Jornal Mundo Espírita

Junho de 2019 Número 1619 Ano 87
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Anália Franco

março/2014 - Por Marco Antonio Negrão

No mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher (8 de março), vamos abordar a vida de uma perigosa defensora dos negros, órfãos,  combatente ferrenha da desvalorização do papel da mulher, que desafiou o preconceito, no terceiro quartel do Século XIX. Foi uma professora que dedicou sua vida à luta pelo ideal de igualdade entre homens e mulheres, entre brancos e negros e nunca se acovardou, nos momentos em que suas crenças foram colocadas em xeque pelos costumes da época.

No dia 1º de fevereiro de 1853, nascia Anália Emília Franco, na cidade de Resende – RJ, filha de Antonio Mariano Franco Junior e Tereza Emília de Jesus Franco. Sua mãe era professora primária e seu pai, contador e comerciante. Viveu num lar cheio de carinho e respeito, pois seu pai não tinha o comportamento comum à época. Sua mãe, dentro do lar, conversava todos os assuntos da vida conjugal, profissional e dos acontecimentos do momento com seu marido, emitindo opiniões. Porém, em público, Tereza mantinha conduta condizente aos costumes que a sociedade impunha, para não constranger o marido.

Nesse ambiente, cresceu Anália Franco. Muito cedo aprendeu a ler e, quando saía de casa para comprar livros, os comerciantes comunicavam ao pai que ela estava transgredindo a regra de que mulher era criada para cuidar da família e ter filhos, não precisando saber ler. Para quê?

Em 1860, a família mudou-se para a cidade de São Paulo. E, no ano de 1870, Anália acompanhou a mãe numa palestra em que um casal de cientistas sociais (Louis e Elizabeth Agassiz – ele suíço e ela americana) apresentaram os resultados de uma viagem que empreenderam e que foram relatados no livro Viagem ao Brasil – 1865-1866, onde registraram suas impressões sobre o sistema educacional e o papel da mulher na sociedade brasileira. As conclusões do livro causaram profundo impacto na jovem Anália.

Formou-se professora, porém, sentia-se incomodada com a separação entre meninos e meninas (em minoria absoluta) e a ausência de crianças negras, nas salas de aula. Lia obras e escritoras que abordavam assuntos sobre abolicionismo – Nísia Floresta, Maria Firmina dos Reis, Narcisa Amália, Chiquinha Gonzaga, dentre outras. Essas leituras confirmavam suas convicções e ela sentia que precisava contribuir para modificar a situação reinante.

Moça de beleza sóbria, sempre foi independente, dizia que nunca se casaria. Seu pai recebia frequentemente pretendentes à mão da filha. Ela, delicadamente, recusava. Porém, o destino lhe reservava um grande amor. Casou-se aos cinquenta e três anos, em 1906, com Francisco Antonio Bastos, que atuou como guarda-livros da Associação Feminina Beneficente e Instrutiva do Estado de São Paulo (AFBIESP), fundada em 17 de novembro de 1901, com o objetivo precípuo de instruir.

Certa vez, seu pai recebeu um pretendente de boa família e ela o recusou, o que desgastou seu pai. Os dois discutiram. Anália resolveu mudar-se de São Paulo. Manteve correspondência com as esposas de senhores de terras, comentando que desejava montar uma escola. E  a esposa de um fazendeiro,  numa cidade do Interior, lhe ofereceu a possibilidade de criar uma escola para atender a educação dos seus filhos e da elite do local. Tudo custeado pelo Coronel Sinhô. Lá, com sua visão de vida livre de preconceitos, Anália verificou o que acontecia com os filhos dos escravos. No primeiro dia de aula, distribuiu os alunos por faixa etária, por nível de conhecimento, mas cometeu um sacrilégio, perante a visão sectarista e preconceituosa da sociedade local. Junto aos filhos dos senhores de terras, ela colocou os filhos dos escravos e de outros empregados da fazenda. Isso causou grande tensão. Como a professora podia colocar os filhos dos latifundiários juntos aos negrinhos e aos filhos dos empregados? Anália enfrentou a sociedade local, teve sua vida ameaçada pelos capangas do coronel, e foi obrigada a fugir da cidade.

Um casal de colonos a levou para uma cidade chamada Coração do Brasil. Ali, Anália Franco dirigiu-se à Santa Casa e começou a viver com as Irmãs de Caridade, que tinham muitos filhos, que eram as crianças oriundas da roda dos expostos. Porém, a cada dia chegavam mais crianças nessa condição. Ela alugou uma casa para abrigar os excedentes. Pagava o aluguel com o seu salário de professora (na época, já era professora concursada). Mas, o que ganhava era insuficiente para o aluguel e a alimentação de todos. A situação ficou insustentável. As crianças não tinham comida e poucas pessoas da cidade ajudavam com doações. Ela, resoluta, sabendo que haveria uma procissão de São João, levou seus filhos para pedirem esmola, chocando a cidade e o clero, causando grande constrangimento. A partir desse evento, passou a ser chamada de perigosa,  título que a acompanhou durante toda sua vida, principalmente, junto ao clero (ela era católica)..

Entre os anos 1897 e 1898, sofreu cegueira temporária, ocasião em que tomou contato com o Espiritismo. O caráter científico e a clareza com que a Doutrina Espírita abordava os aspectos espirituais da vida encantaram Anália. Nesse período, ela intensificou sua produção literária, escrevendo contos, matérias para jornais e revistas progressistas, livros e deu início a três romances: A égide materna, A filha adotiva e A filha do artista.

Ao final da vida, Anália Franco havia constituído setenta e uma escolas, dois albergues, uma colônia regeneradora para mulheres (ex-prostitutas), vinte e três asilos para crianças órfãs, uma banda musical feminina, uma orquestra, um grupo dramático, além de oficinas para manufatura, em vinte e quatro cidades do Interior e da Capital paulista.

Sua vida foi marcada pela luta a favor dos excluídos. Anália Franco foi professora, abolicionista, republicana, musicista, escritora e feminista.

Anália Emília Franco Bastos retornou ao mundo espiritual no dia 20 de janeiro de 1919. Essa brasileira dedicou-se a mudar a situação das mulheres e seus filhos das incompreensões e preconceitos arraigados, sempre através da educação. No momento da sua desencarnação, estava nas suas mãos agulha, linha e a Bandeira do Brasil.

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