Jornal Mundo Espírita

Abril de 2019 Número 1617 Ano 87
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A mulher por trás do Nobel da Paz

fevereiro/2019 - Por Mary Ishiyama

Alfred Nobel, criador do Prêmio Nobel nas áreas de Química, Física, Medicina, Literatura, possuía uma amiga de nome Bertha, pacifista por natureza. Ele dizia não acreditar que alguém pudesse pacificar, naquele momento, a Europa e ela afirmava ser possível, bastando que se disseminasse a ideia de paz, trabalho, esforço e perseverança.

Em carta, em francês, datada de 7 de janeiro de 1893, remetida a sua amiga, ele destaca a ideia de estabelecer um prêmio para aqueles que fizerem contribuições importantes para a causa da paz.

Bertha Felicie Sophie Gräfin Kinsky von Wchinitz und Tettau, nasceu em 1843 em Praga,  filha do Marechal de Campo e Conde Franz Graf Kinsky von Wchnitiz und Tettau, falecido pouco antes de seu nascimento.  Viveu sob cuidados de sua mãe e de um guardião, membro da corte austríaca.

Era uma grande leitora. De vida social ativa, estudou línguas e música, sonhando se tornar cantora de Ópera. No entanto, percebendo que não poderia viver às expensas de sua mãe, aos trinta anos, ainda solteira, resolveu sair de casa. Contratada pelo barão Karl von Suttner foi servir como governanta de suas quatro filhas.

Conheceu o filho do barão, Arthur Gundaccar von Suttner, engenheiro e escritor. Apaixonaram-se, o que não foi bem aceito pela família conservadora e orgulhosa de sua posição social. Ela precisou abandonar o trabalho.

Abrindo o jornal, viu um anúncio: Homem de idade, rico e de excelente educação busca senhora de idade madura, versada em línguas, para secretária e supervisora doméstica. A Condessa Bertha Kinsky candidatou-se e ganhou o cargo.

Em 1875, foi para Paris, trabalhar como secretária do industrial sueco Alfred Nobel. Não permaneceu no emprego por muito tempo, pois regressou a Viena para se casar, secretamente, com o conde Arthur. Mas, sua amizade com Nobel permaneceu e trocaram cartas pela vida afora.

Ante a pressão da família do marido, o casal partiu para o Cáucaso, onde permaneceu por nove anos.  Ali, ela escreveu e publicou, com o apoio de Charles Darwin e Herbert Spencer, seu primeiro livro Inventarium einer Seele (Inventário de uma Alma), no qual apresenta conceitos de paz.  Logo escreveu sua segunda obra, Es Löwos, uma descrição poética de sua vida.

Em 1885, obtido o perdão da família do esposo, retornaram para a Áustria, agora como Bertha von Suttner. Ali, de fato, se encaminha para a literatura e escreve a maioria de seus livros.

Em 1887, encontra, acidentalmente, uma ata de reunião da Associação Internacional de Arbitragem e Paz (IAPA), fundada em 1880, em Londres, por Hodgson Pratt. Encantou-se ao descobrir uma Associação com ideias e lutas para acabar com a guerra. Eram estudiosos e pensadores trabalhando pela paz, o que a influenciou profundamente.

A partir de 1889, ela começa a despontar através de seus livros e ciclo de palestras, que tinha como título Das Maschinenzeitalter (A Idade das Máquinas). Foi muito criticada por mencionar o desarmamento. Seu romance Die Waffen nieder! (Abaixo as Armas!), foi traduzido para diversos idiomas, popularizando o assunto.

Entre suas tantas atividades, participou da organização do 1º Congresso Internacional da Paz, em Viena,  organizou a Sociedade Austríaca dos Amigos da Paz e a Sociedade Alemã da Paz. Foi vice-presidente do Escritório Internacional da Paz, durante o 3º Congresso Mundial da Paz, em Roma e se tornou líder do movimento internacional pela paz, nas décadas que antecederam a Primeira Guerra Mundial.

A convite de Alfred Fried que, juntamente com Tobias Asser, recebeu o Nobel da Paz em 1911, funda o jornal Die Waffen nieder!, com a finalidade de promover a paz.  Em 1899, foi substituído pelo jornal Die Friedens-Warte (À espera da Paz), com o qual Bertha contribuiu com artigos até a sua morte.

Foi a única mulher a participar da abertura da Conferência da Paz de Haia, em 1899. Apesar de ser apenas participante, influenciou os demais ativistas presentes, sendo bem sucedidos em suas reivindicações, conseguindo que a Conferência estabelecesse a Corte Internacional de Justiça, que se instalou no Palácio da Paz, inaugurado em 1913, por efeito de uma grande doação de Andrew Carnegie.

Graças àquele movimento, em Haia temos a Corte Permanente de Arbitragem, o Tribunal Penal Internacional e a Corte Internacional de Justiça, hoje Tribunal da ONU.

Em 1907, na segunda Conferência em Haia, o Brasil se fez representar por Rui Barbosa, advindo-lhe dali o apelido de Águia de Haia.

Graças à baronesa Bertha Felicie que, através de seus livros, revistas, artigos, palestras em vários países, entrevistas, reuniões públicas, formando comitês, foi implantada nas consciências a necessidade da conquista da paz.

Em 1902, ela sofreu um grande baque com a morte de seu amado marido e grande companheiro. Contudo, ciente da importância de sua luta, não se permitiu esmorecer e, em 1905, foi a primeira mulher a receber o Prêmio Nobel da Paz.

Apesar de enferma e idosa, esteve à frente dos preparativos para o vigésimo terceiro Congresso da Paz, planejado para Viena, para o mês de setembro de 1914. A doença a venceu, no entanto, e ela morreu, em junho, pouco antes do início da guerra mundial contra a qual tanto lutara.

Ela viveu sua frase: Depois de amar, ajudar é o mais belo verbo do mundo!

Referências:

  1. https://www.wdl.org/pt/item/11563/
  2. http://berthavonsuttner.com/ABOUT/index.html
  3. https://www.peace-institute.com/
  4. https://www.conjur.com.br/2010-ago-16/haia-capital-juridica-internacional

 

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