Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2020 Número 1634 Ano 88

A paz do mundo e a paz de Jesus

setembro/2011 - Por Lair Carbonera

Uma das mais intrigantes passagens evangélicas está registrada no Evangelho de Mateus, capítulo 10, versículo 34: Não cuideis que vim trazer a paz à Terra; não vim trazer a paz, mas a espada”.

Milhões de cristãos, mundo a fora, não conseguem extrair do anunciado de Jesus o seu profundo e verdadeiro sentido. Muitos entendem que Jesus jamais poderia ter dito algo tão conflitante com seus ensinos e sua exemplificação. Outros preferem acreditar nas falhas de tradução ou no poder de manipulação dos mal intencionados permitindo que o texto sofresse desvios ou adulterações, comprometendo a mensagem.

Também nós, durante muito tempo, estivemos refletindo essas afirmações de Jesus sem entender o seu sentido profundo. Passamos, então a fazer o confronto entre diversos textos que nos pareciam conflitantes, especialmente com aquele que narra a sua prisão no horto no qual Simão Pedro desembainhou a espada e feriu o servo do sumo sacerdote, por nome Malco, cortando-lhe a orelha direita, ao que Jesus lhe ordena: “Mete a tua espada na bainha” (Jo. 18, 10), e, na redação de Mateus, acrescenta: “todos os que lançarem mão da espada à espada morrerão”. (Mt. 26, 52)

À primeira vista, e sob um exame superficial, o intérprete logo conclui que aquelas primeiras afirmações (não vim trazer a paz, mas a espada), não poderiam ser autênticas. Jesus, o grande propagador do princípio da não violência, não poderia, também, tornar-se portador da espada, simbolizando a morte. Ele que sempre recomendou-nos orássemos aos nossos inimigos não poderia, sem contrariar a sua grandiosa missão, ser o propagador da truculência. Ensinando-nos a não oferecer resistência ao mal, como meio de desintegrar a cultura do “olho por olho e dente por dente” (Mt. 5, 38/39), não estaria coerente com a sua doutrina de amor e bondade, caso difundisse a ideia contrária.

Os adversários do Cristianismo se apoiam naquele texto para negarem a grandeza da missão do Mestre, interpretando-o como um simples revolucionário terreno em busca do poder temporal e que, por isso, estaria sujeito às contradições comuns aos seres humanos falíveis.

Apesar do transcurso de dois milênios, após o retorno de Jesus às Esferas Resplandecentes, os círculos cristãos, nas mais diversas congregações religiosas, não encontraram uma interpretação coerente que equacione a lição apregoada ao conjunto de ensinos e obras do Mestre. Os cristãos, geralmente pouco afeitos ao estudo e à pesquisa, quando se defrontam com o texto questionado, tratam logo de seguir adiante, deixando-o para trás, sem concluir coisa alguma, certos de que haveria uma “peça” deslocada para fora do conjunto harmonioso dos inolvidáveis ensinos do Senhor.

Sabendo Jesus que muitos de seus ensinos e exemplos de vida ficariam incompreendidos pela humanidade, prometeu-nos enviar o Espírito de Verdade “… que vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar-se de tudo quanto tenho dito”, (Jo. 14, 26). De fato, os homens tem maior facilidade de compreensão daqueles ensinos que lhes tocam os interesses mais imediatos, ligados às sensações físicas. Entretanto, Jesus, para difundir a boa-nova, se reportava ao Reino dos Céus, vendo-se compelido a utilizar o idioma hebraico, desprovido de riqueza vocabular, único possível àquela gente simples e inculta.

Assim, os ensinos de Jesus parecem entrechocar-se em alguns pontos. Em outros, parecem deslocados da realidade humana. É que o homem encarnado, sofrendo as injunções da realidade física, incomoda-se com ela, luta pela sobrevivência, persegue facilidades ilusórias e tem dificuldade de compreender a vida de outra forma que não a fisiológica.

Entretanto, mensagens dos Céus nos permitem compreender o que desejou Jesus dizer com a frase “não vim trazer a paz, mas a espada”. No capítulo 104 do livro “Caminho, Verdade e Vida”, Emmanuel nos trás a chave da genuína interpretação sobre a paz de Jesus e sua espada simbólica: “Na expressão comum, ter paz significa haver atingido garantias exteriores, dentro das quais possa o corpo vegetar sem cuidados, rodeando-se o homem de servidores, apodrecendo na ociosidade e ausentando-se dos movimentos da vida”.

Não te esqueças, contudo, de que a paz do mundo pode ser muitas vezes, o sono enfermiço da alma”, diz Emmanuel no livro “Vinha de Luz”, capítulo 105. De fato, a paz que o mundo cultiva decorre das imperfeições humanas, onde o egoísmo centraliza nossas atenções em busca de um sossego criminoso que ignora o sofrimento dos infelizes e se incomoda com a presença dos simples e injustiçados. A paz dos poderosos se sustenta no acúmulo das riquezas ilusórias, ou no poder político, enquanto a paz dos infortunados se sustenta na certeza de que Deus lhe concederá milagres imerecidos, a serem obtidos mediante bajulação à divindade.

Há ímpios, caluniadores, criminosos e indiferentes que desfrutam a paz do mundo. Sentem-se triunfantes, venturosos e dominadores no século. A ignorância endinheirada, a vaidade bem vestida e a preguiça inteligente sempre dirão que seguem muito bem”. (“Vinha de Luz”, capítulo 105).

Jesus não poderia endossar tranquilidade desse jaez, e, em contraposição aos falsos princípios estabelecido no mundo, trouxe consigo a luta regeneradora, a espada simbólica do conhecimento interior pela revelação divina, a fim de que o homem inicie a batalha do aperfeiçoamento em si mesmo. O Mestre veio instalar o combate da redenção sobre a Terra. Desde o seu ensinamento primeiro, foi formada a frente da batalha sem sangue, destinada à iluminação do caminho humano, (“Caminho, Verdade e Vida”, capítulo 104).

Fácil, assim, compreender que a paz de Jesus é algo diferente da paz do mundo, como ele próprio afirmou em outra oportunidade: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá”, (Jo. 14, 27). Logo, é correto afirmar-se que Jesus veio nos tirar a paz enganosa a que estamos acostumados, há milênios. E para que a Sua paz se instale em nossos corações, é indispensável manejar a espada simbólica destinada a iniciar a batalha do aperfeiçoamento. Com tal espada, o Mestre veio instalar o combate da redenção sobre a Terra. Consequentemente vivemos, hoje, uma intensa luta na frente de batalha sem sangue,
destinada à iluminação do caminho humano,
uma verdadeira guerra contra o mal, nas palavras de Emmanuel, com o auxílio e iluminação do Espírito de Verdade.

Como se vê, as contradições que supomos encontrar nos ensinos de Jesus são meramente aparentes, pois decorrem sempre de nossa escassa cultura religiosa, algo viciada em buscar nos textos sagrados aquela interpretação que melhor atenda às nossas aspirações mais imediatas. Resta-nos reconhecer, por fim, que as palavras e expressões pronunciadas por Jesus estão embebecidas de elevados conceitos de espiritualidade.

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