Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Amigo

novembro/2013 - Por Antônio Moris Cury

No Brasil, 20 de julho é o dia consagrado ao amigo. E, exatamente por isso, tal data é deveras importante, razão de gerar gigantesca quantidade de mensagens, especialmente agora que temos a internet, a rede mundial de computadores, trocadas entre pessoas que se querem bem, que têm amizade, que têm afinidade, que se estimam, enfim.

Segundo o Dicionário Escolar da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras – ABL, amigo é aquele Que é ligado a outrem por afeição e afinidade: pessoa amiga; Que oferece ajuda: mão amiga; Pessoa unida a outra por amizade (Companhia Editora Nacional, 2ª edição, 2008, página 133).

Atualmente, a palavra amigo tem sido utilizada em variadas situações e circunstâncias e, muitas vezes, até mesmo com conceito diferente do apontado pelos dicionários. Em Curitiba, a cidade em que residimos, por exemplo, é comum perguntar-se a um desconhecido: Amigo, sabe me informar onde fica a agência mais próxima do INSS? O meu cafezinho, amiga, é com leite, meio a meio. Amigo, pode me informar que horas são? etc. Claro que tais expressões são simpáticas, agradáveis e cativantes, mas, em verdade, estão distanciadas do verdadeiro sentido de amigo, pois não há ligação de afeição e afinidade nem de amizade, embora devamos, desde logo, reconhecer que podem ser úteis e oferecer ajuda, como também registra o dicionário da ABL, antes aqui reproduzido.

Com efeito, depois de muita reflexão, associada ao decurso do tempo e, principalmente, às experiências vivenciadas, concluímos que a sabedoria popular, que é construída ao longo dos anos e fruto de agudíssima observação do dia a dia, está absolutamente correta ao endossar o registro histórico: Quem encontrou um amigo, encontrou um tesouro! E que tesouro!

Não estamos tratando aqui de conhecidos. Conhecidos, incontáveis conhecidos, em diversas áreas, no trabalho, na Casa Espírita, na sociedade em geral, todos seguramente temos muitos, muitíssimos. Referimo-nos, evidentemente, ao verdadeiro amigo, essa preciosa conquista que só se consolida com respeito e fraterno amor recíprocos, sempre.

Para se ter ideia do que pensamos: só o verdadeiro amigo é capaz de aceitar, com lucidez, discernimento e compreensão, e continuando a nos querer bem, os nossos defeitos e falhas, que são inúmeros e que nós mesmos só enxergamos em parte, se e quando conseguimos ter isenção suficiente e humildade bastante para perceber e admitir os nossos erros, males e equívocos.

Só ele, o autêntico amigo, é capaz de discordar de nossa opinião e de nossa orientação, com absoluta sinceridade, se entendê-las equivocadas, apontando outros rumos e apresentando novos argumentos, com o objetivo exclusivo de ser útil e de nos auxiliar, verdadeira, fraternal e bondosamente.

É ele, por igual, quem fica feliz quando alcançamos conforto e bem-estar, com recursos lícitos e bem havidos, conquistados com trabalho, disciplina e esforço, e que serão estendidos à nossa família, assim como é ele quem vibra alegremente com o nosso progresso intelectual e, sobretudo, moral.

Por essas ligeiras observações, vê-se, assim, que poucos são os amigos verdadeiros, com os quais podemos contar nos momentos de dificuldade de variada ordem, de ansiedade, de angústia, de medo, de dor e de aflição.

Isso, porém, faz parte do processo evolutivo, a que todos estamos sujeitos, uma vez que o progresso é uma lei natural, que, como toda lei natural, é perfeita e por isso mesmo imutável.

O progresso do ser humano na escala evolutiva é lento e gradual, até porque depende, quando menos, de seu livre-arbítrio, máxime quando vive na Terra, um planeta de expiações e de provas, de categoria inferior no Universo, em que não se pode esperar perfeição, conquanto todos os esforços devam ser direcionados para a busca da perfeição relativa e da felicidade máxima, destino final dos seres humanos, através de permanente autoaperfeiçoamento, diminuindo e, de preferência, eliminando o orgulho e o egoísmo, as duas maiores chagas da Humanidade, que insistem em nos acompanhar e, mais grave, prevalecer em nossas atitudes e decisões.

