Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87
Trabalhadores do Bem Envie para um amigo Imprimir

Abibe Isfer – O Homem de Bem

novembro/2012 - Por Nancy Westphalen Corrêa

Possuído do sentimento de caridade e de amor ao próximo, faz o bem pelo bem,
sem esperar paga alguma; retribui o mal com o bem, toma a defesa do fraco contra o forte,
e sacrifica sempre seus interesses à justiça.
O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XVII, item 3.

Nasceu no Rio de Janeiro, em 10 de fevereiro de 1896, sendo seus pais Antonio Isfer e Shaid (Rosa) Isfer. Quando criança, a família se transferiu para Curitiba e depois para o Interior de São Paulo, quando mandaram o pequeno Abibe para Rio Negro-PR, onde fez seus estudos.

Com vinte anos, servindo o exército em Curitiba, casou com Ana Elvira Moletta, de cuja união teve sete filhos, sendo que uma menina desencarnou ainda criança.

Dona Elvira, assim a chamavam, em visita às suas amigas, no bairro Portão, onde moravam, foi levada a compartilhar da sessão do copo (até hoje, atração para adolescentes curiosos).

Retornando ao lar, com entusiasmo, contou ao seu marido, que ficou curioso e desconfiado.

Amigo do Professor Sebastião Paraná, espírita convicto, esse explicou ao jovem Abibe como se dava o fenômeno e o convidou para conhecer a Doutrina Espírita. Interessado, logo o encontramos trabalhando no campo mediúnico e de assistência aos necessitados, na Federação Espírita do Paraná – FEP.

Em 1930, já era integrante do Conselho da FEP.

Em 3 de dezembro de 1936, desencarna a sua querida Elvira (assim se referia ele quando a citava em suas preces), ficando ele responsável para cuidar de seus seis filhos. A mais velha, Leony, com dezoito anos, logo veio a casar-se com Geraldo Dallegrave.

O filho mais moço, Lício, tinha três anos e os outros quatro tinham entre cinco e dezesseis anos. Com exceção de um, os demais se formaram pela Universidade Federal do Paraná. Criou os filhos no mais rígido princípio de moral cristã e todos dentro da Doutrina Espírita. Leony seguiu o marido, avesso ao Espiritismo, mas sempre respeitou a religião do pai.

A atuação de Seu Abibe, como era chamado, junto à FEP durou mais de cinquenta anos. Foi Vice-Presidente durante quarenta anos, colaborando com seu incansável amigo João Ghignone, pelo mesmo período Presidente da FEP.

Com a desencarnação de João Ghignone, Abibe passou a presidir a Casa Máter do Espiritismo no Paraná (1978-1981). Já idoso e adoentado, passa a Presidente Honorário, ao lado do seu grande amigo Arthur Lins de Vasconcellos Lopes, com quem muito trabalhou para a Unificação, tendo o Paraná bastante contribuído para a realização do sonho de grandes espíritas brasileiros.

Colaborou, efetivamente, para a criação da Creche Bezerra de Menezes (Alameda Cabral), Mariinha (Campo Largo) e Josefina Rocha (Bacacheri), Associação Protetora do Recém-nascido, Caixa de Assistência ao tuberculoso pobre e família, Instituto Lins de Vasconcellos, entre outros, e atendia também ao Albergue Noturno e Lar Icléa, que foi criado para abrigar meninas desamparadas. Seu Abibe dedicava todo seu amor de pai àquelas filhas do coração. Preocupava-se, não só em mantê-las bem alimentadas e vestidas, como acompanhava também seus estudos e atividades culturais.

Diariamente, dirigia-se ao Lar para verificar as suas necessidades e aos sábados, no final da tarde encontrávamos Seu Abibe junto às meninas, que o chamavam carinhosamente de paizinho, escutando algumas tocando piano, que estudavam com a professora Elisa Greca (era muito benevolente) e outras cantando músicas ensaiadas por Maura Garcia Barcellos.

Em Curitiba, havia um belo cinema na Avenida João Pessoa (atual Avenida Luiz Xavier), o Cine Ópera, onde tinha matinada às 10h. Ele levava as meninas do Lar Icléa e seus filhos levavam até a porta seus netos. Conduzia a criançada ao cinema e dividia, fraternalmente, entre todos drops (pastilhas doces). Caso sobrassem algumas ao final da divisão, eram dadas às meninas do Lar, para grande tristeza dos netos.

Valfrido Piloto, membro da Academia Paranaense de Letras, escreveu: Abibe Isfer, o médium da caridade. Por quê? Porque Abibe Isfer dedicou a maior parte de sua vida ao auxílio dos necessitados – encarnados e desencarnados.

