Jornal Mundo Espírita

Maio de 2019 Número 1618 Ano 87

Água viva

junho/2013 - Por Dineu de Paula

Em O Evangelho Segundo São João, no capítulo 4, narra-se uma intrigante passagem da vida de Jesus.

O Mestre Divino, ao passar pela Samaria, assenta-se junto à fonte de Jacó. Pede a uma mulher que lá está que lhe dê de beber. A mulher fica escandalizada por um judeu lhe dirigir a palavra. Jesus responde que, se soubesse com quem falava, ela é que lhe pediria água viva. Ante a incompreensão da interlocutora, ressalta que quem bebe da água viva nunca mais tem sede.

Segundo a narrativa, a mulher ainda demonstra dúvida a respeito de qual local seria o melhor para adorar a Deus. Ao que o Cristo lhe responde que Deus deve ser adorado em espírito e verdade.

Essa passagem é um tanto hermética e comporta variadas leituras. Aliás, é sempre temerário pretender identificar a única ou melhor interpretação de um dizer ou ensino de Jesus. Nesse sentido, a lição do apóstolo Pedro: Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. (II Pedro, 1:20).

Tal seguramente traduz a extrema riqueza dos ensinamentos evangélicos, sobre cujo teor o homem pode se debruçar reiteradas vezes e sempre aprender algo novo.

No texto de que se trata, uma das possíveis leituras é que a água viva refere-se a uma nova forma de compreensão da divindade.

Até o advento do Cristo, vigorava a ideia de um Deus dos exércitos, que precisava ser temido. Segundo o entendimento corrente à época, Ele se encolerizava, castigava terrivelmente e devia ser agradado e aplacado.

Jesus inovou o pensamento religioso ao apresentar ao mundo um Deus amoroso, ao qual chamava  Pai.  Não se tinha mais um soberano terrível no comando do universo. Agora já havia um Pai cheio de amor e infinito em Seus cuidados.

Uma relação saudável com a divindade constitui um poderoso instrumento para que o homem atravesse as provas e vicissitudes da vida com o necessário equilíbrio.

Não se defende a impossibilidade de viver retamente sem a fé religiosa, pois são muitos os que se afirmam ateus e são cidadãos honrados e solidários. Contudo, essa fé, quando profunda e bem refletida, fornece recursos superiores de sucesso ao Espírito em sua rota evolutiva.

Nessa linha, a seguinte lição contida em O Evangelho Segundo o Espiritismo: Na verdade, impulsos generosos se vos depararão, mesmo entre os que nenhuma religião têm; porém, essa caridade austera, que só com abnegação se pratica, com um constante sacrifício de todo interesse egoístico, somente a fé pode inspirá-la, porquanto só ela dá se possa carregar com coragem e perseverança a cruz da vida terrena. (cap. XI, item 13).

O Espírito André Luiz, por meio da psicografia de Francisco Cândido Xavier, também assevera: Desde o primeiro dia de razão na mente humana, a ideia de Deus criou princípios religiosos, sugerindo-nos as regras de bem-viver. (Missionários da Luz, cap. IV).

Na mesma toada, a lição do Espírito José: Inspiração divina, a fé desperta todos os instintos nobres que encaminham o homem para o bem. É a base da regeneração. (o Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XIX, item 11).

O homem deve encontrar em sua fé recursos para cumprir o papel que lhe cabe em um mundo em constante mutação e no qual é desafiado a cada instante. A religiosidade, em seu sentido mais amplo, não se cinge a algumas práticas formalísticas sem maiores consequências. Ela pacifica, fortalece e orienta na vivência do bem, por entre as naturais dificuldades do caminho humano.

Entretanto, de modo curioso, a humanidade demonstra certa tendência a perverter ou amesquinhar a ideia de Deus, servindo-se dela para justificar o injustificável, promover guerras e intolerância.

Certamente foi por essa razão que o Espírito de Verdade, em uma admirável mensagem na qual faz um resumo da Doutrina Espírita, afirma: O Espiritismo, como o fez antigamente a minha palavra, tem de lembrar aos incrédulos que acima deles reina a imutável verdade: o Deus bom, o Deus grande, que faz germinem as plantas e se levantem as ondas. (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. 6, item 5).

Se o Espiritismo tem de relembrar esse aspecto capital da mensagem do Cristo, é porque ele foi esquecido ou não foi devidamente assimilado.

Em O Livro dos Espíritos, ao tratar das leis morais, apresentadas como um roteiro de felicidade, Kardec principia por minudenciar a lei de adoração, evidenciando que ela constitui a base de todas as outras. Tais leis são encadeadas de forma lógica, de modo que à lei de adoração se segue a do trabalho, sinalizando que à adoração deve se seguir imediatamente a ação profícua.

Anote-se que, na passagem evangélica em estudo, Jesus assenta que Deus deve ser adorado em espírito e verdade, o que parece em harmonia com a concepção espírita da divindade.

