Jornal Mundo Espírita

Junho de 2019 Número 1619 Ano 87

A melhor idade do amor

julho/2012 - Por Andrey Cechelero

Sábado, 10h21 da manhã. Chuva insistente de outono.

Um casal adentra uma panificadora para tomar café.

? Dois cafés com leite e 3 pães de queijo, por favor.

Ela parece um pouco agitada. Não tira os olhos dele.

Ele parece tranquilo. Dessas pessoas que já conseguem viver num tempo um pouco mais lento do que o do relógio dos dias atuais.

A diferença de idade é gritante. Não mais de 40, ela. Próximo aos 80, ele.

A mulher não parece se importar com as possíveis conclusões ou opiniões que os outros possam ter desse encontro, pois não olha para os lados uma única vez.

Ele olha para fora pela janela entreaberta, depois descobre o salão sem pressa, e por fim pousa as mãos lentamente sobre a mesa de madeira antiga.

Ela sorri, carinhosa.

? Todos os seus filhos nasceram aqui nesta cidade?

Ele pensa um pouco… ? Sim, todas elas… três filhas.

? E você? Onde nasceu? ? volta a inquirir a mulher.

? Eu não sou daqui. Nasci no interior… longe da cidade.

? E o que você lembra de lá?

? Ah… muitas coisas… ? responde ele, com leve sorriso.

Então, silencia. Parece fazer algum esforço para recordar de algo especial, mas logo desiste. Volta a olhar para fora, procurando a chuva fina, e depois de alguns segundos continua a falar:

? Sabe… acho que tive uma vida feliz…

Ela permanece interessada. Um interesse de primeiro encontro. Observa os cabelos brancos dele, a tez um pouco castigada, os olhos azuis.

Respira fundo. Alguém poderia dizer que é o respirar de quem está apaixonado.

? Você só casou uma vez? ? pergunta ela, com certo embaraço na voz.

? Sim. Tereza. Mãe de minhas meninas. Que Deus a tenha.

Ela fica um pouco emocionada e constrangida, repentinamente. Esboça um sorriso para disfarçar. Olha para a mesa. Ainda restava um pão.

? Pode comer. Já estou satisfeita.

? Almoçamos juntos amanhã? ? pergunta ele, ansioso por ouvir um sim.

? Sim… claro que sim. É dia de almoçarmos juntos. Você sabe que gosto muito de estar com você, de ouvir suas histórias…

? Estou um pouco esquecido hoje, eu acho. Contei pouco…

? Não tem problema ? disse ela, carinhosa. ? Tem dias que a gente está com a memória mais fraca. Sabe que esses dias precisei lembrar o nome de minha professora de piano, e levei uns 5 minutos para recordar? Logo ela que me deu aulas por mais de 15 anos!

? O Dr. Maurício disse que é importante ficar puxando as coisas da memória sempre. Ele diz que é como um exercício físico que fazemos para não “enferrujar”. ? conclui ele, concordando com as observações prévias dela.

? É verdade… ? ela suspira. ? Precisamos cuidar da memória…

Novamente um longo silêncio entre os dois.

Ele volta a vislumbrar o exterior, contemplativo e sereno.

Ela nota seu rosto em detalhes, com um misto de ternura e compaixão.

Fecha os olhos, por um instante, como se fizesse uma breve oração, uma rogativa pequena e sincera a uma força maior.

Volta a abri-los, vagarosamente, e então pergunta:

? Pai…

? Pai… Posso pedir a conta?

Ele acena positivamente. A conta chega. Ela se levanta primeiro, vai em direção a ele, envolve-o num abraço e o ajuda a levantar.

Aquela era a rotina de todo sábado, às 10:21 da manhã, nos últimos dez meses.

***

O Espírito Benedita da Silva, na obra “Ações Corajosas para Viver em Paz”, afirma com beleza:

“Foram nossos genitores que nos proporcionaram um corpo ? abençoado instrumento de trabalho para o nosso progresso ?, bem como um lar, rico ou não, a fim de que hoje ostentemos no mundo a inteligência, os títulos, os valores econômicos e tudo o mais que nos obsequia a existência.

Pensando em tudo isso, louve os seus pais, tenham sido eles pobres ou abastados, tenham lhe dado facilidades ou posto nos campos do trabalho desde cedo.

Cuide deles, agora quando estão velhos, alquebrados, frágeis ou doentes. Não os trate como se fossem fardos a impedir o livre uso da vida expansiva ou descomprometida que desejaria levar.

Faça o possível para não os atirar nos tristes quartinhos dos fundos da casa, aonde ninguém vai; não se furte à alegria de apresentá-los aos seus amigos e a suas visitas; ouça o que eles tenham a dizer, não faça de conta que não os escutou; quando estejam em condições para isso, leve-os para as refeições à mesa com você. Retribua, assim, uma parcela pequena do muito recebido por seus genitores anos atrás.”[1]



[1] Teixeira, Raul. Pelo Espírito Benedita da Silva. Ações corajosas para viver em paz, cap 7. Editora Fráter.

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