Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2019 Número 1621 Ano 87

A oração do Pai Nosso em um jogo de videogame

agosto/2017 - Por Andrey Cechelero

Os artistas, como os chamados sábios do mundo, podem enveredar, igualmente,
pelas cristalizações do convencionalismo terrestre, quando nos seus corações não palpite a
chama dos ideais divinos, mas, na maioria das vezes, têm sido grandes missionários das
ideias, sob a égide do Senhor, em todos os departamentos da atividade que lhes é própria,
como a literatura, a música, a pintura, a plástica.2
Emmanuel

 

Parece um fato inusitado, difícil de acreditar, o título de nosso artigo. Porém, para entendermos bem como chegamos até ele, precisamos explicar algumas questões.

Primeiro, vamos apresentar Christopher Tin, músico multi-instrumentista e maestro norte-americano – quarenta e um anos.

Christopher teve sua formação em Stanford, depois em Oxford, Inglaterra e, por fim, no Royal College of Music de Londres, também nesse país. Em todos esses locais, destacou-se por sua genialidade como compositor.

Começou a fazer pequenos trabalhos para televisão, cinema, seguindo os passos que todos devem seguir nesse ramo, até que sem querer – como ele afirma – esbarrou num velho amigo de faculdade, durante uma reunião de ex-alunos da Stanford. Esse amigo era Soren Johnson.

Numa conversa informal, perguntou: E aí, o que anda fazendo?

Bem, sou um criador de videogames. Meu próximo jogo será Civilization IV – respondeu Johnson.

Oh, legal, eu sou compositor, escrevo música para filmes e coisas assim.

Johnson, então, devolveu: Você já pensou em escreveu música para videogames?

E foi assim que Tin entrou nesse mundo das músicas para jogos. A abertura de Civilization IV foi a primeira: Baba Yetu.

Ele conta que demorou para chegar na melodia, no tema que queria. Foi caminhando que veio a primeira ideia. E depois, a letra, veio meio no susto, ou ao acaso, sem pensar muito, uma vez que era uma prece que seu coro já conhecia.

Porém, quem escuta Baba Yetu (que significa Pai Nosso, em Swahili – língua africana da região dos Grandes Lagos, falada em países como Tanzânia, Quênia, Uganda, Ruanda, Burundi, Mozambique etc), percebe que ali há algo de muito especial.

Estamos acostumados a ouvir essa prece em nosso idioma, em línguas latinas ou mesmo na língua inglesa, mas ouvi-la num dialeto africano, remetendo-nos à lembrança desses primeiros povos que estiveram na Terra, a quem tanto devemos, nos traz emoções muito fortes.

Baba Yetu conquistou o mundo. Deixou de ser uma música de videogame. Christopher Tin ganhou dois prêmios Grammy com ela. O álbum Calling All Dawns no qual ela é a primeira faixa, venceu o Grammy de melhor álbum clássico, em 2010.

Além disso, Baba Yetu entrou para o Guiness Book of Records como a primeira música feita para um jogo de videogame a vencer um Grammy.

A música de Chrispother Tin representa a música da Nova Era. É o belo abraçado ao bom. É a música do planeta de regeneração, comprometida com o sentimento, com a sensibilidade, e que não dispensa a excelência da técnica. É música para se aprender a ouvir com a alma.

Música colaborativa, que não tem fronteiras, que não se prende a tempo ou moda. Música que não é feita para os sentidos, mas sim para o sentir.

Em seu álbum Callling All Dawns, Tin trabalha com cerca de duzentos músicos de seis continentes. Doze línguas diferentes são faladas e cantadas ao longo desse trabalho extremamente rico e sensível.

Arte do mundo para o mundo.

*

Agora um segundo fato inusitado: temos uma ligação com Christopher Tin.

Tudo começou quando tivemos a oportunidade de entrar em contato com sua editora, nos Estados Unidos, para solicitar permissão para gravar Baba Yetu no Brasil. Apresentamos a proposta, descrevemos o trabalho.

Qual nossa surpresa, ao verificar quem responde o email alguns dias depois: o próprio autor da obra. Atencioso, acessível, mostrou-nos o caminho correto para conseguir a licença necessária. Após algumas semanas, conseguimos.

Depois da licença obtida, enviamos segundo correio eletrônico perguntando como conseguiríamos as partituras originais para orquestra e coro, uma vez que nossa pesquisa pela Internet nos havia levado para diversas versões e muitas delas não eram confiáveis. Novamente fomos surpreendidos e a assessoria de Christopher nos atendeu, de imediato, perguntando qual o tamanho de nossa orquestra para que pudesse nos enviar as partituras.

Finalmente, o mais interessante e surpreendente.

