Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

A noviça rebelde

setembro/2019 - Por Maria Helena Marcon

O filme data de 1965 e nem toda a crítica lhe foi favorável, em especial a daqueles que têm resistência ao gênero musical. Contudo, trata-se de um clássico da Era de Ouro de Hollywood.

No ano do seu lançamento liderou a bilheteria, teve dez indicações ao Oscar e levou cinco estatuetas: melhor filme, direção, edição de som, montagem e trilha sonora.

O American Film Institute o listou na quadragésima posição, entre os cem melhores filmes de todos os tempos e na quarta posição entre os melhores musicais.

Em verdade, embora o lapso temporal, é um filme que merece ser redescoberto. Assistido e visto com olhos de quem admira a arte da cinematografia como um todo. A fotografia é digna de nota, iniciando pela grandiosa sequência de abertura do musical na maravilhosa paisagem.

A história do filme é baseada em fatos reais da Família von Trapp. Contudo, o filme romanceia e altera alguns fatos. Ocorre que a família vendeu os direitos autorais a um produtor alemão, nos anos 50 e não teve nenhum controle de sua representação no cinema.

Por exemplo, em suas memórias, Maria von Trapp assume que não estava apaixonada por Georg Ludwig von Trapp, quando se casou com ele. Também não fora contratada para cuidar de todas as crianças, mas apenas da caçula que, doente, precisava de lições em casa.

Os nomes das crianças foram alterados, também algumas datas e o pai, Georg, segundo uma das suas filhas, era, em verdade, conhecido por ser carinhoso e bastante presente na vida dos filhos.

No entanto, o que nos importa enfocar é o que o filme nos apresenta. Inicialmente, uma noviça que não se enquadra nas normas rígidas do convento. Como ficar sem cantar, se a música é a própria vida? Como andar a passo lento, comedido, se ela tem vontade de pular, dançar, comemorar a vida? Por isso, se não pode cantar no convento, ela busca a liberdade das montanhas para soltar sua voz ao vento.

De imediato, a questão nos leva ao que muitos pais e educadores vivemos na atualidade: crianças hiperativas, que correm de um lado para o outro, movimentando-se tanto que chegam a cansar os que por elas são responsáveis.

Às vezes, a criança está apenas passando por algum problema e essas características aparecem. Ou, como no caso de Maria, ela estava no lugar errado, tentando assumir algo que não condizia com sua forma de ver e sentir a vida.

Como os próprios versos da música sugerem: Como se segura uma onda do mar?

Como se prende o luar na palma da mão?

Como apanhar uma nuvem e prendê-la ao chão?

Isso nos dá a exata dimensão de que devemos olhar para nossos filhos e educandos, com profundidade, a fim de lhes descobrir as verdadeiras potencialidades e as estimular, jamais sufocá-las.

Nisso se sobressai o papel da Madre Superiora que fala diretamente à noviça, ressaltando que há muitas formas de amar e servir a Deus. É preciso saber como Deus deseja ser amado.

Evidencia-se aqui a grande lição do amor. O amor de mãe, de esposos, de irmãos. Quantas formas de amar nos permite a Divindade! E no exercício de cada uma delas, estamos amando a Deus e cumprindo a missão para a qual viemos para este planeta.

Frisa, enfim, a Superiora, referindo-se aos altos muros do convento, que mantinham as freiras longe do burburinho do mundo, que eles não estavam ali para afastar problemas pessoais, traumas, dificuldades ou conflitos íntimos de quem se candidatava a tomar o hábito. O convento não deve ser um refúgio.

Nesse item, nos acodem à mente as questões da verdadeira vocação. Aprendemos, na Doutrina Espírita, que nascemos com um planejamento, genérico ou mais elaborado, conforme seja nossa missão na Terra. Mas, com certeza, a área em que desenvolveremos nossa atuação nele se encontra.

A vocação é a soma dos reflexos da experiência que trazemos de outras vidas.1 Naturalmente, que a cada encarnação, podemos ser iniciantes nesse ou naquele setor de serviço, entendendo-se as questões evolutivas. Mas, de um modo geral, retomamos na vida atual, o caminho já percorrido, em vidas transatas,  no sentido de continuidade.

Então, a questão a respeito da profissão que desejam seguir nossos rebentos nos deve constituir detalhe de suma importância, não nos cabendo interferir, forçando a caminhada para essa ou aquela profissão, de nossa exclusiva predileção ou vontade.

Muitos dos nossos males advêm do fato de não seguirmos a nossa vocação. E, muitas vezes são os pais que, por orgulho ou avareza, desviam seus filhos da senda que a Natureza lhes traçou, comprometendo-lhes a felicidade, por efeito desse desvio. Responderão por ele.2

Enfim, Maria tem sua chance, ofertada pela superiora: ir servir no mundo, em casa de um oficial da marinha, viúvo, com sete filhos. Filhos terríveis, que viviam aprontando armadilhas para as governantas, logo que chegassem.

De imediato se descobre que não são crianças más. Somente desejavam chamar a atenção do pai. Um pai que, no filme, é mostrado como um homem muito severo, rígido e que a amargura pela morte da esposa, transformara em alguém distante, abolindo tudo que significasse alegria em seu lar. Por isso, ninguém cantava, ninguém brincava, ninguém fazia nada fora das normas ditadas pela disciplina militar: tempo de despertar, tempo de dormir, de comer, de estudar, de…

Maria, no entanto, os conquista, no primeiro dia, não revelando ao capitão as desagradáveis surpresas que lhe aprontam os meninos, como o colocar um sapo no bolso do seu casaco ou uma pinha na cadeira em que se deveria sentar, ao jantar.

