Jornal Mundo Espírita

Janeiro de 2020 Número 1626 Ano 87

A primeira carta

fevereiro/2020 - Por Cezar Braga Said

(…) os laços entre as almas são como os que existem entre as estrelas.
Através dos séculos e dos lugares celestes, subiremos juntos para Deus,
o grande foco de amor que atrai todas as criaturas.
 Léon Denis
O Grande Enigma – pt. 2 – cap. XI

Belo Horizonte, 18-11-1957.

Divaldo, querido irmão do coração.

Paz em Jesus.

 Recebi seu lindo postal vindo pelo nosso amigo José Jobim Medeiros. Venho agradecer a você as expressões fraternas e carinhosas com que me brindou, as quais muito bem fizeram à minha alma. No entanto, nada tem que me agradecer. Eu é que sou imensamente grata por ter se lembrado de minha humilde pessoa e de me ter visitado em meu pobre domicílio. Infelizmente eu me achava ausente quando o rapaz esteve aqui, de forma que não tive o prazer de conhecê-lo, o que muito me pesa.       

 Seu postal veio avivar as saudades que eu já sentia da sua pessoinha querida e das palestras evangélicas com que só você sabe enternecer e reerguer, para a fé e o amor espiritual, a alma dos ouvintes. Que Deus o abençoe e ilumine sempre, nessa tarefa sublime de apresentar a Boa-Nova do Senhor.

 Divaldo, tenho me lembrado muito de você, porque estou trabalhando, agora, somente em torno do Evangelho, numa adaptação para crianças maiores de dez anos. Agora é que estou aprendendo a descobrir nessas páginas de luz os verdadeiros encantos que antes me passavam despercebidos. Não tenho méritos passados para me tornar bom instrumento dos Guias para tão avultada responsabilidade, mas faço o possível para merecer a assistência necessária. Ora por mim, querido filho, pois sei que seus pedidos chegarão facilmente ao seio de Jesus.

 O Arnon Moreno emprestou-me “Jesus no seu tempo”, de Daniel Rops,[1] livro esse que você nos recomendou. É muito erudito, profundo e belo, e enaltece o coração. Comecei a ler ontem “Vida de Jesus”, de Plínio Salgado, arrancou-me lágrimas de encantamento espiritual. É uma dádiva do céu, não acha? Poético e lindo, um livro completo! Você me prometeu um desse, dizendo que possui em duplicata, e não me esqueci. Procurei aqui e disseram que está esgotado. 

 Demorei a escrever porque estive em viagem. Fui visitar dois parentes doentes. Um faleceu. O outro continua atado a uma provação dolorosa.

 Envio o beijo fraternal de minha alma para a sua, com muitas saudades, na súplica a Jesus para que o abençoe e conduza sempre na rota sublime do Evangelho. Minha sobrinha e os filhinhos enviam recomendações.

 Aqui se despede a irmã e serva humilde que não o esquece e que muito bem lhe deseja.

         Yvonne

*   *   *

Jovem, com cerca de 30 anos, Divaldo recebe esta primeira carta de Dona Yvonne [do Amaral Pereira] repleta de espírito fraterno, gratidão, carinho e incentivo.  Era um rapaz bem intencionado e de coração puro que se dedicava de corpo e alma ao Espiritismo, Doutrina que abraçou nos verdes anos da sua juventude.

Gratidão à amizade, ao bem querer, carinho pelo moço em quem reconhecia talentos e estímulos para que as potências da sua alma pudessem desabrochar e florescer, ofertando frutos a quem dele se acercasse. Incentivo para que ele prosseguisse na tarefa da exposição doutrinária, onde sempre procurou apresentar Jesus como guia e modelo, um Cristo descrucificado, amoroso, humano e amigo de todos nós.

Desejoso de aprender com as experiências dela, Divaldo não se sentia pronto, não tinha a arrogância dos que supõem tudo saber e percebia o quanto os conselhos de Yvonne, seu bom senso, sua visão de mundo, do Espiritismo e do Movimento Espírita poderiam algo acrescentar à sua jornada de aprendiz.

Por outro lado, queria também oferecer amizade, ser-lhe igualmente solidário e afetuoso em meio às inúmeras lutas que intuía deveria ela travar no recesso do coração.

Ambos médiuns e Yvonne já com livros psicografados e publicados, o que somente ocorreria com Divaldo em 1964, por ocasião da publicação de Messe de Amor, primeira obra ditada pelo Espírito Joanna de Ângelis.

Yvonne menciona o quanto vinha aprendendo com o estudo do Evangelho, estava ampliando de maneira considerável seus conhecimentos  a ponto de preparar um livro destinado ao público infantil. Esse opúsculo não chegou a ser publicado na época, embora tenha sido enviado à Federação Espírita Brasileira – FEB e passado por uma avaliação criteriosa juntamente com outras obras de sua autoria.

