Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2019 Número 1621 Ano 87

A segunda carta magna da humanidade

setembro/2014

Depois de enunciado o Sermão da Montanha, a Humanidade terrestre jamais seria a mesma, desculpando-se das suas atrocidades sob o pretexto de ignorância.

Jesus houvera estabelecido as regras da vida honorável, as diretrizes de segurança para a construção da sociedade justa e feliz, embora soubesse que as criaturas, ainda sem a necessária maturidade espiritual para vivenciar os ensinamentos profundos do amor, alterariam significativamente aquelas instruções sublimes, tombando, não poucas vezes, nos abismos da alucinação e do crime.

A Sua doce voz continuaria a cantar a mensagem de vida em abundância aos ouvidos moucos dos tempos, até o momento em que pudesse ser colocada em prática.

A verdade é que, à medida que os anos se sucederam, a musicalidade sublime pareceu silenciar nas páginas da História e os indivíduos volveram a ser lobos contra ovelhas, devorando-as, ao invés de beberem juntos no córrego da fraternidade a mesma linfa.

Embora o sacrifício dos mártires que assinalaram a História com abnegação e sacrifício em Sua memória, mais tarde, os Seus discípulos, unindo-se ao poder temporal, que Ele recusara, tornaram-se inimigos uns dos outros, quando se deveriam transformar em cirineus recíprocos em todas as circunstâncias.

Os Bem-aventurados já não eram aqueles que diziam amá-lO, mas sim as vítimas que eram levadas ao holocausto pelo Tribunal da Santa Sé e pelas Cruzadas, enlouquecidas pelo ódio e pela malversação dos ensinamentos transcendentais.

Já não se sentia a vibração do verbo incomum do Cantor galileu, e na acústica das almas era ouvido somente o tumulto da ira e da vingança contra heresias e condutas que não se encontrassem previstas na pauta da Teologia de ocasião.

É como se a sinfonia da montanha cedesse lugar ao clarim da guerra hedionda e fosse substituída pela belicosidade da incessante perseguição…

O manso Nazareno foi trocado pelo Messias assassino e perverso, apaixonado e cheio de preconceitos…

A noite medieval cobriu com trevas a luminescência da Boa Nova do Reino de Deus.

Embora ressurgissem missionários do amor e da compaixão em todas as épocas, chamando à ordem e à paz, nem sempre conseguiram vencer a pompa e o orgulho temporal, que tomaram conta da proposta libertadora, então encarcerada nos dogmas arbitrários e na força perversa da governança romana.

Jesus esmaeceu enquanto Seu falso representante tomou-Lhe o lugar.

À simplicidade da mensagem e à pureza do culto sem ostentação, a opulência e o luxo imperiais passaram a dominar os corações, ora sedentos de glórias mentirosas e de exaustivos gozos, distantes do Reino de amor e de ternura, cujas bases Ele implantara nos corações das gentes simples das praias e aldeias por onde esteve semeando a esperança.

Às curas comovedoras e contatos com a pobreza e a miséria física, econômica e moral das massas aflitas esquecidas, que se renovavam ante a Sua presença, a distância e o protocolo, a dominação e o temor.

Ampliando os horizontes de conquistas terrenas, em vez da transformação moral dos seres humanos, os herdeiros do Evangelho corromperam-se e tornaram-se algozes do seu próximo em disparatada corrida pela aquisição dos tesouros terrestres que Ele não valorizara, como se estivessem indenes à velhice, à doença e à morte…

Foi nesse momento tormentoso, de incontáveis padecimentos que João, o discípulo amado, trocou as glórias da Espiritualidade superior para mergulhar nas roupagens físicas e tentar reviver em toda a sua pulcritude e grandeza, o período inolvidável das praias da Galileia de antes, restaurando o esplendor da pobreza e da humildade sem jaça.

