Jornal Mundo Espírita

Abril de 2017 Número 1593 Ano 85

Allan Kardec – Resgatando o tesouro da Boa Nova

março/2017

O tcheco Jan Huss, concorde com as ideias de John Wycliffe, no final do século XIV e começo do XV, se firmou como um dos precursores da Reforma Protestante que se deu no século XVI, liderada por Martinho Lutero.

Esse movimento reformista desejava uma religião liberta de certos excessos e que retomasse a pureza e simplicidade de suas bases, em identidade com a mensagem da Boa Nova, apresentada e vivida por Jesus.

Que a religião fosse o elo entre o coração do homem e Deus, por provocar efetivas reformas morais em cada um.

Com esse objetivo, Huss celebrava missas e proferia seus sermões em tcheco, quando deveriam ser somente em latim. Também foi grande estimulador da vida em comunidade, o que se contrapunha ao feudalismo de então e algumas posturas da religião dominante. Seus ideais eram de uma sociedade justa e com igualdade. A ideia prosperou entre grupos dos hussitas, que se reuniram em comunidades, e ficaram conhecidos como taboritas.

Em defesa de suas ideias foi aos extremos do sacrifício. Foi queimado vivo em 6 de julho de 1415. Porém, suas atividades de pregador e sua condenação foram elementos decisivos que deram grande força à Reforma Protestante em sua terra natal, a Boêmia.

Suas ideias não morreram com ele. Prosseguiram, qual fermento levedando a massa, no que se chamou depois de Revolução Hussita.

No entanto, a grande reforma pretendida pelo Senhor da Vida para a Humanidade, que começou num tempo não sabido, ainda não estava concluída.

Na admirável lei de harmonia que rege a vida e os mundos, tudo se encadeia no Universo, num compasso contínuo e persistente.

Em 1804, no dia 3 de outubro, em Lyon, França, nasceu Hippolyte Léon Denizard Rivail.

Era Jan Huss que voltava para dar continuidade ao seu trabalho renovador.

A saga de Rivail o conduz ao Continente do Espírito, levando-o a desbravá-lo com mestria, resgatando o tesouro da Boa Nova, que vem infielmente guardado em baús de práticas exteriores e outros atavismos ancestrais, velando, para os olhos do povo, a sua verdadeira riqueza transcendental e utilidade existencial.

A restauração dos ensinos de Jesus, em sua singeleza e originalidade, precisava e precisa continuar sendo realizada.

Em nova etapa, a exposição do tesouro em resgate começou com a publicação de O livro dos Espíritos, em 18 de abril de 1857.

Repetindo as experiências de seu tempo como Jan Huss, publicou livro de filosofia espiritualista em francês, sua língua mãe (tratados de filosofia somente eram publicados em latim). Ousou mais ainda: o apresentou em forma de perguntas e respostas, para facilitar a leitura e o entendimento do seu conteúdo (e não na exaustiva forma de longos tratados, como de praxe).

Depois de editar O livro dos médiuns (15.1.1861), trouxe a lume O Evangelho segundo o Espiritismo, em abril de 1864. Na sequência, O céu e o inferno (1º.8. 1865) e A gênese (6.1.1868).

O Evangelho segundo o Espiritismo configura um marco na retomada da busca pela religião efetivamente estimuladora do reencontro com Deus no coração dos homens.

Assim comentou Allan Kardec[i]: O Espiritismo é uma doutrina filosófica de efeitos religiosos, como qualquer filosofia espiritualista, pelo que forçosamente vai ter às bases fundamentais de todas as religiões: Deus, a alma e a vida futura. Mas, não é uma religião constituída, visto que não tem culto, nem rito, nem templos e que, entre seus adeptos, nenhum tomou, nem recebeu o título de sacerdote ou de sumo-sacerdote.

E acrescentou[ii]: O Espiritismo é chamado a desempenhar imenso papel na Terra.(…) restaurará a religião do Cristo(…); instituirá a verdadeira religião, a religião natural, a que parte do coração e vai diretamente a Deus(…)

Kardec tinha ciência desse essencial aspecto de sua missão, desde 30 de abril de 1856, quando os Espíritos Luminares lhe disseram3:

Deixará de haver religião e uma se fará necessária, mas verdadeira, grande, bela e digna do Criador… Seus primeiros alicerces já foram colocados… Quanto a ti, Rivail, a tua missão é aí.

E ele bem cumpriu sua missão. Trouxe para sob o Sol do meio-dia a Doutrina Espírita.

Observemos ainda com Kardec a persistência de outra ideia predominante em Jan Huss – a vida em comunidade, por ser o modelo que alcançaremos um dia para a nossa sociedade4: A comunidade é a abnegação mais completa da personalidade; ela requer o devotamento mais absoluto.Ora, o móvel da abnegação e do devotamento é a caridade, isto é, o amor ao próximo.(…) Mas a fraternidade, assim co­mo a caridade, não se impõe nem se decreta; é preciso que esteja no coração(…)

Segue demonstrando que a vida em comunidade – parâmetro de um mundo melhor – depende de materiais sólidos em sua construção: Para tanto, os materiais sólidos são os homens de coração, de devotamento e abnega­ção.(…)

Estabeleceu ainda que Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da Humanidade.

E a dualidade fé-razão, que contempla conhecimento, entendimento, compreensão e adoção, é a religiosidade da consciência, a qual não se baseia nessa ou naquela religião em particular, mas em comportamento congruente entre o que se sabe, no que se crê e o que se faz, por conseguinte.

A esse Apóstolo dos tempos modernos – Allan Kardec, cuja lida em nome do Cristo atravessa os portais do tempo em múltiplas existências, homenageamos com rápidos registros de sua saga, a qual nos legou os pilares de uma Nova Era.

Ele desencarnou no dia 31 de março de 1869, em Paris, França.

Entretanto, suas ideias, tanto quanto as de Jan Huss, permanecem, como revolução silenciosa no seio da sociedade m



[i] KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2006. pt.1, cap. Ligeira resposta aos detratores do Espiritismo.

[ii] Op.cit. pt. 2, cap. Futuro do Espiritismo.

3 Op. cit. pt. 2, cap. Primeira revelação da minha missão.

4 ______. Viagem espírita em 1862. Rio de Janeiro: FEB, 2005. cap. Discursos pronunciados nas reuniões gerais dos espíritas de Lyon e Bordeaux)

 

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