Jornal Mundo Espírita

Abril de 2021 Número 1641 Ano 89

A voz dos que não vivem na Terra

março/2021

Em qualquer época da História, encontramos registro de pessoas notáveis, que marcaram sua passagem com grandes feitos, nas diversas áreas do pensamento humano, e induziram à evolução intelecto-moral da Humanidade.

Como cada passo à frente vencerá distâncias, ideias inovadoras alargarão, paulatinamente, os horizontes, para a visão dos homens, que despertarão o olhar à sua volta ou para dentro de si mesmos.

A sucessão de passos e de caminhantes levará o progresso para além do tempo e espaço.

Onde vem um e para, outro surge e segue adiante!

Nem sempre a ideia nova chega com abrangência universal.

Nasce acanhada, circunscrita, com poucos dela se inteirando, mas, como o fermento que leveda a massa, se expande, rompe fronteiras, barreiras, preconceitos, perseguições, se manifesta e se consolida.

Como toda mudança gera resistências, há casos de muitos que se deram em holocausto para que a ideia nova prosperasse até se manifestar no mundo e se consolidar pelas mãos de outros abnegados.

A História das religiões é uma sucessão de martírios.

Essa realidade é tão marcante que Jesus chegou a registrá-la como desprestígio dos homens: Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados!1

E ainda: Ai de vós que edificais os sepulcros dos profetas, e vossos pais os mataram.2
Antes de Jesus, tanto quanto com Ele mesmo, e depois dEle, os casos de perseguições, agressões e mortes se sucedem, não só na linha do tempo do Cristianismo.

No entanto, mesmo sob o açoite da violência e crueldade, ninguém segura o avanço das religiões, do progresso geral e das novas ideias que formam o caminho da religação do homem com Deus.

O Sublime Amigo que disse: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou,3 também falou, olhando a eternidade: Quantas vezes Eu quis reunir os teus filhos, como a galinha acolhe os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas  não o aceitastes.4

Jesus não desiste da Humanidade e insistentemente, se apresenta novamente, agora pelas letras do Espiritismo: Venho, como outrora aos transviados filhos de Israel, trazer-vos a verdade e dissipar as trevas. Escutai-me. O Espiritismo, como o fez antigamente a minha palavra, tem de lembrar aos incrédulos que acima deles reina a imutável verdade: o Deus bom, o Deus grande, que faz germinem as plantas e se levantem as ondas. Revelei a doutrina divinal. Como um ceifeiro, reuni em feixes o bem esparso no seio da Humanidade e disse: “Vinde a mim, todos vós que sofreis”.5

Ele se faz acompanhar das vozes dos que já não vivem na Terra, para fazer valer o que foi Seu prenúncio: Digo-vos: se estes se calarem, clamarão as pedras!6

Por ser pedra, nesse escrito, o símbolo dos túmulos de então, que eram cavados na rocha, se deve entender a afirmativa como: Se vos calardes, os mortos falarão.

E os mortos, sempre vivos, retornaram, para reunir, sob as luzes da Nova Revelação, os filhos da Jerusalém de todos os tempos.

O grande chamado foi dado a 18 de abril de 1857, em Paris, França, com a apresentação de O Livro dos Espíritos, ditado pelas vozes dos que já não vivem na Terra, sob a direção do sublime Espírito Verdade, escritos devidamente compilados e organizados por Allan Kardec.

Nascia o Espiritismo.

Longo o caminho até então, mas, como dito por Kardec: As grandes ideias jamais irrompem de súbito. As que assentam sobre a verdade sempre têm precursores que lhes preparam parcialmente os caminhos.7

E prossegue: Mas, não basta lançar uma ideia ao mundo para que ela crie raízes; não, certamente. Não se criam à vontade opiniões ou hábitos. Dá-se o mesmo com as invenções e as descobertas: a mais útil fracassa se vem antes do tempo ou se a necessidade que está destinada a satisfazer ainda não existe. E assim com as doutrinas filosóficas, políticas, religiosas ou sociais; é preciso que os espíritos estejam amadurecidos para as aceitar; vindas muito cedo, ficam em estado latente e, como frutos plantados fora da estação, não se desenvolvem.

Se, pois, o Espiritismo encontra tão numerosas simpatias, é que seu tempo é chegado; é que os espíritos estavam maduros para o receber; é que responde a uma necessidade, a uma aspiração.8

Passados 164 anos, o brado ainda ressoa e se espalha por toda a Terra.

Muitos ouviram, se achegaram e colocam-se sob a égide da Doutrina da Esperança.

Oportuno relembrar: Enquanto ainda é tempo, revesti-vos, pois, da túnica branca: sufocai todas as discórdias, pois que as discórdias pertencem ao reino do mal, que vai ter fim. Que vos possais confundir todos numa mesma família e vos dar, do fundo do coração e sem pensamento premeditado, o nome de irmãos.9

 

Referências:

1 BÍBLIA, N. T. Lucas. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 13, vers. 34.

2 Op. cit. cap. 11, vers. 47.

3 Op. cit. João. cap. 8, vers. 58.

4 Op. cit. Lucas. cap. 13, vers. 34.

5 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. VI, item 5.

6 BÍBLIA, N. T. Lucas. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 19, vers. 40.

7 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2001. Introdução, item IV.

8 KARDEC, Allan. Viagem espírita em 1862: e outras viagens de Kardec. Rio de Janeiro: FEB, 2005. Discursos pronunciados nas reuniões gerais dos espíritas de Lyon e Bordeaux, item II.

9 Op. cit. item III.

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