Segundo Gerson Sestíni, amigo e posteriormente biógrafo de Yvonne, ela teria enviado cinco obras, o título de três delas é mencionado em seu belo livro Yvonne, a médium iluminada onde narra alguns dos seus encontros e conversas com a médium.

Ao que tudo indica este livro inspirado no Evangelho e voltado para o público infantojuvenil, se chamava O Evangelho aos simples.[2]

 Yvonne afirmava que toda a sua obra mediúnica recebia supervisão direta do Dr. Bezerra de Menezes, sendo ele, inclusive, quem lhe impediu de queimar os primeiros livros psicografados que foram recusados, sem serem lidos, por Manuel Quintão, dirigente da FEB, quando ela os levou até ele para serem analisados.

A razão dessa recusa ela só compreenderia mais tarde, quando mais madura entendeu que as obras precisavam ser revistas e melhor fundamentadas, além de datilografadas, pois estavam todas manuscritas. Naquela ocasião ela não tinha recursos nem para comprar papel, quanto mais ter uma máquina de datilografia.

Yvonne não criava ilusões quanto à presença da mediunidade em sua vida, reconhecia o quanto era endividada e o quanto deveria trabalhar para se reconciliar com sua própria consciência.

Por isso recusava qualquer endeusamento a sua pessoa, nunca deixando passar uma oportunidade de esclarecer quem a elogiasse ou a julgasse um Espírito superior. E desejava fosse essa a postura do espírita diante dos médiuns e dos médiuns diante de todos, sendo avessa a qualquer tipo de idolatria.

Pede ao amigo que ore por ela, tratando-o de querido filho e deixando claro que em sua casa ele seria sempre bem recebido e de fato sempre foi, nas inúmeras vezes, em que a visitou no Rio de Janeiro, desfrutando, naturalmente, do cafezinho e do bolo gostoso feito por sua irmã, Dona Amália, que também se correspondia com Divaldo.

  *   *   *

 No cap. XVI, pt. 2, de O Livro dos Médiuns, intitulado Dos médiuns especiais, Allan Kardec apresenta um quadro sinóptico das diferentes espécies de médiuns e no item 197 ele aborda o tema Os bons médiuns. Nesta análise, em que conta com o apoio dos Espíritos Erasto e Sócrates, o Codificador informa que eles se subdividem em: médiuns sérios, modestos, devotados e seguros.

 Médiuns sérios: os que unicamente para o bem se servem de suas faculdades e para fins verdadeiramente úteis. Acreditam profaná-las, utilizando-se delas para satisfação de curiosos e de indiferentes, ou para futilidades.

 Médiuns modestos: os que nenhum reclamo fazem das comunicações que recebem, por mais belas que sejam. Consideram-se estranhos a elas e não se julgam ao abrigo das mistificações. Longe de evitarem as opiniões desinteressadas, solicitam-nas.

 Médiuns devotados: os que compreendem que o verdadeiro médium tem uma missão a cumprir e deve, quando necessário, sacrificar gostos, hábitos, prazeres, tempo e mesmo interesses materiais ao bem dos outros.

 Médiuns seguros: os que, além da facilidade de execução, merecem toda a

confiança, pelo próprio caráter, pela natureza elevada dos Espíritos que os assistem; os que, portanto, menos expostos se acham a ser iludidos. Veremos mais tarde que esta segurança de modo algum depende dos nomes mais ou menos respeitáveis com que os Espíritos se manifestem.

Podemos afirmar que Chico Xavier, Dona Yvonne, Divaldo e outros tantos anônimos são um mix destas categorias pela maneira como lidaram ao longo de toda a vida com a mediunidade.

 

Referências:

1. Daniel-Rops  (1901-1965), foi um escritor e historiador francês cujo verdadeiro nome era Henri Petiot. Foi professor de História e diretor da revista Ecclesia (Paris). Tornou-se mundialmente famoso pelas obras de historiografia que publicou entre elas, a coleção História Sagrada, que abrange os volumes: O povo bíblico (1943), Jesus no seu tempo (1945) e os onze tomos desta História da Igreja de Cristo (1948-1965). Foi eleito para a Academia Francesa em 1955.

2. Esta obra foi lançada pela FEB em agosto de 2013.

A presente publicação, que consta do livro Cartas de Yvonne – A amizade entre Divaldo Franco e
Yvonne do A. Pereira, ed. LEAL, contou com a autorização do Centro Espírita Caminho da Redenção,
Salvador, Bahia, Brasil, datada de 5 de dezembro de 2019, tudo nos termos do Art. 29, Inciso I, da
Lei 9.610/98, que regulamenta os direitos autorais no Brasil.

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