Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87
Trabalhadores do Bem Envie para um amigo Imprimir

Anna Coleman Ladd

julho/2019 - Por Mary Ishiyama

A Primeira Guerra Mundial foi feita, principalmente, nas trincheiras. As cabeças ficavam expostas e os soldados vulneráveis. Na Europa, calcula-se que mais de vinte mil soldados tiveram seus rostos desfigurados. A proporção dos danos dependia do calibre das armas, indo de pequena parcela do rosto a praticamente desfiguração total. Esses homens tinham a vida preservada, mas não conseguiam viver em sociedade e nem voltar para suas casas. Seu aspecto assustava.

Cirurgiões como Harold Gillies e o dentista Varaztad Kazanjian, pioneiros na cirurgia estética, nem sempre conseguiam realizar, efetivamente, uma cirurgia reconstrutiva e vale lembrar que poucos tinham acesso a esse tipo de medicina.

Em muitos homens, as cicatrizes eram tão terríveis que se isolavam ou conseguiam trabalhos em lugares escuros, como cinemas. A depressão era assunto muito sério.

O escultor Francis Derwent Wood, no Reino Unido, foi o pioneiro no trabalho com máscaras faciais para esconder as cicatrizes e as mutilações. Dizia que seu trabalho começava onde terminava o do cirurgião. Abriu o ateliê The Tin Noses Shop, cujo nome original era Masks for Facial Disfigurement Department.

No entanto, uma artista em particular se destacou na construção das máscaras, não só pela delicadeza de detalhes, mas também por criar um ambiente que ajudava os soldados a se curarem emocionalmente. Ela acreditava ser seu trabalho ajudar aqueles homens que lutaram pelo seu país.

Anna Coleman nasceu em 1878 em Bryn Mawr, na Filadélfia. Estudou em Paris e Roma, foi aluna do renomado escultor Bela Pratt, no Boston Museum School. Era famosa por seus bustos e fontes. Sua escultura Triton Babies foi exposta em 1915, em San Francisco, e hoje está no Boston Public Garden.

Suas esculturas eram seres mitológicos, sátiros e sereias. Escreveu dois livros, Hieronymus Rides e The Candid Adventurer, e duas peças para o teatro que nunca foram produzidas.

Mudou-se, em 1905, para Boston onde conheceu seu futuro marido Maynard Ladd, médico pediatra. Em 1917, mudou-se com a família para Toul, França.

Seu marido assumiu como diretor o Departamento Infantil da Cruz Vermelha Americana.

Foi ali que Anna tomou conhecimento do trabalho de Derwent Wood. Entrou em contato com ele que lhe enviou detalhes do que fazia.

Acompanhada de quatro assistentes, ela criou o Estúdio de Máscaras da Cruz Vermelha Americana em Paris. Percorreu os hospitais de Paris em busca de pacientes. Quase três mil homens se candidataram a esse socorro.

No seu estúdio era proibido espelho, o ambiente era tranquilo e amistoso, limpo e claro.  Eram oferecidas palestras que preparavam os soldados para o retorno à sociedade. Anna os chamava de valentes sem rosto.

As máscaras eram baseadas em fotografias antigas e longas conversas para entender a peculiaridade, característica e personalidade de cada um.

Eles passavam por um processo minucioso onde eram observados seus hábitos e expressões faciais, cor da pele e o nível de destruição facial. Devido a isso, as máscaras poderiam pesar entre 100 e 250 gramas cada uma.

Primeiro era feito o molde em gesso ou cera, depois era usada uma folha de cobre muito fina para moldar o gesso. Pronta, a máscara era colocada no rosto do paciente e pintada para que a cor ficasse o mais próximo possível da pele. Usava-se tinta a óleo, mas Anna preferia esmalte por ser lavável. Se o soldado usava barba, isso era acrescido à máscara.  Muitos nem a tinham, mas pediam esse adereço para ter uma nova visão de si mesmo. A barba, sobrancelhas e os cílios eram de cabelo natural.

Para os fumantes, os lábios da máscara eram levemente entreabertos, para os que usavam óculos e tiveram uma das vistas destruídas, o olho era pintado à perfeição e um par de óculos era adicionado. A máscara era de rosto inteiro para alguns, para outros apenas parte, cobrindo a área afetada pelas lesões.

Graças às máscaras da artista, aqueles homens deixaram de viver como reclusos. Muitos a agradeciam porque agora seus filhos não tinham mais medo deles. Alguns conseguiam namoradas. Sentiam-se confiantes de andar pelas ruas apesar do estigma.

Infelizmente, em 1923, o estúdio foi fechado. A Cruz Vermelha não podia mais pagar pelo trabalho.

Anna produziu 185 próteses. Não existe registro físico delas uma vez que foram enterradas com seus portadores.

Anna e família voltaram para Boston, em 1932.  Ela foi agraciada com a medalha da Ordem de São Sava, na Sérvia e homenageada como Chevalier da Legião Francesa de Honra, na França, por seu trabalho que é considerado a origem da Anaplastologia, amplamente utilizada em cirurgia plástica e próteses.

No entanto, as homenagens que mais a tocaram foram as inúmeras cartas recebidas dos soldados a quem não deu somente rostos, mas principalmente dignidade e vontade de viver. Algumas diziam: Obrigado por me devolver minha casa e minha mãe.

 Graças a você, eu terei uma casa. A mulher que eu amo não me considera mais repulsivo.

Anna morreu em Santa Bárbara, na Califórnia, aos 60 anos, em 3 de junho de 1939.

 

Referências:

1.https://nowthisnews.com/videos/news/anna-coleman-ladd-made-masks-for-wounded-world-war-i-veterans

2.https://pt.wikipedia.org/wiki/Anna_Coleman_Ladd

3.https://www.mdig.com.br/index.php?itemid=42371

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