Jornal Mundo Espírita

Novembro de 2020 Número 1636 Ano 88

A mulher que lança luz

novembro/2020 - Por Mary Ishiyama

Um vídeo postado na página do concurso Global Teacher Prize, no Facebook, quebrou a rotina de Aqeela Asifi. Stephen Hawking a elogiava e ao seu trabalho, considerando que ela figurava entre as dez finalistas do concurso daquele ano, 2016.

O Global Teacher Prize é um prêmio anual concedido a um professor que se destaca pelos esforços empenhados, que merecem ser reconhecidos e comemorados em todo o mundo. Essa importância deve ser para os alunos e para a comunidade em que está inserido o professor.

Aqeela não ganhou o prêmio, mas foi de grande importância ter seu trabalho reconhecido pela Varkey Foundation e por Stephen Hawking.

Em 2015, ela fora vencedora do Prêmio Nansen para os Refugiados, que é concedido pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados – ACNUR, homenageando o trabalho extraordinário realizado em favor das pessoas afetadas pelo deslocamento forçado.

António Guterres, responsável pelas premiações, discorrendo a respeito da ganhadora desse prêmio humanitário mundial, frisou: Investir na educação dos refugiados permitirá às crianças desempenhar um papel na ruptura de um ciclo de instabilidade e conflito. Pessoas como Aqeela Asifi entendem que as crianças refugiadas de hoje são as que irão determinar o futuro de seus países e do nosso mundo. 1

Ela é um exemplo de que não devemos nos eximir de promover o bem esperando condições financeiras, políticas, ou qualquer outra mais favorável.

Aqeela Asifi nasceu e viveu parte de sua vida em Cabul, Afeganistão. Seus pais eram culturalmente esclarecidos e liberais. Ela e seus irmãos tiveram acesso à educação formal.

Cabul era uma cidade próspera e vibrante; não havia diferença na maneira como homens e mulheres eram tratados. Eu vivi em uma época no Afeganistão que muitos não viram – elucida ela.

Formou-se em História e Geografia, trabalhou como professora, concretizando o seu sonho. Casou-se, formou família e a vida seguia seu curso, até estourar a guerra civil em 1992. Ela, o marido e os filhos tiveram que fugir de Cabul durante o cerco formado pelos guerrilheiros islâmicos mujahidin (combatente, guerreiro santo).

Levamos seis anos para construir nossa casa, saímos sem fazer as malas. Deixei tudo para trás, minha escola, meus alunos e minha casa. Foi um momento doloroso.

Aqeela e família encontraram asilo no assentamento de refugiados de Kot Chandana, Paquistão. Ela tinha apenas 26 anos. Era uma entre mais de três milhões de afegãos exilados nos anos 90, mais da metade crianças, segundo a ACNUR.

Não havia escolas e as meninas não tinham oportunidades para aprender. Aqeela foi de porta em porta para convencer os pais a deixá-la ensinar suas filhas.

Eu estava plenamente consciente das restrições, das normas e tradições culturais. Por isso, tive que ser muito cuidadosa. As pessoas eram generosas e gentis de coração, mas também muito tradicionais. As meninas não tinham permissão para sair de casa e muito menos receber educação.

Com perseverança, ela e seu marido montaram uma sala de aula em uma barraca emprestada e vinte famílias concordaram que suas filhas fossem às aulas. Aqeela começou ensinando higiene pessoal, administração doméstica e educação religiosa. Depois de ganhar a confiança da comunidade, introduziu alfabetização, matemática, geografia e história.

Na falta de dinheiro para o quadro-negro, Aqeela costurou pedaços de panos com textos manuscritos e fixou nas paredes da tenda, escreveu livros à mão. Seus alunos traçaram suas primeiras palavras no pó do chão.

A ilustre professora acredita que incentivando a fé no poder da educação das meninas da atual geração, haverá mais oportunidades para as futuras gerações. Quando se têm mães educadas haverá gerações futuras educadas. Sonho com o dia em que as pessoas lembrarão o Afeganistão, não pela guerra, mas pelo seu nível de educação.

Com mais de 23 anos de dedicação à educação de crianças refugiadas, assinala: As meninas que eu ensinei há 20 anos, agora mandam suas filhas para minha escola.

A escola cresceu. Tinha somente cinco salas e a mobília, material escolar e recursos eram limitados. Espaço insuficiente, priorizando-se as crianças mais jovens. Dessa forma, os alunos precisavam abandonar a aprendizagem no oitavo ano.

A partir da inauguração do novo prédio escolar, em setembro de 2016, Aqeela atende ao pedido de suas alunas que desejam continuar estudando.

Agora podemos fazer este sonho virar realidade. – Afirma.

Após a queda do regime talibã, em 2001, muitos afegãos voltaram para casa. Aqeela e sua família permaneceram no campo de refugiados, onde existem nove escolas, com muitas professoras e mais de 1.500 estudantes, incluindo 900 meninas.

Com a educação, o casamento precoce e forçado diminuiu, na comunidade. Já foram graduados mais de mil alunos, principalmente meninas refugiadas afegãs. Também paquistanesas.

Formados nessas escolas, alguns se tornaram médicos, engenheiros, funcionários do governo e professores no Afeganistão.

Três ex-alunas, retornaram à província afegã de Kunduz e abriram uma escola.

São muitos os depoimentos referentes à importância de Aqeela Asifi. Uma das alunas diz que ela não apenas ensinou a ler e escrever. Foi além, lhes deu confiança e habilidades necessárias para administrar o lar e a família, incutiu nas meninas senso de dignidade e respeito por si e pelos outros.

Aqeela Asifi se define muito bem: Eu sou a mulher que lança luz sobre a educação das meninas refugiadas afegãs nos campos remotos do Paquistão.

 

Referências:

  1. https://www.acnur.org/portugues
  2. https://www.bbc.com/news/world-asia-34256031
  3. https://www.globalteacherprize.org
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