Jornal Mundo Espírita

Julho de 2019 Número 1620 Ano 87

A pessoa do futuro

junho/2014 - Por Cezar Braga Said

(…) tu mesmo preparas muitas vezes os acontecimentos que hão de sobrevir no curso da tua existência.

O livro dos Espíritos, item 869.

Muitas vezes, observando as características de uma criança, ficamos a imaginar o que a espera no futuro, as possíveis profissões para as quais poderá se inclinar, as dificuldades que terá se aspectos da sua personalidade não forem corrigidos e, também, o quanto será feliz se algumas qualidades se mantiverem em sua conduta.

É também muito comum, numa espécie de devaneio, imaginar como estaremos no futuro ou, pelo menos, o que desejamos ser e ter nos dias do amanhã e, conscientes do que precisa ser feito, nos esforçarmos para a realização desses desejos.

Embora a sabedoria popular já tenha dito que o futuro a Deus pertence, podemos, pelos nossos esforços no bem, preparar um amanhã mais ditoso, aqui ou no Além, rompendo as repetições e condicionamentos que nos escravizam a um processo nitidamente neurótico.

Carl Rogers (1902-1987), psicólogo americano, humanista, escritor de vários livros e um dos precursores da psicologia transpessoal, ousou descrever quais seriam as características da pessoa do futuro, a partir de seus largos estudos e observações como terapeuta, educador e pesquisador do comportamento humano.

Para ele, a pessoa do futuro terá as seguintes características:

– Abertura

– Desejo de autenticidade

– Ceticismo em relação à ciência e à tecnologia

– Desejo de inteireza

– Desejo de intimidade

– Reconhecer-se sempre em processo

– Dedicação

– Atitude em relação à natureza

– Anti-institucional

– Autoridade interna

– Certa irrelevância aos bens materiais

– Anseio pelo espiritual.

Estas doze características nos suscitam vários questionamentos.

Um deles o de pensar se as famílias, centros espíritas e demais espaços educativos, em concordando com a visão de Rogers, estão preparados para a formação de um ser humano com este perfil.

Outra questão controversa é que ser anti-institucional pode ser também uma discordância da maneira pela qual as instituições se apresentam e se regulam e, não uma oposição sistemática a toda e qualquer instituição.

Da mesma forma, ter ceticismo em relação à ciência e à tecnologia não significa negar sistematicamente os inúmeros benefícios que elas já puderam propiciar à Humanidade, mas questionar os interesses mercantilistas e hegemônicos daqueles que delas se utilizam para lucrar, oprimir, aumentar a miséria, dominar com o poder do conhecimento, quando deveriam melhorar as condições de vida de todos os que se encontram na Terra.

A proposta de Rogers nos faz lembrar Allan Kardec quando revela que a aristocracia do futuro será marcada por caracteres intelectuais e morais, isto é, que o ser humano do futuro utilizará a sua inteligência sempre de forma pacífica, benigna, a serviço do progresso coletivo.

A partir dai, começamos a pensar que essa oportuna síntese de Carl Rogers tem relação com a proposta espírita, com os caracteres do homem de bem, com a missão do homem inteligente na Terra, com a missão dos espíritas em particular e a tarefa que nos cabe a todos, como seres encarnados, de um modo geral. E que toda essa reflexão e ação devem ser permeadas por uma necessidade constante de autoconhecimento.

Não se trata de um exercício vazio de futurologia, mas de uma análise feita por um educador humanista do século XIX, sob a inspiração dos Espíritos superiores e de outra análise elaborada também por um educador, esse do século XX, igualmente inspirada nas suas ricas e proveitosas experiências.

Que ambas nos façam refletir sobre como podemos empregar bem o nosso tempo, desenvolvendo em nós, agora, no presente, as características da pessoa do futuro.

 

Bibliografia:

KARDEC, Allan. Obras póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2006.

KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1987.

ROGERS, Carl. Um jeito de ser. São Paulo: E.P.U., 1987.

Assine a versão impressa
Leia também