Jornal Mundo Espírita

Outubro de 2020 Número 1635 Ano 88

A Unidade Perfeita

março/2020

Unificação nasce na igualdade de intenções pelos mesmos resultados e não em formalidades operacionais. Em torno desse ideal se unem as várias diferenças de locais, pessoas, organizações, fazendo-se uma só pela união em torno dos mesmos objetivos, como num feixe de varas.

A semente está dentro da castanheira e dentro da semente estão as flores, as castanhas, e a sombra da árvore.

Desejamos as castanhas. Para realizarmos esse desejo, precisamos, além da semente, juntar apropriadamente o solo, o clima, a água, de modo a que a semente possa germinar e crescer, formando, nesse processo, a unidade perfeita.

A mensagem do Cristo é a semente que pede a união de todos os elementos (corações) que lhe sejam apropriados à germinação, crescimento, floração e frutificação, que se façam um, que doem de suas forças, que se unifiquem em benefício da chegada do fruto.

A natureza nos demonstra que não basta colocar lado a lado os elementos para que a ensementação vingue. É preciso a integração de cada elemento com os demais, dispondo de todas as suas forças. O solo abrigará a semente e acomodará em seu seio suas raízes, ajudará no rompimento da própria semente, suportará o peso da árvore, mas conta com o clima, com a água, com os nutrientes não só de si mesmo, mas de tudo o que o entorno possa ofertar-lhe como adubação e riqueza de propriedades. E mais, juntos deverão produzir constantemente a seiva que alimentará a árvore.

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Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste1, é a voz do Sublime Cantor da Boa Nova enaltecendo a Unidade tão esperada, pelo que Ele veio pessoalmente trabalhar os corações humanos.

Eu neles, e tu em mim, para que eles sejam perfeitos em unidade, e para que o mundo conheça que tu me enviaste a mim, e que os tens amado a eles como me tens amado a mim2, assim continuou Jesus configurando a excelência da Unidade que deverá se dar, logo mais, num tempo que chegará para cada um de nós.

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Há vários caminhos até a montanha, todos levando para o mesmo lugar, de modo que não importa o caminho que você vai tomar. O único perdendo tempo é aquele que corre ao redor da montanha, apontando a todos que o caminho deste ou desta pessoa é errado, ensina o Provérbio hindu.

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Allan Kardec, o Codificador, assinalou3: O Espiritismo, (…) assenta suas bases no próprio Cristianismo; sobre o Evangelho, do qual é simples aplicação.

Cabe-nos conhecermos, vivenciarmos e veicularmos a mensagem espírita, de modo a que a alma sofrida do povo, dentre as quais nos encontramos, beneficie-se também com o esplendente conteúdo do Espiritismo, com o consolo, com a orientação segura sobre a vida e bem viver, revigorando as esperanças e consolidando a certeza de que Deus é Justo e Bom, e nos ama incondicionalmente sem qualquer distinção.

Sobre os seguros pilares dos ensinos e feitos de Jesus Cristo, fincados por Ele próprio no solo ainda ressequido dos corações humanos – dentre esses o mais fundo que penetrou na consciência de cada um, foi a estaca do madeiro infamante, cuja cruz simboliza a renúncia plena por amor a Deus e ao próximo, e o perdão à ignorância de nós todos, por não sabermos o que fazíamos (ou que ainda fazemos) -, construiu-se a Doutrina Espírita, com o fim de revivenciar as bases simples da Sua Mensagem de Luz.

Quem tem um “porquê” enfrenta qualquer “como”, diz-nos Viktor Frankl.

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Nós temos o porquê da Unificação.

Apontou Allan Kardec4: Três períodos distintos apresenta o desenvolvimento dessas ideias (Espiritismo): primeiro, o da curiosidade, que a singularidade dos fenômenos produzidos desperta; segundo, o do raciocínio e da filosofia; terceiro, o da aplicação e das consequências.

Unidos e operosos somos força. Juntos podemos sempre mais. Assim, enfrentemos o como fazer, com destemor. Coloquemo-nos em ação aplicando os conhecimentos superiores que nos são disponibilizados com a Mensagem dos Imortais.

Mais do que nunca estamos sendo convidados a um trabalho positivo de construção da nova humanidade. Que as nossas atitudes não venham comprometer o programa superior, que no momento repousa em nossas débeis e agitadas mãos 5, enfatizou Lins de Vasconcellos.

O compromisso que guardamos é com Jesus, em trabalharmos pela nossa unidade com Ele e, em unidade perfeita, através dEle, com Deus.

Unificação é programa de luz nos corações humanos, sendo descabido, no seu âmago, qualquer posição conflitante.

Rumi, poeta, jurista e teólogo sufi persa do século XIII, anotou: Como seria possível obter a pérola simplesmente olhando o mar? Mesmo que tu esvaziasses o mar cem mil vezes com uma taça, a pérola jamais seria encontrada. É preciso mergulhar para a encontrar.

Não nos enganemos quanto as nossas responsabilidades. Ouçamos o Celeste Convite6: Vinde a mim, todos…

 

Referências:

1 BÍBLIA, N. T. João. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 17, vers. 21.

2 Op. cit. ______. cap. 17, vers. 23.

3 KARDEC, Allan. Revista Espírita – Periódico de Estudos Psicológicos. São Paulo: EDICEL, 1985, ano IV, v. 10, Discurso do Sr. Allan Kardec.

4 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974. Conclusão, item V.

5 FRANCO, Divaldo Pereira. Sementeira da fraternidade. Por Espíritos Diversos. Salvador: LEAL, 2008. cap. 19.

6 BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 11, vers. 28.

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