Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Abra mão

Cezar Braga Said

outubro/2019

O desapego é um dos grandes desafios que enfrentamos ao longo da vida.

Não é fácil desapegar-se das coisas materiais, das pessoas que nos cercam e das opiniões que cultivamos por tanto tempo. Do mesmo modo nos aprisionamos a convenções, valores e posturas que sentimos estarem ultrapassadas, mas resistimos em abrir mão.

Há quem se apegue a lembranças amargas e lutos sem fim, adoecendo por conta disso. O fato é que quanto maior o apego, maior a intensidade do sofrimento.

É preciso que haja uma mudança em nossa perspectiva de vida, de futuro, da razão de estarmos aqui, para que mudanças se processem em nosso jeito de ser dando-nos mais liberdade.

Dores, tempo, religiões, velhice, perdas, terapia, serviço voluntário, são alguns dos fatores capazes de nos ajudar no processo de desapego.

Muitas vezes precisamos abrir mão não de certos objetivos, mas do modo como os buscamos.

Observe que para respirar não podemos reter indefinidamente o ar, apegar-nos a ele, devemos sim inspirar e expirar a fim de nos mantermos vivos, ou seja, precisamos reter e soltar, realizando o tempo todo as trocas que o universo nos convida a fazer.

Se damos sementes ao solo, ele nos devolve com grãos e frutos.

Se damos afeto, cuidados e instrução a uma criança, via de regra ela devolve tal investimento com atitudes saudáveis e responsáveis, colaborando também para um mundo melhor.

Se damos carinho a um animal, a seu modo, ele nos retribui com presença e proteção.

O desapego foi estimulado por Jesus em seus sermões, curas e diálogos (Mt 6:19). Outros tantos sábios da Antiguidade, que também sabiam o quanto tudo é passageiro, recomendaram o desprendimento como atitude capaz de nos trazer mais paz e menos dor.

Há alguns anos, uma amiga me pediu que a ajudasse a ser mais desapegada, pois percebia o quanto sofria com seus apegos familiares e com lembranças das quais tinha dificuldade em se libertar. Buscando inspiração, ofereci a ela algumas regrinhas:

Decálogo do desapego

  1. Perceba que tudo é passageiro. Tudo, sem exceção.
  2. Viva intensamente o hoje, sem ansiedade exagerada quanto ao futuro e sem lembranças amargas do passado.
  3. Tente não criar grandes expectativas.
  4. Ouça atentamente o que dizem sobre você e para você, mas filtre com equilíbrio as críticas e os elogios.
  5. Liberte-se de tudo o que não tem utilidade e se encontra guardado, trancado, parado, em sua casa e em sua vida.
  6. Valorize cada relacionamento, mas não queira reter ou controlar ninguém.
  7. Mantenha contato com quem nada possua ou quase tudo tenha perdido (saúde, dinheiro, beleza, entes queridos).
  8. Aquiete-se e faça silêncio por dentro a fim de ouvir seu coração, sua intuição, sua alma.
  9. Cultive a fé, independente do rótulo religioso que tenha ou não abraçado.
  10. Encontre prazer nas coisas simples da vida: um sorriso amigo, um raio de sol, uma gota de chuva, um abraço rico de ternura, uma paisagem.

Seja mais livre, desapegue-se!

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