Jornal Mundo Espírita

Dezembro de 2018 Número 1613 Ano 86

Ao encontro da identificação com o bem

maio/2018

Ainda se vê, em algumas regiões, o animal com dois cestos em suas costas, servindo ao transporte. Vai ao seu destino, descarrega a carga e segue sua faina diária.

O óbvio nos diz que é necessário não sobrecarregar os cestos, e fazer as descargas devidas. Não sendo assim, o transtorno se instala.

Se pensarmos em lixo (doméstico, industrial), pela quantidade que é gerado, um hipotético transporte com animal e seus cestos indica grande dificuldade, exaustão na certa.

Por sua vez, em uma única carga, pequenos objetos de grande valor comercial, que  não se os têm em quantidade avantajada, se daria com relativa normalidade, além do que significariam muito em valor transportado.

Na nossa caminhada evolutiva, porque estagiando nas primeiras expressões da consciência em nível inferior e seguindo em ascendência, naturalmente vamos adquirindo outros e novos valores, sem que nos desidentifiquemos dos conteúdos anteriores, no mesmo ritmo. Ou seja, vamos reunindo nos cestos da consciência novas experiências, sem abrirmos mão de certas crenças, valores e comportamentos existenciais, hoje ultrapassados; e não nos damos conta de que esse apego retarda muito a marcha ascensional.

Sabemos dos bens de valor, mas nos sobrecarregamos de desvalores.

Exemplo: o cristão, com riqueza de conteúdos novos à sua disposição, sabidos e decorados, não se liberta das paixões dissolventes, ilusões, sentimentos inferiores. Continua impaciente, intolerante, intrigueiro, fomentador de discórdias.

Acontecerá a libertação desses conteúdos negativos, o esvaziamento dos cestos da carga desaconselhada, mais dia menos dia, por deliberação pessoal ou de forma penosa, não raro. E, então, essa dor educadora será a que facultará os anseios pelas conquistas de melhorias íntimas, que acontecerão em processo lento, mas contínuo, objetivando o bem-estar e a paz, formando novos hábitos, uma nova visão da vida, uma nova forma de viver.

Aprendemos, com o Espiritismo, que as leis de Deus estão inscritas em nossas consciências, leis que nos impulsionam ao progresso, tanto quanto o progresso faculta um maior despertar da consciência, uma maior manifestação dessas leis em nós e por nós. É o círculo virtuoso.

É o Deus em nós, do conceito evangélico, refletido na consciência embrionária.

É essa a orientação trazida por Ezequiel 36:27: O Senhor diz assim: Porei o meu Espírito em vocês e os levarei a agirem segundo os meus decretos.

Ou ainda, 1Coríntios 3:16-17: Vocês não sabem que são santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vocês? O santuário de Deus, que são vocês, é sagrado.

Esse santuário vem representado também no templo judaico de então, onde havia três pátios: o externo, o interno e o lugar sagrado, habitado pelo Santo dos Santos.

Figuradamente, podemos ver no pátio externo, o nosso corpo; no pátio interno, o nosso perispírito e o lugar sagrado, o Espírito, a nossa Consciência, à imagem e semelhança da Consciência Cósmica, à qual pertencemos e vivemos integrados. O lugar sagrado onde Ele habita com Suas Leis.

A Doutrina Espírita guarda compromisso também como formuladora de consciência superior, gerando novas formulações existenciais, revelando o real sentido e nossa razão de viver.

Pela clareza de seus postulados, tem tudo para nos levar a uma identificação com valores imorredouros, que, no futuro, assomarão como recursos elevados, básicos para o bem-estar e para a paz sonhada.

Porém, é preciso nos desidentificarmos com tudo aquilo que se nos faz grilhão impeditivo de passos evolutivos, e nos identificarmos, em gênero, número e grau com tudo que sustente e promova nossa caminhada rumo à consciência superior; com todos, como irmãos de jornada, em franca fraternidade; com o Todo Universal, não somente cientes de Sua existência, mas conscientemente pertencentes ao Criador, como Suas criaturas que somos; como filhos que trazemos o Pai no coração; como quem se realiza, se fazendo religioso, não pela bandeira que ostente dessa ou daquela ordem de ideias, mas pela adoção e integração com a Ideia Maior que lhe configura a religiosidade da consciência, e assim vive; enfim, como cristão com Cristo no pensar, no falar e no agir.

Transformação, saindo do convencimento para a conversão.

Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más, conforme lição kardequiana. (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XVII, 4)

O grande apóstolo Pedro posicionou-se a respeito: Quanto ao mais, tenham todos o mesmo modo de pensar, sejam compassivos, amem-se fraternalmente, sejam misericordiosos e humildes. Não retribuam mal com mal nem insulto com insulto. (1Pedro 3:8,9)

E Ele, Jesus, a Identidade Excelsa de nossa identificação nova, registrou-nos Sua lição: Como o Pai me amou, assim eu os amei; permaneçam no meu amor. (…) Tenho lhes dito estas palavras para que a minha alegria esteja em vocês e a alegria de vocês seja completa. (João 15:9,11)

O Espírito de Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; vocês o conhecem, porque Ele vive com vocês e estará dentro de vocês. (João 14:17)

Como identificá-lo, reconhecê-lo e despertá-lo dentro e além de nós?

O Espírito de Verdade, em seu retorno, aclara-nos: Espíritas! Amai-vos, eis o primeiro ensinamento. Instruí-vos, eis o segundo.

O Amor é a grande síntese, o amálgama da consistência da Unidade, que, equilíbrio que é, e equilíbrio que devemos alcançar, sintoniza com a Consciência Universal, o reino dos Céus, onde a Paz tem sua fonte.

Deus em nós, sabemos que sim, Ele está.

Vivamo-lO, pois!

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