Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2019 Número 1621 Ano 87

A visão daqueles que se recusam a ver…

dezembro/2014 - Por Clayton Reis

Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara. Saramago, Ensaios sobre a cegueira.

Cada um de nós é como um homem que vê as coisas em um sonho e acredita conhecê-las
perfeitamente, e então desperta para descobrir que não sabe nada.
Platão, Político.

A principal missão do homem em sua vida é dar à luz a si mesmo, é tornar-se aquilo que ele é
potencialmente. O produto mais importante de seu labor é a sua própria personalidade.

Erich Fromm, Análise do Homem.

 

A visão representa um dom, dentre outros múltiplos, que Deus conferiu às criaturas para se locomoverem na superfície e na atmosfera do planeta. É um dos mais importantes meios de comunicação, bem como, de integração com o ambiente em que vivem os seres dotados de olhos. É o farol que guia a direção dessas espécies vivas, quando se deslocam na trajetória dos caminhos que percorrem. Além dessas habilidades visuais mecânicas, ela transfere para o espírito humano e aos demais seres, as mais diferenciadas emoções que são captadas através dos olhos. Todavia, àqueles que estão desprovidos desse dom, o Criador subtraiu um dos sentidos de interação entre meio ambiente e demais organismos que se deslocam no espaço físico. Nesse caso, a criatura permanece parcialmente isolada em virtude da sua incapacidade para VER. A ausência de visão, particularmente para o ser humano, representa um prova existencial difícil em razão dos graves efeitos que ela produz. Todos os organismos vivos que se locomovem na superfície do planeta se comunicam através da linguagem da visão. Os seres vivos, de um modo em geral, se comunicam através dos olhos.

O magnetismo do olhar das criaturas humanas sempre foi marcante na identidade do seu titular. Mas, se estamos falando da ausência da visão dos cegos, pretendemos, particularmente, destacar outro tipo de cegueira que considero a pior delas – daqueles que têm olhos perfeitos e se recusam a ver! Cristo já profetizara que: O pior cego é aquele que não vê. (João 9).

Otto Lara Resende, em crônica, de sua autoria, denominada VISTA CANSADA, referiu-se àqueles que têm olhos e não veem. Nessa crônica ele diz: O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não vendo. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. O seu olhar cansado é o olhar daqueles que vulgarizam a maneira de ver as pessoas e coisas. E, dessa forma, embora tenham olhos – nada veem! Essa, certamente, é a mais grave das cegueiras, a daqueles quem têm a visão física normal e, no entanto, recusam-se a ver. Nesse sentido, Amélia Rodrigues[1] diz: O cego dos olhos pode imaginar e conceber na mente, mas o cego do espírito nega-se a pensar, sequer, na remota possibilidade de algo existir ou acontecer, conforme se narrava. O primeiro, às vezes, nega porque não visualiza, mas o outro não pretende enxergar, nega-se a ver.

Nossa vida existencial no plano da matéria não se resume apenas e tão somente em nascer, viver e morrer.  O ser humano será um mero tubo digestivo se pensar dessa forma. Depois que nasce, proclama Erich Fromm[2]: O homem só pode ir adiante desenvolvendo sua razão, encontrando uma nova harmonia, uma harmonia humana agora, em vez da harmonia pré-humana irremediavelmente perdida.  Uma nova forma de vida que ele descobre através da sua visão sensitiva, racional e investigativa. Refiro-me ao momento em que, de acordo com a lógica Cartesiana o ser começa a refletir sobre sua existência: Cogito ergo sum – Penso, logo existo. É nesse momento significativo em que o ser pensante indaga a si mesmo: de onde vim, o que sou e para onde vou? Diante dessa realidade da existência, ele abre os olhos do Espírito a fim de despertar para a realidade de tudo aquilo que transcende a matéria. Mas, não basta apenas ver! O mais importante é se preparar para ver o que a maioria não vê – ver especialmente aquilo que não conhecemos a fim de que possamos dimensionar os limites do nosso saber, e iniciar a descoberta das múltiplas dimensões que recusamos a ver. Nesse caso, o Espírito Amélia Rodrigues[3]assinala: O mundo está repleto de cegos do espírito, aqueles que apalpam e apertam coisas, que abarcam as posses, que se comprazem com o vinho do prazer espúrio que lhes corre nas veias e artérias do sentimento…

Em determinada ocasião convidei uma pessoa para ir ao Centro Espírita para receber as energias fluídicas do passe e conhecer uma filosofia cristã. A resposta foi imediata: Por que ir a um local em que não acredito? Ao que respondi: E, como pode não acreditar naquilo que não conhece? Arhur Conan Doyle, o famoso médico britânico, criador de Sherlock Holmes, era agnóstico. Todavia, depois que passou a conhecer a lógica irrefutável da doutrina de Allan Kardec, tornou-se um dos mais respeitáveis defensores do Espiritismo na Inglaterra. A visão daqueles que não querem ou se recusam ver, em razão de convicções pessoais que nem sempre são lógicas e verdadeiras, identifica a pior das cegueiras. Isso porque, os que recusam a ver não se encontram preparados para as novas realidades que não conhecem e fazem questão de não saber. Afinal, como poderemos entender o que não conhecemos? A chave dessa resposta é o esclarecimento! Por essa razão Imannuel Kant elucida o que é o esclarecimento. Nesse sentido, escreveu: Esclarecimento é a saída do homem de sua autoimposta menoridade. Menoridade é a incapacidade de se servir de seu entendimento sem a direção de um outro.4 Para ele, a ideia do esclarecimento é a da autoemancipação pelo conhecimento.

