Jornal Mundo Espírita

Dezembro de 2018 Número 1613 Ano 86

Adaptação x Acomodação

novembro/2018 - Por Cristiane Maria Lenzi Beira

As teorias evolucionistas procuram explicar a forma como os seres evoluíram por meio da adaptação. O biólogo francês Jean-Baptiste Lamarck (séc. XIX), em seus estudos a respeito da evolução das espécies, propôs duas leis que, de alguma forma, demonstram o mecanismo de adaptação em ação:

  • Primeira Lei: Uso e Desuso – órgãos utilizados constantemente tendem a se desenvolver, enquanto órgãos inutilizados podem sofrer atrofia; a necessidade dos seres vivos se adaptarem às condições ambientais ditaria o uso ou desuso de certos órgãos, o que conduziria ao seu desenvolvimento ou à sua atrofia;
  • Segunda Lei: Transmissão dos caracteres adquiridos – as características do uso e desuso seriam herdadas por gerações seguintes, por exemplo: uma girafa precisa esticar o pescoço para alcançar as folhas das árvores, o seu pescoço cresce e os seus descendentes nascem com o pescoço mais comprido. As modificações que se produzem nos indivíduos ao longo da sua vida e que lhes permite uma melhor adaptação ao meio, são hereditárias, passando de geração em geração, originando mudanças morfológicas no conjunto da população1.

Os naturalistas Charles Darwin e Alfred Wallace (séc. XIX) também levaram em consideração o mecanismo de adaptação para explicar a seleção natural2:

  1. se há organismos que se reproduzem e…
  2. se os descendentes herdam as características de seus progenitores e…
  3. se há variação nas características e…
  4. se o ambiente não suporta todos os membros de uma população em crescimento,
  5. então aqueles membros da população com características menos adaptativas (de acordo com o ambiente) morrerão e…
  6. então aqueles membros com características mais adaptativas (de acordo com o ambiente) prosperarão.

Assim, fica clara a observação de que as necessidades encontradas ao conviver no planeta, conduziam os seres a buscarem recursos para se adequarem às condições naturais. A fome, por exemplo, estimulou o Homo habilis à criação dos primeiros utensílios e instrumentos e, consequentemente, ao processo de desenvolvimento cerebral. O frio estimulou à confecção de vestimentas. A necessidade de proteção propiciou a elaboração de abrigos. E assim, os seres, em especial os humanos, ao buscarem melhores condições de vida, acabaram se adaptando à Terra, às leis naturais, à realidade, procurando formas mais fáceis e eficientes de sobrevivência.

A adaptação foi desenvolvida, também, no contexto socioemocional. Diversos instrumentos emocionais, como a negociação, a diplomacia, a flexibilidade, a criatividade, a empatia, dentre outros, têm auxiliado a Humanidade em sua convivência social, respeitando suas necessidades pessoais.

As pessoas que não se dedicam à elaboração de mecanismos de adaptação, sejam sociais ou emocionais, acabam dificultando a própria vida. Os indivíduos flexíveis e criativos, capazes de lidar com divergências e superar obstáculos, estatisticamente são mais felizes e bem sucedidos, além de apresentarem melhor saúde.

Os que são intransigentes, que não se moldam às necessidades, que se mantêm rígidos em seu ponto de vista e seus desejos, geram inúmeras dificuldades para si e para os que com eles convivem.

Joanna de Ângelis, benfeitora espiritual, explica que o processo de adaptação dos seres humanos à sociedade resulta em vários benefícios3:

 Quando cada membro da sociedade procura adaptar-se ao sistema, melhorando-o com a sua contribuição e ampliando o círculo de amizade sincera, modificam-se os quadros de ocorrências negativas, favorecendo o bem-estar possível.

Na área psicológica, também se observa a adaptação ocorrendo e cabe ao ego a função de gerenciador das adaptações necessárias. Para isso ele deve utilizar o recurso do diálogo interno, observando, igualmente, as demandas exteriores. Tais adaptações, no entanto, podem ser mais ou menos eficientes, dependendo da forma como o ego vem se estruturando durante o desenvolvimento da psique do envolvido na situação.

Quando o ego, entendido por Jung4 como o ponto central de referência da consciência, responsável por servir de ponte entre as demandas do mundo de fora, objetivo e material com as do mundo de dentro, do inconsciente, não se estruturou de forma adequada e se encontra fragilizado, é possível que a pessoa não se sinta habilitada aos enfrentamentos naturais, entregando-se ao medo, à falta de fé, não reconhecendo as próprias forças e optando, então, pela fuga (negação). Neste caso, o indivíduo não aceita o convite para a adaptação e pode permanecer em posição de quem espera um salvador que venha empreender a batalha que deveria ser sua.

Outra dificuldade pode ser encontrada quando o ego, em movimento oposto ao que se encontra frágil, assume atitude inflada, acreditando-se superior ao que realmente é e, assim sendo, diante de uma dificuldade não se mostra flexível a ponto de dialogar consigo mesmo e a fim de encontrar uma forma de superar o problema. Mantém-se rígido, não se submete às circunstâncias e complica a adaptação que traria uma possível solução. A pessoa que não aceita se responsabilizar frente a uma crise e que se recusa a se modificar, também não se coloca em condições de aproveitar a oportunidade para progredir.