E o permanente autoaperfeiçoamento pode ser obtido com o nosso autoconhecimento, uma vez que O conhecimento de si mesmo é a chave do progresso individual (questão 919, de O Livro dos Espíritos, a obra fundamental do Espiritismo).

Neste ponto, interessante reproduzir parte do texto atribuído ao matemático e filósofo grego Aristóteles [360 anos antes de Jesus, o Cristo], intitulado Revolução da Alma: Pare de colocar sua felicidade cada dia mais distante de você. Não coloque objetivo longe demais de suas mãos, abrace os que estão ao seu alcance hoje. Se você está desesperado por problemas financeiros, amorosos ou de relacionamentos familiares, busque em seu interior a resposta para acalmar-se, pois você é reflexo do que pensa diariamente. Pare de pensar mal de você mesmo e seja seu melhor amigo sempre.

Nada obstante, gostaríamos de enfatizar que o ser humano pode contar sempre com pelo menos três amigos.

Em primeiríssimo lugar, pode contar com Deus, nosso Pai Celestial, a inteligência suprema do Universo, Autor da Vida, causa primeira ou primária de todas as coisas, soberanamente bom e justo, que não abandona a nenhum de Seus filhos e que, de quebra, oferece todas as oportunidades de que necessitem para progredir, para ajustar e reajustar contas, quitar débitos ainda que parcialmente, estudar e aperfeiçoar-se, aprender sempre, e cada vez mais, neste educandário chamado Terra, no mínimo a viver em harmonia com o seu semelhante, preferencialmente em regime de respeito, consideração e fraternidade.

Em segundo lugar, o homem pode contar com Jesus, o Cristo, o ser mais perfeito que já esteve na Terra, modelo e guia da Humanidade, nosso mestre e amigo de todas as horas, que nos legou ensinamentos definitivos, revelando sobretudo que o amor é a lei maior da vida, razão pela qual sentenciou, resumindo a lei e os profetas, que devemos amar ao próximo como a nós mesmos, com o que estaremos amando a Deus sobre todas as coisas, ou seja, aconselhando que façamos ao próximo exatamente aquilo que gostaríamos que ele nos fizesse.

E foi Ele, Jesus, há mais de dois mil anos, quem deu a exata medida da importância e do extraordinário valor da amizade, ao dizer aos Seus discípulos: Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer (Jo, 15:15).

Por último, o ser humano pode contar com o seu Espírito Protetor, também chamado de anjo da guarda, pertencente a uma ordem elevada, cuja missão é a mesma de um pai em relação ao filho: a de guiar o seu protegido pela senda do bem, auxiliá-lo com seus conselhos, consolá-lo nas suas aflições, levantar-lhe o ânimo nas provas da vida (questões 490 e 491 de O Livro dos Espíritos, a obra fundamental da veneranda Doutrina Espírita), vibrando quando haja acerto e lastimando quando haja erro nas decisões, que, obrigatoriamente, têm que ser tomadas pelo protegido, em razão de seu livre-arbítrio, com o que passa a ser por elas responsável e, naturalmente, responsável por suas consequências. Não poderia ser de outra forma, a toda evidência, uma vez que o Espírito Protetor ou anjo da guarda não pode e não deve fazer a parte que compete ao ser humano.

Assim, tendo em vista que todos os que nos encontramos encarnados na Terra, por exemplo, somos imortais e indestrutíveis, isto é, viveremos para sempre, e com nossa individualidade inteiramente preservada; que aqui nos encontramos para aprender, muito aprender, a começar pelo aprendizado da fraternidade; que progrediremos sem cessar, pois tal é a lei, acreditamos que não será difícil fazer novas amizades [mantendo, evidentemente, as que já conquistamos e consolidamos], amizades verdadeiras, de mão dupla, em que haja afeição, afinidade, fraternidade e respeito, muito respeito, sempre. Se, teoricamente, tal pretensão se mostrar impossível, apenas para argumentar, cumpre não perder de vista que, ainda assim, ninguém está só, visto que sempre poderemos contar com Deus, Jesus e nosso Espírito Protetor ou nosso anjo da guarda que, além de orientação espiritual, amparo e proteção, direta ou indiretamente, nos oferecem a sua amizade, a mais sublime e autêntica amizade.

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