Jornal Mundo Espírita

Abril de 2019 Número 1617 Ano 87
Trabalhadores do Bem Envie para um amigo Imprimir

Alguém que tem amor

março/2019

Por mais imaginação que tenhamos, não poderemos conceber, na íntegra, a realidade vivida pelos que estiveram prisioneiros em campos de concentração nazistas.

Deus manda Seus enviados com o compromisso de nos ensinar através de seus exemplos, de suas posturas diante das dificuldades da vida. Quando as dificuldades surgem, nos lembramos deles e procuramos seguir os seus passos.

Um desses enviados foi Luba Gercak. Luba é uma palavra de origem eslava que em tradução livre significa alguém que tem amor. A pessoa que possuía esse nome foi alguém que amou acima de todas as medidas.

Ela foi considerada a heroína do inferno. O inferno do campo de concentração de Bergen-Belsen. As autoridades militares alemãs montaram o campo em 1940, ao sul das cidades de Bergen e Belsen, ao norte de Celle, na Alemanha. Era um campo para prisioneiros de guerra mas, à medida que as forças aliadas avançavam na Alemanha, tornou-se um campo que acolhia milhares de prisioneiros judeus evacuados dos campos mais próximos da frente de batalha.

A história de Luba começa na primeira semana de dezembro de 1944, quando caminhões chegaram ao campo de concentração e despejaram cinquenta e quatro crianças, muitos bebês. A mais velha tinha quatorze anos.

No alojamento das mulheres todas dormiam. Luba acordou com choro de criança. Despertou sua vizinha de cama que a ignorou. Todos sabiam que ela ainda sofria, assim como muitas, o fato dos nazistas terem matado seu marido e lhe arrancado dos braços o filho Isaac, de três anos, e o jogarem em um caminhão junto com outras crianças e velhos para serem levados à câmara de gás.

Ela levantou e viu crianças em choro, no meio do campo. Separadas de seus pais, se encontravam desnorteadas, com fome, frio e, naturalmente, apavoradas. Luba as recolheu, de imediato. As demais mulheres temiam por suas vidas e protestaram para que ela se livrasse delas.

Vocês não são mães? – Disse ela. Se fossem seus filhos, diriam para que eu os deixasse morrer de frio? Eles são filhos de alguém.

Naquele momento, os assumiu como seus filhos e agradeceu a Deus por lhos ter enviado. O seu filho morrera, mas faria tudo para que aquelas crianças vivessem.

Ela foi até o oficial do campo e contou o que fez, implorou por ajuda. Sem se aperceber, tocou no braço dele que a esbofeteou, jogando-a ao chão. Sangrando, disse: Sou mãe, perdi meu filho em Auschwitz. Você tem idade para ser avô. Por que há de querer maltratar crianças e bebês?

O oficial acabou por dizer que  Luba poderia ficar com elas e cedeu aos seus pedidos autorizando que pegasse dois pães de forma.

Para alimentar aquelas bocas famintas, todas as manhãs, Luba peregrinava pelo depósito, cozinha, padaria, implorando, barganhando e roubando comida. As crianças ficavam espiando pela janela e diziam: Lá vem irmã Luba. Ela traz comida para nós!

À noite, ela cantava canções de ninar e as abraçava. As crianças falavam outras línguas, não entendiam o que ela dizia, mas entendiam o seu amor. Amor de mãe, amor que acolhe, agasalha e protege.

No início de 1945, com a superlotação, as péssimas condições sanitárias e a falta de alimentos,  água e abrigo adequados, ocorreu um surto de tifo, tuberculose e disenteria, que vitimou dezenas de milhares de prisioneiros.

Luba velou pelas crianças desnutridas, desidratadas, com febre alta e dores de cabeça, causadas pelo tifo. Ela ia de uma em uma dando alimento e rezando para que um milagre as salvasse.

E, no domingo, 15 de abril de 1945, quando as tropas britânicas libertaram o campo, das cinquenta e quatro crianças que estavam sob os cuidados de Luba, somente duas haviam sucumbido.

Elas foram levadas para casa em um avião inglês, reencontrando suas mães, desde que muitas delas haviam sobrevivido. Mais tarde, um oficial holandês escreveu que foi graças a Luba que as crianças sobreviveram: Nós, holandeses, lhe devemos muito pelo que fez.

Através da Cruz Vermelha Internacional, Luba acompanhou quarenta órfãos de guerra de numerosos outros campos para a Suécia, onde recomeçariam suas vidas.

E foi na Suécia que ela conheceu Sol Frederick, outro sobrevivente do Holocausto. Casaram-se e tiveram dois filhos.

Em abril de 1995, no 50º aniversário de suas liberações, cerca de trinta homens e mulheres reuniram-se na prefeitura de Amsterdã. O prefeito, representando a Rainha, entregou a Luba a Medalha de Prata por Serviços Humanitários.

Stelia Degen-Fertig, uma das crianças sobreviventes, lutando para manter a voz firme, falou: Penso em você todos os dias da minha vida. Minha mãe sempre me disse que tinha me posto no mundo, mas que eu devia a minha vida a uma mulher chamada Luba. E repetiu muitas vezes que eu não deveria jamais me esquecer disso.

 

Referências:

http://momento.com.br/pt/ler_texto.php?id=1807&stat=3&palavras=Hero%C3%ADsmo%20materno&tipo=t

https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/bergen-belsen-abridged-article

http://www.jornaldaorla.com.br/noticias/10682-amor-de-mae/

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