Jornal Mundo Espírita

Janeiro de 2020 Número 1626 Ano 87

A pílula da felicidade

janeiro/2020 - Por Rogério Coelho

Só a química do amor, aquecido pelo fogo sagrado da instrução
 pode  oferecer-nos  euforia  sadia  e  equilíbrio sustentado.
 François C. Liran

Todas as vezes que o homem caminha pelas veredas do fisiologismo em busca do Nirvana, derrapa nas ásperas escarpas da desilusão, caindo, estatelado e inerme, no poço fundo e escuro da felicidade fugaz e da degradação orgânica. São exemplos relevantes os drogados que se comprazem com os chamados psicotrópicos…

Nos idos de 1914, nos laboratórios de uma indústria farmacêutica alemã, surgiu uma droga chamada XTC, originariamente destinada a ser um moderador de apetite. Porém, mais tarde, em 1969, reproduzida no laboratório químico de Alexander Shulgin, na Califórnia – U.S.A., ganhou contornos de uma molécula lisérgica que resultou numa molécula de anfetamina de propriedades alucinógenas: a MDMA ou: 3,4 metilenedioximetanfenecetamina.

Os primeiros testes revelaram que a droga não era um moderador de apetite e, sim, um seguro alucinógeno, que provocava sensações de autoconfiança, alegria, compreensão integral do eu e total empatia com o outro, além de coibir a violência e a agressividade em quem a ingeria. Pensou-se que estava resolvido o problema dos depressivos, dos alcoólatras e de infindáveis outros portadores de distúrbios mentais; e, por extensão, ficava também resolvido o problema da Humanidade, sempre sedenta de felicidade e bem-estar de pronta entrega. Era o sonho da trip segura!  Finalmente a pedra filosofal!…

O tom laudatório dos apologistas (leia-se: interessados financeiros), encontrou ressonância em milhões de criaturas, e, ao ganhar a rua, o XTC veio envolvido em auréola de santificação, tornando-se o novo Graal dos desesperados.

Mas, os efeitos colaterais nefastos não se fizeram esperar… Ocorre que, ao ultrapassar a dosagem de 200 mg (e cada comprimido tem 100 mg de droga psicoativa), a usina neuroquímica cerebral se desregula totalmente, levando, progressivamente, o sistema nervoso central a uma perturbação até ser irreversivelmente lesionado. Provoca, também, durante cinco horas de atuação, sonolência, enjoos compulsivos, vômitos, visão embaçada, arritmia (favorecendo acidentes cardiovasculares fatais), tensão facial e mandibular, cansaço etc…

Mas, antes de a droga XTC perder o seu glamour, mais precisamente na fase das louvaminhas e expressões encomiásticas de seus patrocinadores, um jornalista, chamado Jéan Grémion, acendeu um rastilho que deflagrou o seu consumo em megaescala. A centelha que desencadearia o boom internacional da XTC se acendeu em dezembro de 1983, na forma de um artigo publicado por ele num periódico francês chamado Vital, dedicado à saúde e à boa forma.

(Essas digressões foram necessárias em vista do conteúdo do artigo de Grémion, que me deixou paralisado de perplexidade e superlativamente espantado!) Ele louvou a droga e alertou que ela certamente seria condenada pelo “establishment” por (pasmem!!) seu poder subversivo de destruir, pelo amor, todos os medos e ódios.

A XTC – continua ele – não é medicinalmente nociva. Se fosse, teria havido sanções oficiais contra ela. Em troca, sua capacidade de desestabilizar nosso mundo é ilimitada. Nosso mundo está construído sobre a competição, a agressividade, as guerras… O que aconteceria se todos os seres humanos, por ação química, não sentirem mais, uns pelos outros, senão amor? Toda a estrutura de nossas civilizações desmoronaria.

A nosso ver, Grémion cometeu dois erros crassos:

1º. – louvou e estimulou o uso de uma droga que não lhe competia louvar nem estimular, vez que ele não é médico, nem químico e sim, jornalista;

2º. – em que se baseou para vaticinar a implosão das estruturas sociais ao ser erradicado tudo que constitui seus males e desgraças?!

Seria de lastimar o fim dos ódios, das fobias, das guerras, dos conflitos íntimos e externos?    Seria insossa a vida sem a competição, o egoísmo e a agressividade?!  Seria execrável o império absoluto do amor?!

O que causa maior assombro é que o jornalista que alinhou tão enviesada argumentação nasceu e sempre viveu na França, reduto cultural do mundo, plagas abençoadas eleitas pelo Cristo para o sopro da renovação espiritual, onde as Vozes dos Céus trouxeram ao Orbe a veneranda mensagem do Consolador. 

Jesus não enunciou um pleonasmo quando disse: Quem tem olhos de ver que veja; quem tem ouvidos de ouvir que ouça.

Imersas no imediatismo rasteiro, nas utopias chãs, na miopia materialista, no pragmatismo acadêmico, as criaturas esquecem-se de lançar um olhar na direção do imenso horizonte do Espírito, onde se estendem ao infinito as estradas da evolução, do aprimoramento moral, da felicidade verdadeira, da perfeição, do amor…

Assim como os selvagens segregados nas profundezas das florestas não desfrutam dos confortos da civilização, nós, os civilizados, não podemos imaginar as maravilhas que existem nos Orbes Ditosos, onde o amor fala mais forte, e ficamos, aqui, a trombetear nossa ignorância em torno do status-quo hodierno, limitados pelas nuvens e véus de nosso apoucamento intelectual.

Não foi sem motivo que o Espírito de Verdade conclamou: Espíritas, amai-vos; Espíritas, instruí-vos.

Só através do amor, em primeiro lugar, e da instrução, logo a seguir, poderemos ver, finalmente, estabelecer-se o Reino de Deus na Terra. Tão somente assim testemunharemos o desmoronar de toda a estrutura social arcaica, oferecendo espaço para a nova Civilização, cujos parâmetros e diretrizes serão coerentes com os princípios apregoados e exemplificados pelo Singular e Meigo Pastor de nossas almas: Jesus!

 

Nota: Este artigo está baseado no texto de H. Carneiro, publicado pela revista Manchete, nº 1950, de 2.9.1989.

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