Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2019 Número 1621 Ano 87
Trabalhadores do Bem Envie para um amigo Imprimir

Ao mestre Deolindo com carinho

janeiro/2018 - Por Rogério Coelho

Escritor notável quão singular, sua mão obedecia ao mesmo tempo ao seu cérebro lúcido e ao seu coração bondoso.  Com maestria debulhava temas áridos e complexos transformando-os em palatáveis porções homeopáticas de fácil digestão intelectual.

Deolindo Amorim esteve por quase trinta anos – com um devotamento exemplar – à frente de seu querido Instituto de Cultura Espírita, e nunca deixou sem resposta as cartas que recebia de toda parte. Ali implantou os cursos regulares de Espiritismo, tal como preconizara Kardec.   Manteve absoluta e inabalável fidelidade ao Codificador do Espiritismo tanto dentro como fora dos arraiais espiritistas, seja nos atos, nos diálogos, nos escritos, enfim, em tudo quanto fez e ensinou…

Num breve escorço biográfico, escreveu a seu respeito o renomado escritor espírita Hermínio C. Miranda:

A vocação literária de Deolindo Amorim manifestou-se cedo.  Seus primeiros escritos sobre temas religiosos apareceram aos 17 anos, em “Nordeste Evangélico”, uma publicação protestante de Canavieiras, BA.  Embora com simpatias pela seita, não chegou a aderir formalmente a ela.  É que, observando a amplitude de seus interesses pela leitura, especialmente de História e pela obra de Ruy Barbosa, um pastor amigo observou, certa vez: “Irmão, quem vai seguir o Cristo não se dedica às coisas do mundo”.  Não era aquele, portanto, o seu caminho.  Como ignorar o mundo se o Cristo nos quer precisamente no mundo, trabalhando por Ele!?…  A bem intencionada, mas infeliz observação do pastor, levou-o, contudo, a um período de agnosticismo que duraria anos.

Na idade militar, decidiu servir ao Exército no Rio de Janeiro, onde continuaria sendo o brilhante autodidata de sempre. Viveria na então Capital Federal, um tempo de solidão e dificuldades materiais, mas acabou conseguindo espaço no veterano “Jornal do Comércio”, como colaborador.  Passaria depois, já como jornalista profissional sindicalizado, para o “Radical”.  Seria fiel ao jornalismo até o fim de sua profícua e abendiçoada existência.

Foi um companheiro de quarto que o levou, certa vez, a uma palestra espírita no Centro Espírita “Jorge Niemeyer” e lhe emprestou alguns livros doutrinários.  Destes, o que mais o impressionou à época foi “O Porquê da Vida”, de Léon Denis, que se tornaria seu autor predileto.  Escolheria Denis como patrono, ao tomar posse na Academia Brasileira de Filosofia e sobre ele escreveria um dos seus excelentes estudos.

Desde a década de 30, na seara espírita, onde travou conhecimento com inúmeros confrades e consolidou sólidas amizades, destacou-se como orador seguro, discorrendo de maneira simples, mansa, tranquila, segura, mas escorreita, sempre absolutamente fiel às orientações de Jesus e Kardec.  Ao mesmo tempo em que lenia corações ulcerados pelo sofrimento lançava jorros de luz no entendimento de quantos tiveram a felicidade de ouvi-lo.

Levado por Henrique Andrade, Deolindo daria início ao longo período de colaboração no periódico “Mundo Espírita”, da Federação Espírita do Paraná, sediada em Curitiba, no qual escreveu, até o último alento, a sua valiosa coluna…

Foi o pioneiro no Brasil nos métodos didáticos de difundir a Doutrina Espírita, desde a fundação de um grupo de estudos que denominou “18 de Abril”.  

Oito meses antes de partir para a Espiritualidade, deu o seguinte depoimento:

O Evangelho Segundo o Espiritismo é para mim a maior mensagem de esperança e apoio íntimo que encontrei até hoje. Nessa obra, que é meu livro de orientação em todos os momentos de minha vida, aprendi a sentir o Cristo e a Justiça Divina. Sou um homem feliz, e posso dizê-lo tranquilamente.

Escreveu os seguintes livros: Africanismo e Espiritismo; O Espiritismo e os problemas humanos; O Espiritismo e as Doutrinas Espiritualistas; Espiritismo e Criminologia; O Espiritismo à luz da crítica; Allan Kardec, o Homem, a Época, o Meio, as Influências, a Missão.

Digna de nossa imorredoura gratidão e de nossas mais alcandoradas expressões encomiásticas é a atitude do Centro Espírita Léon Denis, do Rio de Janeiro, que vem reeditando as obras esgotadas de Deolindo, bem como vem dando à luz estudos e pesquisas, como os de Carlos Bernardo Loureiro, os do professor Celso Martins e do professor José Jorge, que, paciente e perseverantemente, recolheram artigos publicados pela imprensa das recuadas épocas e os reuniram em publicações, como Relembrando Deolindo Amorim (2 volumes), que também é o título que passou, para gáudio de todos nós, a ter uma coluna cativa na Revista Presença Espírita, da LEAL – Salvador.

Ponderações Doutrinárias é um livro notável, organizado por Celso Martins, e editado pela FEP, esgotado. Merece uma nova edição.  Contém artigos preciosos publicados em vários periódicos espíritas entre as décadas de 70 e 80.  Do mesmo naipe e do mesmo compilador é o livro Análises Espíritas, publicado pela Federação Espírita Brasileira, já em sua segunda edição, abrangendo artigos publicados desde a década de 40 até a de 80.

Finalmente, existem escritos seus correspondentes a resumos de suas aulas, ministradas no ICEB, e publicadas nos Anais do Instituto de Cultura Espírita do Brasil, volumes I a IV, reunidos em outra obra intitulada: Doutrina Espírita, resultado de meticulosa compilação de Elzio Ferreira de Souza, de Salvador, Bahia, e Cadernos Doutrinários do Centro Dezoito de Abril, publicado pela Editora Circulus de Salvador.

No dia 24 de abril de 1984, Deolindo Amorim voltou para casa.  Contava, então, 76 anos de idade.  A ele, onde estiver, nosso respeito, consideração, carinho e profunda admiração…

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