Aliás, cautelosamente, o Espiritismo cuida logo de assentar: Não é dado ao homem sondar a natureza íntima de Deus. Para compreendê-lo, ainda nos falta o sentido próprio, que só se adquire por meio da completa depuração do Espírito. (A Gênese, cap. II, item 8 e O livro dos Espíritos, questão nº 10). Ou seja, até que se torne completamente puro, o Espírito carece do sentido que permite a integral compreensão do divino, de modo que seus raciocínios nessa seara sempre devem ser humildes e cautelosos. Caso contrário, corre o risco de se assemelhar a um cego a discutir a diferença entre as variadas cores.

Feito esse alerta, defende-se que a adoração em espírito se contrapõe à adoração feita segundo critérios materiais, tocada pelas convenções humanas. Tal implica a desnecessidade de fórmulas, rituais, posições do corpo, ladainhas, locais, horários predeterminados e intermediários. A vida humana, em todos os seus aspectos, deve ser um ato de adoração.

Quanto à adoração em verdade, deve propiciar a gradual aproximação das crenças individuais com a verdade imperecível e universal, com a disposição para abandonar concepções que se revelem errôneas. Pressupõe humildade, flexibilidade e ânimo para o estudo e a reflexão.

O Espiritismo apresenta a divindade despida de caracteres antropomórficos, como uma inteligência cósmica e suprema, que rege o mundo a partir de leis perfeitas e imutáveis, plenas de justiça e misericórdia. Com isso, faculta o gradual desenvolvimento da adoração em espírito e verdade.

Como Deus não possui os vícios e as paixões humanas, tem-se a completa inocuidade de tentar agradá-Lo segundo as praxes adotadas em relação a personalidades humanas, como oferendas materiais, reverências, genuflexões etc. Ao contrário, parece que o melhor modo de agradá-lO é tentar entender e cumprir o papel por Ele destinado a cada homem, pela vivência digna e bondosa, pela busca constante dos progressos próprio e do mundo em que se habita. É a adoração em espírito, desapegada de rituais, horários e convenções.

Haja vista a regência do mundo dar-se com base em leis, surge a necessidade de tentar entendê-las, pelo estudo metódico e constante, a fim de melhor respeitá-las e praticá-las. Tem-se a adoração em verdade, com a disposição de abandonar entendimentos equivocados e de aproximar as próprias crenças o mais possível da verdade universal, por ora ainda muito distante das possibilidades humanas.

Importa observar que a adoração em espírito e verdade constitui a fórmula da água viva, com o condão de saciar a sede para sempre. Não é algo meramente cerebrino, pois deve propiciar paz e consolo ante as peripécias do jornadear evolutivo.

O hábito de meditar sobre os atributos da divindade (O livro dos Espíritos, questões 10 e seguintes) logra fornecer essa paz e esse consolo, que fortalecem a alma nas naturais agruras da vida. Deus, além de infindáveis outras qualidades, é onipotente, soberanamente sábio, justo e bom. Se Ele permite dada vivência, é porque isso se insere em um contexto superior de aperfeiçoamento, com vistas ao mais alto bem das criaturas envolvidas. Embora a fragilidade humana possa não permitir uma compreensão correta do contexto, a fé deve munir a criatura de forças e esperanças bastante para vencer.

Nesse contexto, as necessidades e agruras materiais passam a ser vistas sob um enfoque positivo. Elas não são um castigo, mas uma tarefa e uma oportunidade. A divindade sábia e cheia de compaixão deseja que o bem se instaure no universo. Ela almeja a transformação de Seus filhos e a salvação de absolutamente todos.

Para tanto, faculta-lhes trabalhos e tarefas, a fim de que cresçam, aprendam e se libertem de vícios. Não tem favoritos e nem perseguidos, pois todos são irmãos e se encaminham para a mais alta felicidade.

A certeza de que Deus, infinitamente poderoso, sábio, justo e bondoso, rege os destinos humanos com extremo carinho traz paz, esperança e forças para tudo suportar e vencer.

Não é preciso temer o futuro e o destino, pois a vida se encaminha para o mais alto bem, ainda que por vezes de forma pouco compreensível no imediatismo das lutas terrenas.

O relevante é amar o semelhante e instruir-se na compreensão da vida, a fim de ser um agente do progresso que gradualmente se instaura no mundo.

Trata-se da água viva, que propicia a acomodação dos desejos humanos aos propósitos divinos, em um belíssimo processo de pacificação interior.

 

Referências bibliográficas:

1. BÍBLIA. Português. Tradução de João Ferreira de Almeida. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1995.

2. KARDEC, Allan. Tradução de Guillon Ribeiro. A Gênese. 1. ed. especial. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005.

3. KARDEC, Allan. Tradução de Guillon Ribeiro. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 3. ed. especial. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005.

4. KARDEC, Allan. Tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 1. ed. especial. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005.

5. LUIZ, André (Espírito) /Francisco Cândido Xavier. Missionários da Luz. 3. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2010.

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