Assim, aqueles que têm a visão para novos saberes possuem entendimento dos limites do seu conhecimento. Sabem que a verdade de hoje poderá ser distinta daquela que advirá, desde que analisada sob novos pontos de vista, bem como, diante de fatos notórios que desvendam realidades diferentes. Todas refletem uma visão aberta para mudanças. Hannah Arendt5 indaga: Onde estamos quando pensamos? Para o que nos retiramos, quando nos retiramos do mundo das aparências, interrompemos todas as atividades habituais e iniciamos aquilo a que Parmênides, no começo da tradição filosófica, nos encorajou enfaticamente: olha para aquilo que, embora ausente (para os sentidos), está tão firmemente presente em nosso espírito.  Assim, o homem deve estar preparado para mudar, bem como, possuir a coragem para substituir sua realidade vivencial diante das novas verdades que venham a ser captadas e desvendadas pela visão dos que veem. Afinal, somos prisioneiros dos limitados sentidos presentes nos olhos físicos, diante de um mundo inexplorado no campo das experiências pós-morte, bem como, das realidades multidimensionais presentes no Universo. Nessa linha de intelecção Erich Fromm6 proclama: A maioria das pessoas não está nem sequer consciente da sua necessidade de se conformar. Vivem na ilusão de que seguem suas próprias ideias e inclinações, de que são individualistas, de que chegaram às opiniões como resultado de seus próprios pensamentos – e que só por acaso suas ideias são as mesmas que as da maioria.

Allan Kardec, ao estudar a fenomenologia das manifestações espíritas, realizou profunda investigação científica, distanciou-se dos dogmas e do conhecimento vulgar para enfrentar a lógica das novas realidades existenciais. Desvendou perante os olhos atônitos do mundo materialista a evidência da sobrevivência do Espírito após a falência do corpo físico. O olhar dos cegos reside exatamente na convicção do fato de que tudo aquilo que se contrapõe à verdade de cada um, não é verdade! Recusam-se conhecer a nova realidade, o que significa abandonar a sua própria verdade e reformular o equívoco que ela apresenta. O fato científico demonstrou aos doutores da lei, no período medieval, o equívoco da teoria do geocentrismo dogmatizada pela miopia do segmento religioso, para aceitar a evidência lógica da teoria do heliocentrismo defendida por Galileu que, não obstante, foi obrigado a abjurar a veracidade das suas teorias.

O mundo das ideias dogmáticas é o mundo da escuridão em que se encontra mergulhada uma parte significativa da sociedade humana. Ele é consequência do atraso espiritual da pessoa no curso de milênios. Esse período de exacerbado materialismo ocultou a visão da realidade da vida espiritual. Manteve-a eclipsada durante esse lapso temporal. E, diante dessa realidade, não foi possível libertar o homem dos grilhões da ignorância. A visão distorcida da espiritualidade do homem no translado da História  o manteve prisioneiro das ideias pré-concebidas, heranças de um passado gerado no ambiente de ignorância científica predominante, que perdura por milênios. E, por essa razão Cristo prognosticou que: Conhecereis a verdade e a verdade vós libertará. (João 8:32) Somente através do desvendamento dos programas existenciais estaremos preparados para descortinar os mistérios que envolvem o ser humano, abrindo-lhes a mente e o coração para um novo programa vivencial. Nessa linha de ideias, Teilhard de Chardin7 proclama que: Na verdade, duvido que haja para o ser pensante instante mais decisivo do que aquele em que, caindo-lhe as escamas dos olhos, ele descobre que não é um elemento perdido nas solitudes cósmicas, mas que é uma universal vontade de viver que nele converge e se hominiza.

A cortina que separa o ser humano vivo do morto decorre da nossa ignorância diante da fenomenologia evidencial que se apresenta e que relutamos em conhecer. Isso porque implica em desmistificar os dogmas que nos mantêm prisioneiros de crenças distantes da lógica, da razão e da ciência. E, perante a inexorável realidade, adiamos nosso programa de reformas íntimas adaptadas à realidade espiritual que se descortina após nossa morte física. Por sua vez, em decorrência desse atraso espiritual, essa realidade interfere nas necessárias mudanças que a sociedade necessita conhecer para alterar seus rumos, sob pena de falência das instituições e, particularmente, do ser humano nesse significativo momento de transição planetária. Allan Kardec8, na conclusão de O livro dos Espíritos enfatiza: Longe de se opor à difusão da luz, ele a deseja para todos; não reclama uma crença cega, mas quer que se saiba por que se crê, e como se apoia na razão será sempre mais forte do que as doutrinas que se apoiam sobre o nada.

Afinal, as reformas somente serão importantes se forem realizadas para alterar as causas e não os efeitos, que são consequências daquelas. Para essa tarefa, é preciso que o olhar dos que se recusam a ver esteja voltado para a nova realidade espiritual, posto que será a causa determinante do nosso poder de compreensão dos fatos que justifica nossa existência no plano material em face da doutrina do Cristo.

 

 

Bibliografia:

1.FRANCO, Divaldo Pereira. A Mensagem do Amor Imortal. Pelo Espírito Amélia Rodrigues. Salvador: LEAL, 2008. p. 123.

2.FROMM, Erich. A arte de amar. São Paulo: Martins Fonte, 2006. p. 9.

3.FRANCO, Divaldo Pereira. Op. cit. p. 123.

4.POPPER, Karl R. Em busca de um mundo melhor. São Paulo: Martins Fontes, 2006. p. 173.

5.ARENDT, Hannah. A Vida do Espírito. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. p. 271.

6.FROMM, Erich. Op. cit. p. 17.

7.CHARDIN, Teilhard. O fenômeno humano. São Paulo: Cultrix, 1955. p. 28.

8.KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. São Paulo: Edigraf, 1966. p. 419.

 

 

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