Jornal Mundo Espírita

Julho de 2019 Número 1620 Ano 87

A violência nossa de cada dia

O mundo carece de harmonia e não de violência; de paz e não de guerra.

outubro/2014 - Por Rogério Coelho

(…) Jesus postou-Se  terminantemente  em oposição à violência,  ensinando  que  ela  não  ficará   impune nas esferas em que a alma respira, nos passos da sua evolução. Camilo[1]

Parecia o retorno dos gladiadores dos circos de Roma!… O que era para ser mera diversão transformou-se em cenas de selvageria jamais vista nem mesmo no mundo animal: ferir por ferir… Até mesmo os patrocinadores se horrorizaram e fecharam a torneira dos milhões de reais!

Na Turquia, as autoridades tomaram uma atitude sui generis para contrapor as ondas de violência das torcidas nos estádios de futebol: proibir a entrada de homens e só admitir a entrada de mulheres e crianças…

Mas a violência explode infrene como se fosse uma praga espalhando os miasmas pestilenciais por toda a Terra! E, nos tumultuados dias hodiernos, ela deixou de ser apanágio dos adultos, vez que as crianças, recebendo com a mamadeira a visão dos quadros de desequilíbrio através das mídias, bebem, com o leite, as informações deletérias de mentes apodrecidas. A violência está presente até nos desenhos animados. Assim os pequenos e futuros rambos vão assimilando em seus psiquismos esses ingredientes sórdidos, cujo corolário é a explosão da violência de variegado matiz nos proscênios sociais… Os noticiários surpreendem-nos dia a dia com as informações desses despautérios, num interminável desfile de horrores…

Os Espíritos Superiores não ficam insensíveis ante esses quadros desoladores e, vez por outra, enviam-nos, à guisa de orientações e estímulos as suas palavras esclarecedoras. Assim, temos uma belíssima e oportuna página de Camilo1, o guia Espiritual do médium fluminense Raul Teixeira, na qual o Benfeitor Espiritual tece, com os fios de sua sensibilidade, preciosas ilações sobre essas candentes questões do nosso cotidiano com o sugestivo título2:

Jesus ante o temor da violência

Reforçada por uma cruel propaganda massiva,  a violência vai ganhando espaço no mundo psicológico das pessoas, passando a envenenar suas expressões emocionais, impondo-lhes temores que, no passar do tempo, se vão convertendo em francos processos neuróticos.

As mídias vão infestando de pavor as grandes quanto as pequenas cidades, aterrando homens e mulheres de procedências sociais diversas, uma vez que a hidra da violência não escolhe as suas presas, vergastando com seu látego covarde o dorso de toda a Humanidade.

São tempos difíceis e definidores, esses tempos atuais. São oportunidades para que as almas encarnadas na Terra possa escolher de que lado anelam ficar, se na luz, se nas sombras; se anseiam pelos altos cimos espirituais, ainda que com esforços inauditos, ou se preferem a aridez dos apetites baixos que infernizam os indivíduos de má vontade.

Em todo lugar onde se instalaram os quartéis-generais da violência, em guetos de sordidez, perante o comodismo e mesmo a complacência de autoridades constituídas para proteger as populações, e diante da inépcia dos processos educacionais de má qualidade, não são

poucos os que se armam de diversas formas, a fim, dizem,  de protegerem-se e proteger seus familiares e pertences.

Imprevidente iniciativa essa, a de armar-se o indivíduo, objetivando defender-se, pois, para defender-se com qualquer arma, terá que investir contra outra pessoa, realizando a  justiça que não lhe cabe efetuar.

(…)

Disse o Celeste Amigo que não deveríamos temer os que podem matar o corpo, mas que nada podem fazer contra a alma.3(…)

Não se trata de prestar culto ao holocausto, nem de promover um estado coletivo de masoquismo religioso, para demonstrar desapego ao corpo.  Não, não se trata disso.  A questão é mais profunda; é mais séria.

