Jornal Mundo Espírita

Maio de 2019 Número 1618 Ano 87

Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco…

junho/2016

No momento da tormenta, o caminhante busca abrigo seguro, para se preservar das intempéries e dos riscos da tempestade.

Os dias atuais na Terra podem ser relacionados como dias de tormentas, aparentando um quase recrudescer da violência, que toma formas e expressões inimagináveis para o Século XXI.

No Brasil, a violência açoita grande parte dos cidadãos, e se apresenta com a face do desemprego, da fome, da falta de moradia, da falta de assistência à saúde, do analfabetismo, da corrupção…

São momentos difíceis os que estamos vivenciando.

É melhor acender uma vela do que amaldiçoar a escuridão, recomenda o sábio Confúcio.

Não que antes não houvessem notáveis velas, iluminando os caminhos dos homens, mas o nascimento de Jesus, o Cristo de Deus, deu à Humanidade a luz do Sol de Primeira Grandeza, que se mantém indicando o Caminho, a Verdade e a Vida.

Este Sol de Esperanças, dentre muitos benefícios, estimulou o surgimento de variadas organizações de benemerência, ordens religiosas, instituições dedicadas à saúde, à educação, ao auxílio social, quais abrigos com portas abertas aos corações desejosos de proteção contra as tormentas da vida.

Nesse contexto, vem a lume, em 18 de abril de 1857, o Espiritismo, com a publicação de O livro dos Espíritos, de Allan Kardec, e em nome da Doutrina Espírita, multiplicaram-se, aos milhares, os Centros Espíritas, que se fazem guardiões e distribuidores das bênçãos do Consolador prometido por Jesus.

Disse-nos Lins de Vasconcellos, Espírito: O Espiritismo, consolidando a promessa de Jesus Cristo, trouxe à Terra um novo modus-operandi capaz de estimular o espírito humano no roteiro da dignificação pessoal e social, fazendo-o religioso com religiosidade íntima, capaz de ligá-lo, realmente a Deus, destarte, convocando-o para o auxílio aos náufragos e vencidos morais do mar proceloso das aflições, redimindo-se, por fim, através da redenção que propicia ao próximo.[1]

E continua Vianna de Carvalho, pela mediunidade de Divaldo Franco: Impostergável, portanto, o compromisso que temos, todos nós, desencarnados e encarnados, de estudar e divulgar o Espiritismo nas bases nobres com que no-lo apresentou Allan Kardec, a fim de que o Consolador de que se faz instrumento não apenas enxugue em nós os suores e as lágrimas, mas faça estancar nas fontes do sofrimento as causas de todas as aflições que produzem as lágrimas e os suores. [2]

Recomendações claras e simples como um raio de luz, de certo modo bem assimiladas pelos espíritas em geral. Grande a responsabilidade do Movimento Espírita.

No entanto, é clara e simples também a dedução de que a mensagem espírita não deve ficar confinada entre as quatro paredes de um Centro Espírita, aguardando passivamente a chegada dos padecentes da longa noite escura das almas, menos ainda deixar de atender, com os melhores esforços, os que chegaram, os que ficaram e, por que não?, os que se ausentaram.

Será que o espírita, trabalhador ou dirigente, tem tido o zelo de fazer por donde o Centro Espírita vivencie o espírito de uma grande família entre seus frequentadores? Os que chegam poderiam sentir essa acolhida como sendo especial? Os que chegam, os que ficam e os que já estão, se vêm distinguidos pela atenção zelosa da cortesia, da afabilidade, da doçura no trato? Que responda o dirigente ou o responsável pela condução dessa ou daquela tarefa na Casa Espírita, se pode repetir, devidamente ciente do seu alto significado, o dito de Jesus: Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido. (Jo. 10:14)

E sendo conhecedor do rebanho de ovelhas e delas o pastor, quando da ausência mais prolongada de um de seus membros, agirá como lecionado pelo Nosso Sublime Pastor: Que vos parece? Se algum homem tiver cem ovelhas, e uma delas se desgarrar, não irá pelos montes, deixando as noventa e nove, em busca da que se desgarrou? (Mt. 18:12)

Na qualidade de trabalhador ou dirigente espírita, fazemos de nossa Instituição uma fonte de consolo e um agradável refúgio de paz aos que nos encontram?

E pelos que se vão e não voltam, qual nossa dedicada busca por eles e insistência em repetir-lhes o Celeste Convite: Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei?  (Mt. 11:28)

O que estarão padecendo? Que tipo de auxílio a Casa pode lhes oferecer?

Jesus anunciou: Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor.  (Jo. 10:16)

Temos um compromisso grave com o próximo ao conduzirmos archote de luz e fonte de bênçãos, a eles destinados.

Afinal, disse Antoine de Saint-Exupéry: Aqueles que passam por nós não vão sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.

Não nos acomodemos em falsa zona de conforto.

Espíritas, compreendamos Fénelon[3], para melhor ainda vivenciarmos a mensagem espírita: Estais convencidos de que o Espiritismo acarretará uma reforma moral. Seja, pois, o vosso grupo o primeiro a dar exemplo das virtudes cristãs, visto que, nesta época de egoísmo, é nas sociedades espíritas que a verdadeira caridade há de encontrar refúgio.



1.FRANCO, Divaldo Pereira. Sementeira da fraternidade. Por Espíritos Diversos. 3. ed. Salvador: LEAL, 1995. cap. 52.

2. Op. cit. cap. 18.

3. KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. 68. ed. Brasília: FEB, 2001. cap. XXXI, item XXI.

 

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