A sua alegria, a sua energia modificam a vida daquelas crianças e daquela casa, conquistando, inclusive, o coração do próprio capitão, culminando em casamento. E, quando tudo parece bem, maravilhoso, a grande reviravolta.

Isso nos remete ao ensino espírita a respeito das verdadeiras e harmoniosas famílias, famílias espirituais que, no entanto, ainda têm débitos a ressarcir. Por isso, os revezes se apresentam, situações que, pelo amor que os une, suportam, num auxílio e fortalecimento mútuos.

É o momento da invasão germânica, que culmina, em março de 1938, com a anexação da Áustria ao Terceiro Reich, comandado por Adolf Hitler. Essa anexação, conhecida como Anschluss em alemão, deu fim a uma longa disputa pelo poder entre seguidores do nazismo, social-cristãos e democratas, que marcou o país na década de 30. Apesar de se tratar de uma ocupação militar, a anexação foi pacífica e saudada pela maioria dos austríacos.

No entanto, o oficial reformado da Marinha Austríaca, o barão von Trapp, com todas as suas condecorações da Primeira Guerra Mundial, não admite essa situação. E seus gestos, como o rasgar a bandeira nazista que fora pendurada em sua casa, e o discurso inflamado com que enfrenta o comandante nazista, bem atestam sua posição de desafio e de lutador.

Ele é um patriota, que ama o seu país e o deseja soberano, fato que somente  viria a se concretizar ao final da Segunda Guerra Mundial. Exatamente, por isso, para não se submeter a Hitler, que o chama a Berlim, a fim de se integrar ao serviço do Terceiro Reich, planeja sua fuga e de toda a família.

Deixa tudo para trás: casa, haveres, a fim de não se aliar a um sistema no qual não confia e ao qual não deseja se submeter e nem os seus familiares.

Sua despedida do país, dos seus compatriotas, se dá durante um Festival. Sua voz embargada quase não consegue concluir a canção em homenagem à flor símbolo da Áustria, Edelweiss, e utilizada, na ocasião, como símbolo à resistência ao nazismo. Especialmente porque seus versos finais suplicam:

Floco de neve, que você possa desabrochar e crescer

Desabrochar e crescer pra sempre (entenda-se, em liberdade, sem opressão)

Edelweiss Edelweiss

Abençoe a minha terra pra sempre.

E o que se vê, nessas cenas quase finais do filme, é a total afronta aos militares que tomavam as dependências do local da apresentação, pois o barão conclama ao povo que cante com ele, expressando o seu patriotismo.

O povo canta, mas nos indagamos quantos terão verdadeiramente entendido o sentido daqueles versos-apelo, a conclamação a lutar pela liberdade?

Poderá haver algo mais devastador para a alma patriota do que ver substituída a bandeira nacional por outro símbolo, estranho e opressor? A ver, substituídos os risos e a liberdade nas ruas pelo passo cadenciado de tropas estrangeiras?

O que nos leva a pensarmos na responsabilidade de cada um de nós, enquanto cidadão consciente. Dizendo-nos, ademais, do engajamento político a que não nos podemos furtar,  pelo voto consciente, pela análise conscienciosa de tudo que ocorre, das cobranças aos representantes que elegemos.

Finalmente, revela ainda o filme, como, por vezes, conhecemos as pessoas de forma muito superficial. É o caso do namorado de  Liesel, Rolfe que, parecendo muito apaixonado, ao aderir ao nazismo, não pestaneja em entregar toda a família von Trapp aos seus superiores.

Nesse particular, evidencia-se como de importância capital o período do namoro, na atualidade, bastante desconsiderado, diga-se atropelado e esquecido. Esse período que se traduz por suave encantamento3, deveria ser aquele dedicado a uma autoanálise e ao conhecimento do outro, a fim de constatar se, verdadeiramente, desejam a união conjugal os que se dizem enamorados.

No ficção, o barão consegue fugir, com a família, pelos Alpes. Na vida real, sabe-se que a família foi para a Itália e de lá para os Estados Unidos, enquanto a mansão onde moravam em Salzburgo se tornava o quartel-general da SS de Heinrich Himmler.

 

Ficha Técnica:

The Sound of Music

Gênero: Biografia, drama, família

Direção: Robert Wise

Roteiro: Ernest Lehman, Howard Lindsay, Russel Crouse

Elenco: Julie Andrews,  Christopher Plummer, Charmian Carr, Heather Menzies, Kym Karath, Peggy Wood, Eleonor Parker, Angela Cartwright

Produção: Robert Wise

Trilha Sonora:  Oscar Hammerstein II, Richard Rodgers, Irwin Kostal

Fotografia: Ted D. McCord

Duração: 174 minutos

Ano: 1965

 

Referências:

1.XAVIER, Francisco Cândido. Pensamento e vida. Pelo Espírito Emmanuel. 9. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1991. cap. 16.

2.KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. 33. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1974. pt. 3, cap. I, q. 928.

3.XAVIER, Francisco Cândido. Vida e sexo. Pelo Espírito Emmanuel. 2. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1971.cap. 3.

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