais dos que conviviam com ele (veja-se exemplos nos cap. 5 e 6 do livro Jesus no Lar);

Jesus não dava instruções diretas: Apesar de permitir e mesmo estimular a expressão das particularidades da vivência de cada um, o mais das vezes Jesus apresentava diretrizes genéricas, para que os seguidores pudessem ter um norte, mas, ao mesmo tempo, habituarem-se a refletir a respeito da melhor maneira de se conduzirem pelo mundo.

E você? Como tem feito no seu grupo de estudos? Temos conseguido seguir os exemplos metodológicos de Jesus? Podemos intensificar o trabalho a partir destas diretrizes?

Temos feito a meditação sobre a tarefa que desempenhamos ao mesmo tempo em que estimulamos as reflexões dos participantes?

Prossigamos resolutos, na capacitação para o bom desempenho das tarefas que nos cabem na seara espírita.

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