(…)

Nessas considerações sobre o temor da violência, vale, ainda, recordar outro ensinamento do Homem de Nazaré, ao dizer4: “Aquele que quiser ganhar a vida, perdê-la-á, e o que a perder, por amor de mim, ganhá-la-á”(…).

Essa dificuldade de entendimento das pessoas, com respeito ao  “querer ganhar a vida” e quanto ao  “perdê-la”, deve-se ao compreensível instinto de conservação que faz com que ninguém queira se desfazer do corpo, ainda que esteja enfrentando problemas graves ou situações complexas, salvo nos casos de descompensação psicológica profunda ou de alguma anomalia psiquiátrica.

Desejam  “ganhar”  suas vidas, na acepção do Evangelho de Jesus, os que não trepidam em destruir as dos outros, para preservar a própria. Após o esfriamento da mente, quando o criminoso homicida se der conta do que promoveu com o seu gesto insano, as perturbações do remorso passarão a acompanhá-lo, como a “voz da consciência” a imputar-lhe culpa.

(…)

É por isso que quem quiser ganhá-la, “perdê-la-á”.  Sim, porque  perde-se a alegria de viver,  as motivações para uma existência sóbria e bela desaparecem, pois a sombra da culpa acompanhará o desditoso réu, à semelhança da  “voz da consciência” que cobrava de Caim o haver morto seu irmão (…).

(…)

Quando queremos penetrar o sentido do ensinamento do Cristo a respeito do ganhar e do perder a vida, faz-se importante tomar outro ângulo para percebermos que serão felizes os que estejam “ganhando” espiritualmente as próprias existências, convertendo-as em vida, pelas realizações fecundas, pelo crescimento que imprimam às próprias ações, pela fidelidade com que sirvam a Deus, em cada gesto que os caracterize pelo mundo. Esses serão bem-aventurados, recolhendo das Fontes Celestiais, em forma de bênçãos  de saúde íntima, de equilíbrio geral e de paz, a vida abundante que souberam buscar, ao longo dos seus dias na escola terrena.

Quanto aos que venham a perder as suas vidas, e, aqui, nos referimos tão-somente aos que levam a vida com nobreza, realizando seus deveres, na marcha e nas lutas naturais na busca do Criador, sendo golpeados pelas explosões de violências, caso não se percam na revolta e no desejo enlouquecido de vindita, avançam para a Grande Luz, deixando para trás as necessárias e duras experiências num mundo expiatório.

(…)

À frente das ações e modos violentos das criaturas do Seu tempo, o Mestre Jesus jamais deixou de chamar a atenção dos Discípulos para a sua inconveniência.

O exemplo do Rabi é de molde a incutir em cada um de nós, que fazemos parte do Seu rebanho de almas, as noções de que o mundo carece de harmonia e não de violência; de alegria e não de desolação; de paz e não de guerra.

Frente às mídias que se locupletam com as notícias violentas, que “vendem”, tanto quanto infelicitam, a criatura com mente arejada pelos ensinos do Espiritismo, que a todo tempo confirmam os de Jesus, aprenderá a trabalhar os valores da alma, a atuar de modo consciente e digno na vida terrena, sem se deixar arrastar, nem arrasar, pelos impulsos da violência, que degeneram, que ferem, que matam.

Dia chegará em que, amadurecidos, os homens se unirão como irmãos verdadeiros, encontrando a violência somente nos compêndios, nas enciclopédias de história, que revelarão um tempo tormentoso vivido pela Humanidade, e que, então, estará bem distante do mundo venturoso da Nova Era.                                                                                                                  

___________________________

[1] – TEIXEIRA, Raul. Justiça e Amor. Niterói: Fráter, 1996, cap. VI, item 3. (in fine).

2 – TEIXEIRA, Raul. Justiça e Amor. Niterói: Fráter, 1996, cap. VI, item 4.

3 – Mateus, 10:28.

4 – Mateus, 16:25.

 

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