Somente um ego flexível, com certo grau de diplomacia, aberto o suficiente para analisar a situação, observando a si mesmo e buscando recursos internos para compreender a parte que lhe cabe na geração do problema, além de procurar entender a situação exterior, utilizando a racionalidade para elaborar estratégias de atuação frente ao contratempo, está realmente em condições de empreender o processo que o conduzirá a desenvolver virtudes decorrentes de adaptações adequadas.

As adaptações, então, fazem parte dos mecanismos divinos de progresso e requerem criatividade, esforço e perseverança. Há casos, no entanto, que podem ser descritos como movimentos de adaptação que são, porém, atitudes de acomodação. Em postura de autoengano, algumas vezes inconscientes, aquilo que julgamos flexibilidade de nossa parte nada mais é do que apatia e desistência da luta, acomodando-nos no mais fácil.

Acomodar-se é muito diferente de adaptar-se. Nós nos acomodamos quando, por exemplo:

  • queremos agradar aos outros, sem consultar a própria alma, traindo prioridades ou valores pessoais e violentando-nos no processo;
  • não questionamos o que nos sugerem, em atitude de pensamento crítico, aceitando de forma infantil e invigilante, propostas absurdas;
  • tememos buscar nossos sonhos, lutando pelo que acreditamos, preferindo aceitar o que os modismos valorizam ou o que for mais fácil e com menor risco;
  • colocamo-nos em posturas de vitimização, de crianças mimadas, aguardando um pai que execute as tarefas que nos caberiam ou, por fim, preferimos o caminho mais curto, dos prazeres imediatos, para não gastarmos energia desenvolvendo talentos.

A acomodação gera paralisação e não evolução. Apesar de se vestir com roupas de bondade, quando diz que abre mão de seu próprio interesse para o bem de todos (o que pode ser sincero, mas nem sempre o é); de humildade quando prefere ficar onde está, alegando desapego; de satisfeito, quando afirma que não precisa de nada mais para viver etc.

Diversas foram as personalidades que marcaram a História, tanto em tentativas de conduzir a Humanidade a adaptações necessárias e saudáveis, quanto aquelas que produziram convulsões lamentáveis, alegando estarem promovendo reformas positivas, quando, no entanto, estavam interferindo na vida de milhares de pessoas, simplesmente porque buscavam se acomodar em seus pontos de vista limitados ou em interesses de grupos do qual faziam parte.

Nelson Mandela dedicou-se a uma luta que visava adaptar a mentalidade preconceituosa predominante em seu país a novos modelos de convivência, valorizando a diversidade e respeitando as diferenças. Para promover essa mudança, dispendeu anos de sua vida, ciente de que não poderia compactuar com a acomodação reinante.

Adolph Hitler, por sua vez, alegando ser o portador de uma reforma importante e significativa para o mundo, propôs a eliminação de uma comunidade inteira de seres humanos, sem se dar conta de que tal postura era, em verdade, uma tentativa egoísta e orgulhosa de acomodação, pois que seu plano beneficiava somente seus interesses pessoais e de seu grupo. Entendia, ainda que de forma inconsciente, que era muito mais cômodo mudar os outros do que se adaptar à realidade.

É muito tênue a diferença entre uma postura de adaptação e outra de acomodação. Algumas vezes, pelo ponto de vista de um observador exterior, nem é possível identificar se a atitude analisada refere-se a um modelo de adaptação ou de acomodação. Mas no mundo íntimo de quem vive tal situação, é sempre possível a constatação. Perguntando-se a si mesmo com honestidade, o indivíduo saberá reconhecer se está se adaptando à situação, de forma inteligente, gerando progresso, ou se está apenas se acomodando, evitando lutas e maiores esforços.

Quando o Apóstolo Paulo propõe5: Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, estava nos convidando à adaptação, que requer reforma, transformação, renovação. Ele não propunha submissão, acomodação, em atitude vitimista, mas alertava-nos quanto à necessidade de ampliarmos a consciência com relação à vida, ao mundo, à realidade, de forma a nos transformarmos para convivermos em paz, harmonia e solidariedade. É assim que desenvolveremos as virtudes características dos Espíritos puros.

O Espiritismo, igualmente, convida-nos à reforma íntima, que requer ação e adaptação de nossa parte, mas jamais acomodação. Hahnemann chama a atenção com relação ao uso de desculpismos que costumamos fazer para nos mantermos acomodados na condição em que estamos, fugindo dos embates sacrificantes, porém, libertadores e essenciais para a evolução espiritual6:

Segundo a ideia falsíssima de que lhe não é possível reformar a sua própria natureza, o homem se julga dispensado de empregar esforços para se corrigir dos defeitos em que de boa-vontade se compraz, ou que exigiriam muita perseverança para serem extirpados.

Vigilância, então, para que a acomodação não roube espaço das adaptações que nos conduzem à transformação pessoal e ao progresso espiritual.

 

Referências:

1.https://pt.wikipedia.org/wiki/Lamarquismo.

2.https://pt.wikipedia.org/wiki/Seleção_natural.

3.FRANCO, Divaldo Pereira. Encontro com a paz e a saúde. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 4. ed. Salvador: LEAL, 2014. cap. 7.

4.JUNG, Carl Gustav. Mysterium coniunctionis. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2012. p. 129.

5.BÍBLIA, N. T. Romanos. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais no Brasil, 1988. cap. 12, vers. 2.

6.KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 119. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2002. cap. IX, item 10.

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