Jornal Mundo Espírita

Outubro de 2021 Número 1647 Ano 89
Trabalhadores do Bem Envie para um amigo Imprimir

A pequena grande ave

julho/2021 - Por Mary Ishiyama

Batuíra é o nome dado, popularmente, à narceja, uma ave pernalta muito rápida e com voo veloz, que vivia nos pântanos dos arredores de São Paulo, pelos idos de 1850. Esse foi o apelido conferido a Antônio Gonçalves da Silva, nascido em 26 de dezembro de 1838, na Vila Meã, Freguesia de São Tomé do Castelo, concelho de Vila Real, Portugal.

De família humilde, com apenas onze anos de idade foi enviado ao Brasil por seu pai, para tentar uma vida melhor. Aqui aportando, em 1850, foi viver com seu irmão, na antiga capital do Império. Trabalhou no comércio até o ano de 1853, quando mudou residência para Campinas/SP, para trabalhar na agricultura. Em 1856, fixou residência na capital paulista.

Trabalhando como entregador, de porta em porta, do Jornal Correio Paulistano, jovem, muito ligeiro, passaram a chamá-lo de Batuíra. O apelido o acompanhou pela vida afora, a ponto de Antônio adotá-lo como sobrenome.

Muito simpático, sabia se portar tanto com os mais afortunados e cultos como com os simples de intelecto e de bens materiais. De sua convivência com acadêmicos, surgiu a ideia de fazer teatro. Em São Paulo, havia apenas o Teatro São José, nem sempre com peças e os ingressos tinham custo elevado.

Assim, ele fundou o Teatrinho do Batuíra, no número 10, da antiga Rua da Cruz Preta, depois Rua do Príncipe e atual Quintino Bocaiúva:  um local pequeno, comportando mais ou menos duzentas pessoas. Era a alegria dos estudantes porque custava apenas mil réis a entrada, mas quem não tivesse dinheiro, entrava do mesmo jeito. Batuíra dirigia e atuava, no período de 1860 a 1880.

Houve jornais que, maldosamente, chamavam o teatro de rinha de galo, por ter existido antes essa modalidade, no local. Batuíra defendeu-se das acusações e O Cabrião, um semanário satírico, veio em sua defesa publicando uma chamada para o espetáculo O visionário, e recomendando:

No dia três do futuro,

Faz o Eloy benefício.

Como o rapaz é gaiato,

E ainda é nosso patrício.

O Cabrião recomenda

Que encham-lhe o edifício.

No trabalho dedicado, Batuíra adquiriu, a preço baixo, uma grande área de terreno alagado, construiu uma casa para si e outras para alugar aos mais carentes.

Dotado de espírito humanitário, atuou na campanha abolicionista, escondendo escravos em sua casa, só os liberando quando lhes conseguia a carta de alforria.

Conta-se que, no velório de seu filho Joaquim Gonçalves Batuíra, de doze anos de idade, em 1883, em determinado momento, Batuíra recolheu-se ao seu quarto. A tristeza era imensa. Cerca de meia hora depois, ele voltou à sala mudado, dizendo que não queria mais tristeza, seu filho estava com Jesus. E, espantando a todos, saiu e voltou com uma banda tocando valsas, polcas e marchas. O assombro foi geral, imaginando os presentes que aquele pai enlouquecera de dor.

Explicaria ele que, em oração, no quarto, seu filho lhe aparecera dizendo: Pai, não fique triste. Eu não morri. Estou mais vivo do que nunca.

A partir desse momento, ele trava contato com o Espiritismo, tornando-se um dos precursores da Doutrina Espírita, em São Paulo e um grande médium. A rua de sua residência passou a ser conhecida como a rua do espírita, hoje detendo a denominação Rua Espírita.

Fundou o Grupo Espírita Verdade e Luz, adquiriu uma tipografia e em 1890 lançou o Jornal Verdade e Luz, posteriormente transformado em revista e do qual foi o diretor responsável até a data de sua desencarnação. A tiragem desse periódico chegou a cinco mil exemplares, algo inédito para a época.

Ele viveu o que pregou, praticava a caridade, consolava os aflitos, tratava os doentes com Homeopatia e difundia os princípios espíritas. A sua casa era, ao mesmo tempo, hospital, farmácia, albergue, escola e asilo. Todos os que ali chegavam, tinham comida e abrigo. Quando da epidemia de varíola, ele foi médico, enfermeiro e pai para os necessitados.

Batuíra criou grupos espíritas em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, proferiu conferências espíritas por toda parte, criou a Livraria e Editora Espírita, onde se fez impressor e tipógrafo.

Essa pequena ave, gigante no coração, realizou seu voo de liberdade, em 1909.

Afonso Schmidt escreveu na despedida: Batuíra faleceu a 22 de janeiro de 1909. São Paulo inteiro comove-se com o seu desaparecimento. Que idade tinha? Nem ele mesmo sabia. Mas o seu nome ficou por aí, como um clarão de bondade, de doçura, de delicadeza ao céu, dessas que se vão fazendo cada vez mais raras num mundo velho, sem porteira…1

 

Referências:

1 http://www.feparana.com.br/topico/?topico=733

2 http://geb-portugal.org/batuira/

3 https://saopaulopassado.wordpress.com/2015/08/23/a-rua-do-espirita/

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