Levantava muito cedo e, a partir das 7h30 já estava atendendo em seu chalé, situado na Avenida Getúlio Vargas, transmitindo passes, ouvindo as dores alheias – nunca se negou a ouvir – e o receituário. Às 9h, estava trabalhando – era securitário – voltando para casa almoçava, cochilava um pouco e voltava a atender as pessoas, que o esperavam na pequena varanda da casa. Retornava ao trabalho, passava no Lar Icléa para ver se nada faltava. Jantava e ia para a Federação para o exercício da mediunidade com Jesus.

Às segundas e quartas  eram os trabalhos de desobsessão – para atender os necessitados do então Hospital Bom Retiro, Hospital Espírita de Marília-SP e demais necessitados que fossem trazidos pelos Espíritos socorristas.

Nunca se referiu aos nossos irmãos ignorantes como obsessores, somente como nossos irmãos menos felizes. Sua moral impedia que qualquer obsessor na assistência (esse trabalho era aberto ao público) viesse perturbar a reunião.  Meu irmão, temos médium para atendê-lo aqui na mesa, não perturbe a reunião, dizia Abibe. Bastava para, quando raramente isso acontecia, a ordem voltar ao recinto.

Depois do trabalho mediúnico, ia para a sala de passes, geralmente lotada. Terminada a transmissão de passes, passava ao atendimento fraterno e ao receituário.

Por muitos anos a FEP, no velho casarão, hoje Sede Histórica, mantinha uma farmácia homeopática que atendia de graça à manipulação indicada nas receitas. Mantinha no jardim um pequeno canteiro com ervas medicinais para emergências.

Terça era a noite das irradiações. Abibe Isfer, João Ghignone, Elvira Marquesini Vaz, Natálio Santos e outros colaboradores reuniam-se na biblioteca para o atendimento aos necessitados pela prece à distância.

Quinta era o dia do passe coletivo. Um grupo de médiuns: Flórida Lorenci, Maura Barcellos e outros transmitiam os passes sob orientação de Seu Abibe. Após, receituário e atendimento fraterno.

Sexta era o trabalho mediúnico – fechado ao público, sempre dedicado aos obsessores e obsidiados.

Sábado era o dia de passe para as crianças, a partir das 15h. O paizinho atendia adultos e crianças com a fila organizada por José Júlio Soares Vaz Filho e, como era habitual, fazia o receituário e demais atendimentos. Terminado o atendimento, ia até a caixa de correio ver as solicitações de receitas vindas do Interior e de outros Estados. Depois da missão cumprida, dirigia-se ao Albergue Noturno, à época na Alameda Cabral, para tomar um bom café e de lá seguia para o Hospital Bom Retiro transmitir passes. Depois para o Lar Icléa, onde usufruía do carinho das meninas e retornava feliz para casa descansar… se não  houvessem pessoas esperando para um atendimento…

Durante a semana era comum, depois da saída da FEP, ir atender doentes em casa, fosse no Batel ou em bairros mais afastados. Algumas vezes, aos sábados, no final da tarde, o acompanhei para atendimento em favelas. Quando ia atender os necessitados pela segunda vez, levava remédios.

Viajava para o Interior em missão de divulgação da Doutrina Espírita com a comitiva da FEP e, quando chegava às Casas Espíritas, já havia filas de pessoas esperando.

Atendia a todos com respeito e carinho. Nunca disse: Fui à casa de Fulano ou Beltrano transmitir passes, nem que havia salvado alguém… Médicos o procuravam para atendimento e o diretor clínico do Hospital Bom Retiro, que se dizia ateu, mandava sua nora levar seus netos para tomar passes.

Não falava mal de quem quer que fosse e nunca se queixou. Eu, quando ainda não o conhecia melhor, às vezes me queixava e ele me dizia: Minha filha, veja que você tem muito mais coisas boas do que aborrecimentos e conhecimento do Evangelho que lhe dá formas de administrar essa dor e, juntos, orávamos.

Convivi vinte e oito anos com ele, encontrando-o geralmente três a quatro vezes por semana.

Emocionava-se com facilidade, choramos juntos muitas vezes.

Dois netos desencarnaram em acidentes e um recém-nascido. Nunca comentou. Sofria em silêncio. Várias vezes foi atacado como espírita, dentro da própria Federação.

Posso dizer que conheci um homem que retratava o homem de bem citado no cap. XVII, item 3 de O Evangelho segundo o Espiritismo. O grande cristão, que amou o próximo mais do que a si mesmo, que distribuiu consolo e alegrias e que correspondeu ao homem que representou, por muitos anos, em Curitiba, o homem espírita.

 

Assine a versão impressa
Leia também