Jornal Mundo Espírita

Fevereiro de 2021 Número 1639 Ano 88
Trabalhadores do Bem Envie para um amigo Imprimir

Ana Neri, a mãe dos brasileiros

janeiro/2021 - Por Mary Ishiyama

Seus vultos brancos se incorporam à paisagem dos hospitais. (…), de sua paciência, de sua vigilância, de seu carinho depende muitas vezes a vida de um doente. Sua figura é anônima, conhecida apenas por um nome – a enfermeira.1

Nossa homenagem a esses profissionais da saúde, que com cuidado, zelo e até mesmo por ato de heroísmo, em tempos de pandemia como vivemos em 2020, merecem nosso respeito e admiração. Nada mais justo homenageá-los através de Ana Neri.

Ana Justina Ferreira nasceu na Vila da Cachoeira do Paraguassu, Bahia, em 13 de dezembro de 1814, filha de José Ferreira de Jesus e Luísa Maria das Virgens.

Casou-se aos vinte e três anos com o capitão de fragata, Isidoro Antônio Neri, passando a assinar Ana Justina Ferreira Neri ou apenas Ana Neri. Teve três filhos. Aos vinte e nove anos, seu marido morreu a bordo do veleiro Três de Maio, no Maranhão. Ana criou os filhos sozinha. Dois tornaram-se médicos, Isidoro Antônio Neri Filho e Justiniano de Castro Rebelo Neri e um tornou-se cadete, Pedro Antônio Neri.

Em maio de 1865, o Brasil, Argentina e Uruguai assinam o Tratado da Tríplice Aliança e se unem contra o Paraguai. Foi o conflito mais sangrento e de maior duração da América Latina.

Durou de 1864 a 1870. O Brasil não dispunha de um corpo militar suficiente para essa empreitada, e foram recrutados homens a partir do sentimento patriótico, constituindo-se os Voluntários da Pátria.

Foi com esse sentimento que os filhos, irmãos e sobrinhos de Ana Neri foram lutar no campo de batalha. Preocupada com a situação, sensibilizada pelos sofrimentos que viriam, e a necessidade de estar com a família, fizeram com que Ana enviasse uma carta ao presidente da Província da Bahia solicitando permissão para seguir para o conflito, como enfermeira voluntária.

Aceito seu pedido, Ana Neri partiu em direção ao Rio Grande do Sul, onde aprendeu noções de enfermagem com as Irmãs de Caridade de São Vicente de Paulo. Em agosto de 1865, partiu com o 10o Batalhão de Voluntários da Pátria, como enfermeira.

Como auxiliar do Corpo de Saúde do Exército brasileiro, atuou por cinco anos, na Guerra. Prestou serviço nos hospitais militares de Corrientes, na Argentina;  Humaitá e Assunção, no Paraguai, e em hospitais da frente de operações.

Fora toda a triste situação dos feridos da guerra, ela ainda enfrentou as doenças da época que eram a cólera, febre tifoide, disenteria, malária e varíola, junto às condições sanitárias, que eram mínimas.

Com recursos próprios, organizou um hospital de campanha, onde viu um de seus filhos e um sobrinho morrer. Montou uma enfermaria em sua casa, criou métodos para melhorar a eficácia dos tratamentos que eram basicamente cauterizações, chás medicinais, iodo e um e outro medicamento disponível.

Com a perda do filho, dedicou-se ainda mais aos filhos de outras mães, conquistando o apelido de Mãe dos Brasileiros, embora não tenha cuidado apenas dos brasileiros, também de argentinos, uruguaios e paraguaios porque um coração de mãe não discrimina os filhos.

Foi precursora da Cruz Vermelha, é considerada a primeira enfermeira do Brasil, e também, a primeira pessoa não religiosa a cuidar de uma comunidade ou população em situação de risco ou necessidade.

A guerra terminou em 1º de março de 1870. Ana Neri voltou ao Brasil trazendo três órfãos, como seus filhos.

Recebeu várias homenagens, entre elas uma coroa gravada À heroína da caridade, as baianas agradecidas, ofertada pela Comissão das senhoras baianas.

Carlos Chagas batizou, com seu nome, a primeira Escola Oficial Brasileira de Enfermagem, em 1923, no Rio de Janeiro. O governo imperial concedeu-lhe a Medalha Geral de Campanha e a Medalha Humanitária de Primeira Classe.

Em 1938, Getúlio Vargas assinou o Decreto nº 2.956 que instituía o dia 12 de maio como O dia do enfermeiro, data em que devem ser prestadas homenagens à memória de Ana Neri, em todos os hospitais e escolas de enfermagem do país.

Na mesma data, é homenageada Florence Nightingale, criadora da primeira Escola de Enfermagem do mundo, em Londres, em 1860. Embora contemporânea de Ana Neri, não existem registros de que tenham se conhecido.

Através da Lei nº 12.105, de 2 de dezembro de 2009, Ana Justina Ferreira Neri entrou para o livro dos Heróis da Pátria, depositado no Panteão da Liberdade e da Democracia, em Brasília – Distrito Federal.

Ela desencarnou no Rio de Janeiro, em 1880, aos 66 anos de idade, deixando como marcas sua abnegação, perseverança e humanidade para com o outro e a organização sistemática e humanizada no cuidado aos doentes.

 

Referências:

  1. http://memoria.bn.br/docreader/DocReader.aspx?bib=108081&pagfis=15609
  2. Brazil, T. K. (organizadora), Sales, S. M., Portella, S.D.C. – Ana Justina Ferreira Neri. Projeto Heróis da Saúde na Bahia. Disponível em http://www.bahiana.edu.br/herois/heroi.aspx?id=Mg==. Acesso em: 11/11/2020.
  3. https://www.bn.gov.br/acontece/noticias/2020/05/ana-neri-mae-brasileiros
  4. http://www.bahiana.edu.br/herois/heroi.aspx?id=Mg==
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