Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87
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Albert Schweitzer – o profeta das selvas

fevereiro/2013 - Por Maria Helena Marcon

Ele vivia em Paris e, aos trinta anos, já havia publicado um opúsculo sobre Eugène Münch, uma tese sobre a vida de Jesus, um estudo sobre a filosofia de Immanuel Kant, duas obras de vulto, uma em francês e outra em alemão, sobre Johann Sebastian Bach e, finalmente, um livro sobre A arte de construir órgãos e a arte de tocá-los.

Ele tinha nas mãos algo que a maior parte dos homens dá a vida e até a alma, por vezes: um cargo público vitalício, em uma universidade europeia; uma reputação como erudito e músico; o prazer de ensinar e pregar aquilo em que acreditava profundamente. Por fim, a promessa de fama europeia e mundial.

Contudo, num dia frio, domingo de Páscoa de 1913, com a esposa ao lado, setenta caixas de materiais no porão, e todos os sinos da França tocando o Evangelho da Ressurreição, Albert Schweitzer embarcou para a África Equatorial Francesa, em Lambarené, a fim de servir aos seus irmãos negros. A eles serviu durante quase cinquenta anos de sua vida. A empatia pelo sofrimento do povo negro não arrefeceu no transcorrer dos anos, ao contrário, mais profunda se tornou.

Antes de deixar a Europa, o Dr. Schweitzer apresentou sua tese, em que a Medicina e a Teologia se entrelaçavam: Estudo psiquiátrico de Jesus. Exposição e crítica.

Aos vinte e um anos, num domingo de Pentecostes, ele fizera um pacto com Deus. Ele se dedicaria à teologia, à filosofia e à música até os trinta anos. Depois, colocaria sua vida a serviço da Humanidade.

Em sua autobiografia, diz Schweitzer: No dia 13 de outubro de 1905, uma sexta-feira, em Paris, coloquei várias cartas numa caixa postal da Avenue de La Grande Armée, comunicando a meus pais, e alguns amigos mais próximos, a resolução de iniciar os estudos de medicina no princípio do semestre de inverno, para trabalhar como médico na África Equatorial. Numa das cartas, alegando a necessidade de me dedicar aos novos estudos, pedia demissão do meu cargo de diretor do Instituto Teológico de São Tomás.

E ele retornou aos bancos escolares por seis anos, durante os quais continuou a realizar concertos e conferências em Paris. Helena Bresslau lhe tocaria o coração. A relação de amizade evoluiu para o amor, enquanto ela estudava enfermagem.

Formado em Medicina, Schweitzer achou ainda indispensável fazer em Paris um curso intensivo sobre doenças tropicais. Nesse meio tempo, começou a angariar fundos para o hospital, que sonhava construir em Lambarené e o que conseguiu daria para manter o hospital por um ano.

Dados os rumores de possibilidade de guerra, ele separou dois mil francos em ouro, entendendo que se a guerra viesse, o ouro conservaria o seu valor, ao contrário do papel-moeda e os créditos bancários.

Era um homem previdente. No entanto, embora não se dissesse nem francês, nem alemão, mas alsaciano, durante a Primeira Guerra Mundial ele foi preso pelas tropas francesas, retornando para seu trabalho, em Lambarené, somente em 1924.

Nesse tempo, o casal foi enviado a Bordeaux, onde Albert adoeceu gravemente, dali a um mosteiro abandonado em Garaison, após para S. Remy de Provence, não longe de Arles, depois para a Suíça. Não eram avisados de nada e ele ficou sem livros e sem seu piano. Improvisou uma prancha, marcada como um teclado de órgão e, todos os dias, memorizava peças musicais, servindo-se ainda de pedais imaginários.

Quando retornou para a África, sua esposa, com saúde debilitada e sua filha, de apenas cinco anos, ficaram em Königsfeld, na Floresta Negra. Voltariam a se reencontrar três anos mais tarde.

Periodicamente, ele retornava para a Europa, a fim de dar concertos e conferências, arrecadando recursos para a obra africana.

Esse homem seguiu rigorosamente a orientação de Jesus: Quem quiser vir após a mim, renuncie a si mesmo e siga-me.

Albert Schweitzer foi muito criticado por amigos, que não lhe entenderam a renúncia. Às margens do rio Ogowe, no Gabão, ele construiu um hospital para doenças tropicais e uma clínica para leprosos.

Foi preciso conquistar aqueles negros que, enquanto ele operava, ficavam à janela espreitando e passaram a admirar o feiticeiro branco que matava as pessoas (anestesiava), cortava-as (cirurgia) e depois as devolvia à vida.

Mais de uma vez precisou enfrentar a arrogância do feiticeiro da tribo, que se sentia preterido porque, agora, os seus súditos preferiam a magia do branco.

Mas, quando o enfermo agradecia pela recuperação da saúde, por não ter mais dor, Schweitzer explicava que quem mandara o médico e sua mulher para o rio Ogowe fora o Senhor Jesus. E também que gente branca da Europa dava dinheiro para que eles pudessem viver ali tratando dos enfermos.

Em meio a tanto trabalho, em que foi médico, cirurgião, carpinteiro, pedreiro, conselheiro espiritual, juiz, Albert não abandonou a arte musical. Em um piano, construído especialmente para os trópicos e que lhe fora presenteado pela Sociedade Bach de Paris, ele estudava as peças de Bach, Mendelssohn, Max Reger, Widor, César Franck, até decorá-las.

Amigo de Einstein e de Gandhi apresentou a sua reverência pela vida, para um mundo que mergulhou na guerra, matando homens aos milhares. Todo ser vivo merece viver.

Para qualquer homem, qualquer que seja a sua situação na vida, a ética da Reverência Pela Vida produz isto: ela o força a preocupar-se sempre com todos os destinos humanos, os destinos da vida, que seguem seu curso na sua própria área de vida, e o força, também, a dedicar-se, como homem, ao homem que dele necessite.

Não permitirá ao erudito viver apenas para a sua erudição, embora esteja fazendo bom uso dela. Não consentirá ao artista viver só para sua arte, mesmo que esteja dando muito a muitos. A Reverência pela Vida não permitirá ao ativo homem de negócios pensar que, nas suas atividades profissionais, já cumpriu todas as exigências que pesam sobre ele. A todos pede que deem a outrem uma parcela da sua vida.

Nascido no dia 14 de janeiro de 1875, em Kaysersberg, Alsácia, Lorena, Alemanha (agora Alto Reno, França), desencarnou em 4 de setembro de 1965, em Lambarené. Foi considerado uma viva oração de amor.

Em 1928 foi laureado com o Prêmio Goethe;  em 1951, recebeu o Prêmio da Paz outorgado pelos livreiros alemães e, em 1952, recebeu o Prêmio Nobel da Paz.

Deixou vinte e dois livros publicados, sendo quatro sobre filosofia, três sobre música, cinco biográficos e autobiográficos, sete sobre teologia e três sobre generalidades, com edições francesa, inglesa, sueca, americana, dinamarquesa, holandesa, tcheca, portuguesa, norueguesa, italiana, japonesa, polonesa, húngara, finlandesa e brasileira.

Acima de tudo, foi herói da renúncia e do sofrimento, um mestre de vida, um servidor de Jesus.

Bibliografia consultada:

1. O profeta das selvas – Vida e obra de Albert Schweitzer, Hermann Hagedorn, ed. Fundação Alvorada.

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