Jornal Mundo Espírita

Outubro de 2019 Número 1623 Ano 87

A opção pelo bem

dezembro/2016 - Por Antônio Moris Cury

Estamos vivenciando tempos de grandes questionamentos pessoais no planeta Terra, como se pode constatar, a toda evidência, a qualquer momento e em qualquer lugar, sobretudo nos últimos anos, com o advento de novas tecnologias, especialmente as que possibilitam a veiculação de informações, de conhecimento, e que se encontram amplamente disponibilizadas.

Diante das guerras, principalmente das civis (tantas vezes provocadas ou incentivadas pelo interesse comercial e financeiro de quem fabrica e vende armas e equipamentos de destruição), das guerrilhas, do contrabando, do tráfico de drogas e entorpecentes de variada ordem, da corrupção em todos os níveis e em seu mais amplo sentido, da violência generalizada, da impressão que se pode ter de que aquele que não age com correção de conduta (trapaceando, manipulando e enganando os outros, sobretudo os que têm pouca informação) sai em vantagem, etc. [e ponha-se et cetera nisto!], o grau de dúvida e indagação é simplesmente gigantesco.

Parece que esperto é quem leva vantagem sempre, e em tudo, independentemente dos métodos que empregue.

Ledo engano!

Não se pode esquecer que os bens da Terra nela ficarão, uma vez que para o outro lado da Vida, de material não se leva nem mesmo o corpo físico que aqui serviu de veículo para nela transitar.

Além disso, com poucos recursos é perfeitamente possível ter-se uma existência terrena digna e boa, de tal modo que não é preciso ficar rico, milionário ou bilionário para tê-la.

A propósito, diz um provérbio chinês que Um homem [ser humano] pode possuir mil acres de terra, mas dorme numa cama de dois metros.

Entretanto, é importante que fique claro, desde logo, que o Espiritismo não faz apologia da pobreza e nada tem contra a riqueza material, desde que obtida por meios lícitos e bem havidos (aliás, a riqueza, assim obtida e quando bem empregada, pode proporcionar o desenvolvimento material e intelectual de um sem-número de pessoas, com a criação de emprego e renda, com a construção e manutenção de escolas, com a concessão de bolsas de estudo. Numa palavra, pode promover uma parcela considerável de progresso).

Como já o sabemos de cor e salteado, o ensino máximo do Cristo está consubstanciado na célebre e milenar sentença Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, com a qual Jesus resumiu toda a Lei e os profetas.

Conhecer, conhecemos de há muito. Precisamos aplicá-lo, e aplicá-lo com urgência urgentíssima.

Aplicá-lo em nosso próprio favor, em favor de nossos familiares, dos amigos, de colegas, dos conhecidos, das pessoas com quem nos relacionamos, da sociedade, enfim.

Vale muito a pena enfatizar: amar o próximo como a si mesmo é fazer a ele somente o que gostaríamos que ele nos fizesse!

Com efeito, Amar o próximo como a si mesmo: fazer pelos outros o que quereríamos que os outros fizessem por nós é a expressão mais completa da caridade, porque resume todos os deveres do homem para com o próximo. Não podemos encontrar guia mais seguro, a tal respeito, que tomar para padrão, do que devemos fazer aos outros, aquilo que para nós desejamos. Com que direito exigiríamos dos nossos semelhantes melhor proceder, mais indulgência, mais benevolência e devotamento para conosco, do que os temos para com eles? A prática dessas máximas tende à destruição do egoísmo. Quando as adotarem para regra de conduta e para base de suas instituições, os homens compreenderão a verdadeira fraternidade e farão que entre eles reinem a paz e a justiça. Não mais haverá ódios, nem dissensões, mas tão somente união, concórdia e benevolência mútua.1

A prática do Bem está umbilicalmente ligada ao ensino maior cristão.

Quem pratica o Bem se sente em paz com a sua consciência [que, diga-se de passagem, é o grande Tribunal de cada um de nós].

Nessa linha, Cezar Braga Said anota: Com a coragem de quem deseja superar-se continuamente, como um esportista que persegue um novo recorde, vivamos de forma infinita no corpo finito que nos deram nossos pais e o Criador. Aproveite cada segundo da sua existência corporal para iluminar-se interiormente, no exercício diário do bem.2

No mesmo e admirável livro de bolso, recomenda o escritor fluminense: Doses diárias do bem geram saúde e bem-estar, estimulando o bom humor, aumentam a paz interior, gerando serenidade e coragem para não desistirmos dos nossos mais belos ideais. Faça o bem no seu ambiente profissional, familiar, religioso, na sociedade onde se movimenta, entendendo que ser útil, sempre que uma oportunidade se ofereça, é operar a substituição do egoísmo pelo amor, é fazer um bem sobretudo a si mesmo, enchendo sua vida de beleza e significação.

Por igual, ao tratar do que denomina de privilégios cristãos, André Luiz [Espírito] registra que um deles é: Perseverar no bem até ao fim.3

Ainda na mesma linha, Carlos Torres Pastorino recomenda: Caminhe alegre pela vida! Plante sementes boas de paz e otimismo, vivendo bem com sua consciência. Ajude aos outros o mais que puder, de tal forma que sua vida se torne uma alegria constante, por beneficiar a todos. Não pergunte se eles agradecerão ou retribuirão a você. Faça o bem, sem pensar na recompensa, porque só assim você demonstrará amor para com todos.

Por outra parte, sendo a Terra mundo de expiação, nela predomina o mal. Quando se achar transformada, a estrada do bem será a mais frequentada.5

Neste ponto, torna-se indispensável reproduzir a pergunta 982 de O Livro dos Espíritos [a mais importante obra do Espiritismo]: Será necessário que professemos o Espiritismo e creiamos nas manifestações espíritas, para termos assegurada a nossa sorte na vida futura?

Resposta: Se assim fosse, seguir-se-ia que estariam deserdados todos os que não creem, ou que não tiveram ensejo de esclarecer-se, o que seria absurdo. Só o bem assegura a sorte futura. Ora, o bem é sempre o bem, qualquer que seja o caminho que a ele conduza.6

Bem o sabemos e consolidamos que na Terra predominam o mal e a imperfeição, ainda. Por isso, compete a cada um de nós cumprir a sua parte, e cumpri-la bem, do mesmo modo que devemos ser úteis, e cada vez mais úteis, onde quer que nos encontremos.

A opção pelo Bem é indiscutivelmente a melhor, razão pela qual é de todo conveniente que optemos pelo Bem sempre, seja qual for a situação, seja qual for a circunstância, com o que estaremos prestando nossa contribuição para a melhoria das relações humanas e sociais e, notadamente, para a evolução do próprio planeta em que ora nos encontramos, visto que Deus não nos entregou a Terra pronta e acabada.

Quem elege como seu padrão de comportamento a prática do Bem, sempre, não se arrependerá jamais.

E, que não se perca de vista, nunca é tarde para começar ou para recomeçar.

 

Bibliografia:

1.KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 126. ed. Brasília: FEB, 2006. cap. XI, item 4.

2.SAID, Cezar Braga. Meditando com você. Rio de Janeiro: Léon Denis, 2008.

3.XAVIER, Francisco Cândido. Agenda cristã. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB, 1974. cap. 3.

4.PASTORINO, Carlos Torres. Minutos de sabedoria. 15. ed. Rio de Janeiro: Vozes. cap. 110.

5.KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 126. ed. Brasília: FEB, 2006. cap. XVIII, item 5.

6. ______. O livro dos Espíritos. 88. ed. Brasília: FEB, 2006. pt. 4, cap. II, item 982.

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