Depois de usar os recursos da opulência que lhe não preenchiam as ânsias do coração saudoso do amado Rabi, mergulhou na solidão, na noite escura da alma generosa, para despertar num amanhecer de espiritualidade transcendente e trazê-lO de volta ao mundo, vivenciando-O como nunca dantes alguém o fizera com tanta pujança e vigor.

Em plena treva ele acendeu a luz da alegria de viver, cantou a felicidade plena, mediante o autoabandono, apresentou-O, enquanto se diminuía, sacudiu a sociedade do seu e dos futuros tempos, para que retornasse aos inexcedíveis dias que haviam ficado no passado.

Poeta e cantor, sensibilizou os homens e as aves do céu, os animais e as plantas, enquanto abraçou toda a Natureza, num momento de êxtase e de ternura, assinalando-a para sempre, na condição de dileto embaixador do Reino de venturas.

No seu breve périplo, de apenas quarenta e cinco anos, modificou a visão histórica da Mensagem, vivendo-a integralmente e ensinando a todos que se lhe acercaram a experimentar a felicidade de nada ter, exceto o privilégio elegido de O imitarem.

Quando as forças se exauriam, no leito da agonia, ainda pôde cantar uma das suas mais belas canções, que ficaria para a Humanidade como a Segunda Carta Magna de orientação para todas as criaturas:

Altíssimo, Todo-poderoso e bom Senhor,

Em Teu louvor, glória, honra e toda bênção,

A Ti só essas coisas, ó Tu Altíssimo,

E nenhum homem é digno de nomeá-lO.

Louvado sejas, Senhor, com todas as Tuas criaturas

Especialmente, meu senhor e irmão Sol

Através do qual nos dá o dia, a luz.

Ele é belo, irradiando um grande esplendor

e de Ti, ó Altíssimo, ele nos oferece o símbolo.

Louvado sejas tu, meu Senhor, pela irmã Lua e pelas Estrelas.

No céu tu as formaste claras, preciosas e belas.

Louvado sejas Tu, meu Senhor, pelo irmão Vento,

e pelo ar e pelas nuvens,

pelo azul calmo e por todos os tipos de tempo.

Graças a eles Tu manténs com vida todas as criaturas.

Louvado sejas Tu, meu Senhor, pela irmã Água

que é tão útil e tão sábia,

preciosa e casta.

Louvado sejas Tu, meu Senhor, pelo irmão Fogo

através do qual Tu iluminas a noite.

Ele é belo e alegre,

indomável e forte.

Louvado sejas Tu, meu Senhor, pela irmã nossa mãe a Terra,

que nos carrega e nos alimenta,

que produz a diversidade dos frutos

com as flores matizadas e as ervas.

Louvado sejas Tu, meu Senhor, por aqueles

que perdoam por amor de Ti

que suportam provações e doenças, felizes se conservam a paz,

porque de Ti, Altíssimo, eles serão coroados.

Louvado sejas Tu, meu Senhor, por nossa irmã a Morte corporal,

porque nenhum homem vivo dela pode escapar.

Infelicidade para aqueles que morrem em pecado mortal,

felizes aqueles que estiverem fazendo Tua vontade quando

ela os surpreender

porque a segunda morte não poderá prejudicá-los.

Louvai e bendizei o Senhor,

Dai-lhe graças e servidão

Com toda a humildade.

Quando silenciou a voz e retornou à Pátria, no dia seguinte, deixou o extraordinário legado de mansidão, de misericórdia, de amor, de exaltação ao Pai e glória à vida em todas as suas expressões.

O clarão de Assis prossegue até hoje, mesmo após as vicissitudes e transformações que se operaram na confraria que ele deixou, demonstrando que é possível viver-se o Sermão da Montanha e aplicar-se no íntimo o Canto do Irmão Sol e de todas as criaturas.

Sempre Jesus, que o tempo não dilui, na mente e nos corações de todos os seres humanos que O conheceram de qualquer maneira possível.

Amélia Rodrigues

Psicografia de Divaldo Pereira Franco, no dia 24 de fevereiro de 2014, em Los Angeles, USA.

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