Estávamos na preparação de um estudo especial para jovens com o tema Arte e Espiritismo. Acudiu-nos a ideia de utilizar, como abertura, um dos mais belos temas de Tin, Hymm Do Trojcy Swietej, um belíssimo hino a Deus cantado em polonês. Seria uma forma de apresentar a referência de uma arte voltada à Espiritualidade, que eleva a alma, sem rótulos e que nos transporta para fora da esfera acanhada de nossas atividades[1], como tão bem afirmou Allan Kardec.

E por que não tentar escrever a Christopher falando desse trabalho e tentar entender melhor sua arte?

Ousadia? Atrevimento? Talvez… mas… por que não tentar?

Foi assim que preparamos um longo e-mail, que começou com elogios ao trabalho do músico, justamente destacando o valor de sua obra, o valor dessa arte nova que, lentamente, vem ganhando forças, vem conquistando o coração das pessoas.

Lembramos de Emmanuel, em O Consolador:

Sempre que a sua arte se desvencilha dos interesses do mundo, transitórios e perecíveis, para considerar tão somente a luz espiritual que vem do coração uníssono com o cérebro, nas realizações da vida, então o artista é um dos mais devotados missionários de Deus, porquanto saberá penetrar os corações na paz da meditação e do silêncio, alcançando o mais alto sentido da evolução de si mesmo e de seus irmãos em humanidade.[2]

Utilizei os termos Missão e Compromisso e alguns outros que foram surgindo como inspiração.

Ao final de alguns parágrafos comuniquei a ele que faria um trabalho com jovens naquele final de semana, que apresentaria sua música como referência e que estaria levando a proposta de uma Arte maior, de uma Arte comprometida com o Bem e o Belo.

E como quem não quer nada, perguntei: será que você poderia me responder umas breves perguntas para que possa utilizar como matéria-prima nesse trabalho? Será primoroso e muito importante para eles. Uma contribuição fantástica.

Terminei o e-mail com cinco perguntas sobre algumas obras, sobre a vida, sobre a forma de compor e sua ligação com a religião. Enviei a rápida entrevista.

Será que ele teria tempo de ler? Será que se interessaria?

Bem, no dia seguinte, lá estava a resposta: Answers below. Thanks for the kind words! (Respostas abaixo. Obrigado pelas bondosas palavras)

Não preciso falar de nossa alegria… Estávamos em sintonia! Ele sabia de nosso trabalho pequenino aqui, com nossos jovens espíritas e participaria dele de uma forma toda especial.

Algumas respostas eram mais técnicas e outras revelavam sua simplicidade no trabalho.

Baba Yetu aconteceu quase que por acaso, como já relatamos acima. A melodia chegou à sua mente numa caminhada e a ideia de utilizar o Pai Nosso apenas uma conveniência, segundo ele. A primeira que lhe veio à mente.

Quando perguntamos se ele era uma pessoa religiosa, a resposta foi muito curiosa: Sou um ateu que ama as religiões de um ponto de vista cultural, que adora ir à igreja e que ocasionalmente lê os escritos da Santa Sé. É complicado de entender, eu sei…

Ao compor a obra que citamos acima, Hymm Do Trojcy Swietej, Tin aguardou um dia mais escuro, sem sol na Califórnia, pois precisava de um ambiente mais introspectivo. Sua intenção era compor um tema que inspirasse a meditação e levasse ao lado espiritual mesmo. Ao ouvir as vozes na parte final da peça, temos a nítida impressão de estarmos tirando os pés do chão.

Finalmente, quando perguntado sobre a mensagem que deseja passar com sua obra, respondeu: Que devemos enxergar a beleza em nosso próximo e no ambiente que nos cerca, e que o mundo ao nosso redor está cada vez melhor.

Nossos jovens ficaram surpreendidos com o estudo, que passou de uma reunião de hora e meia, na previsão inicial, para dois encontros de mesma duração.

De nada adianta apenas criticarmos a geração atual, seus gostos e seus costumes, se não lhes apresentarmos uma boa referência. Também, de forma adequada, nada impositiva. É assim a educação. O educando precisa fazer o seu movimento do interior para fora. Educar não é despejar um belo conteúdo dentro de um jarro vazio.

Terminamos ouvindo e assistindo Baba Yetu interpretada por grande orquestra, regida com empolgação pelo próprio Christopher Tin.

A música era oração. A oração era música. Estávamos mais próximos de Deus através da Arte.

 

Bibliografia: 

 

[1] KARDEC, Allan. Obras póstumas. 32. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2002. pt. 1, item: Sobre as artes em geral; a regeneração delas por meio do Espiritismo.

[2]XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 18. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 1997. q 162.

DCI NY concert at Carnegie Hall on Sunday night, April 13, 2014.
Credit: Hiroyuki Ito

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